09 November 2010

Carta aos meus amigos (excertos)

O tecto do meu quarto era perfurado por três buracos, protegidos por um vidro grosso e rugoso. Três entradas de luz cortadas por pesadas e velhas vigas de madeira escuras. Para mim, sempre foram misteriosas, místicas, quase. Por lá entrava a lua e o sol, para lá fugiam os meus olhos.

Todo o espaço cumpria o ideário mexicano. Velhas paredes altas, meias brancas meias amarelas, comidas pela humidade. Dois arcos – um redondo e outro rectangular – e essa luz. O meu refúgio em Querétaro, a minha cidade bipolar.

Lembro-me em particular de uma noite. Deitado na minha cama, senti o corpo dormente e uma energia a tal ponto forte que tive medo. Não sei de onde vinha, para onde me levava. As minhas mãos suavam enquanto os meus olhos se fixavam nessa luz que incidia sobre a minha cama e o meu corpo. O meu coração latia e mil ideias, imagens, pessoas e lugares surgiram na minha cabeza. Tudo rápido, em simultâneo.

Compreendi então alqo que sentía, mas que ainda não tinha racionalizado – essa imensa energia de uma terra que há muito me chamava, mas que acabou por dar-me muito mais do que algum dia pensei ser possível. México.

Não há vivência sem auto-permissão. Muito menos sem contexto e estímulos exteriores. O que vi naquele lugar, as pessoas que conheci, essa tensão dramática que emana de todos os lados e que me comovia sempre até às lágrimas, sem saber bem porquê, despertaram em mim algo muito forte que me empurrou para um precipício emocional invertido. Vertigem que as escuras pedras de Querétaro tão bem simbolizavam, com a sua profundidade de histórias. Que eu sentia como gritos nas madrugadas em que, sem conseguir dormir, caminhava uma e outra vez pelas velhas ruas vazias.

(…)

Assim se passaram meses. Um tempo onírico superior ao real (…). Queria voltar, construir algo num outro contexto. Mas não posso. O meu mundo é feito de tantos e tão longínquos. Como tal, converto esta experiência em algo que me faça crescer. E nada mais (…)

*carta de despedida aos meus amigos mexicanos.

06 November 2010

México: E tem o resto

E tem o resto, que é quase tudo. Para o qual ainda tento arranjar palavras. Já viajei por muitos lugares, vivi nuns quantos, mas só Angola me faz sentir esta incapacidade em descrever o que a terra, a terra mesmo, me faz sentir. Se em Angola é compreensível, ou não fosse esse também o meu país, no caso do México é um enigma.

Cheguei apenas com a curiosidade. E a vontade forte de ver amigos antigos, para além de outros que entretanto tinha conhecido através de contactos cruzados. O que aconteceu nos meses em seguida escapou-me do controlo.

Comparo este país a um vulcão em repouso – explosivo e intenso, dono de um silêncio comprimido. A energia salta cá para fora em avalancha. Ao percorrê-lo, sempre que olhava para a paisagem, batia de frente com essa carga dramática que o caracteriza. México milenar, sofrido, sangrento. México divertido, alegre, festivo, colorido. Gigante. Tudo junto, num só. Isto emociona. E muito. Uma emoção que vem do nada e termina nos olhos, apanhando-nos de surpresa.

Sente-se, quando se caminha, uma urgência-lentidão. É como um velho sozinho, solitário, que se move lento, pés pesados, mas cuja experiência de vida, de rugas, de sulcos impõe um respeito de tal forma emocionado, que é impossível não o abraçar e ouvir as suas histórias, enquanto se chora e ri. É um grito, uma energia que te eleva.

Com a sensibilidade no ponto máximo, não escrevi, não pensei muito. Entrei a fundo na vivência de um povo magnífico, muito terno e divertido. Comi de tudo e mais alguma coisa - tacos, quesadillas, chiles de muitos nomes (mas que não arde como o nosso jindungo, descobri), mole, pozole, flautas, enchiladas, burritos, camarão de todas as formas e feitios. Conheci a música ranchera, o huapango, os mariachis, a banda. Susana Zabaleta, Chavela Vargas, Lila Downs, José Alfredo Jiménez entraram na minha banda sonora oficial. Alucinei com as pinturas (e a história) de Frida Khalo e os murais de Diego Rivera. Li Monciváis, Octávio Paz, Laura Esquivel, Carlos Fuentes.

Vi Pedro Infante como "Pepe, el Toro", figura mítica da época de ouro do cinema mexicano, nos anos 50. Aprendi um pouco do "albur", linguagem plena de duplos sentidos normalmente ligados ao sexo, que desorientam qualquer recém-chegado, para gargalhada do pessoal. E aprendi expressões que só aqui se usam e que tornam o espanhol do México muito divertido, sobretudo pela entoação, que dá às palavras um ar entre o infantil e o burlesco. "Peda", "qué onda?", "pendejo", "wey", "está cabrón", "chamba", "chido", etc, etc, etc.

Vi também como se pode rir da morte, para a qual os mexicanos têm mil e um nomes. Os esqueletos e caveiras estão presentes em tudo - desde doces a jogos de carta, passando por roupas e brinquedos de criança. Oferecer uma caveira de chocolate, de açúcar ou de goma é sinal de apreço, e o dia dos mortos, em 2 Novembro, é acontecimento nacional. Pena que não tenha estado lá para ver.

Assim, ao sabor do que esta terra me ditava, reformulei os meus planos vezes e vezes sem conta. Apaixonei-me mais do que a prudência aconselha e vivi em torno disso. Conheci, entreguei-me, permiti-me e trouxe comigo histórias que me impulsionaram para outros patamares.

Há pouco mais de um mês regressei a Salvador da Bahía. Tinha que voltar, para buscar a maior parte das minhas coisas e fazer o trajecto de despedida. Dentro de umas semanas regresso ao México e a Querétaro. Última etapa de uma viagem na América Latina que se está a revelar uma verdadeira divisora de águas. Como queria que fosse.

México: De costa a costa

Viajei. Desde as praias de Mazatlán, no Pacífico, às de Yucatán e Quintana Roo, no Caribe. Cancun, Playa del Carmen, a fantástica e ainda quase virgem ilha de Holbox, onde nadei ao lado de tubarões-baleia.

Fiquei de boca aberta em Tulum, Chichen Itza, Palenque, Monte Albán e Tenochtitlán, ruínas pré-hispánicas de Maias, Zapotecas e Astecas. Monumentais construções no meio da selva, com uma vibração intensa. E o antagonismo. Hoje, os descendentes destas civilizações formidáveis parecem fantasmas. Marginalizados e estigmatizados socialmente, são como sombras a passar nas ruas. Caminham junto às paredes, nunca no centro, de cabeça baixa, como que pedindo permissão para passar na terra que mais do que ninguém, é deles por direito ancestral. Fotos de cartão postal, apresentados pelos seus como algo exótico. É triste.

Percorri cidades históricas. A fervilhante Mérida, a pituresca San Cristóbal de las Casas, a histórica Guanajuato, e a pacata Oaxaca, com a sua Guelaguetza, o mais importante festival de folclore mexicano, que tive a sorte de assistir. Chiapas, com seus caracóis zapatistas, onde se tenta ser fiel ao modo de vida e ideal revolucionário delineado pelo comandante Marcos. Toluca e Metepec, centro de artesanato onde moram os meus grandes amigos mexicanos do tempo de Santiago de Compostela. San Luis Potosí, já mais para norte, com os seus chocolates. Puerto Veracruz, porta marítima do México e cheia de histórias de escravos africanos, que recolhi, e estou a escrever para publicar em Angola.

A Cidade do México, que afinal não é tão confusa e tensa como pensava. Museu de Antropologia, Belas Artes, a Catedral, casa azul da Frida Khalo, o centro histórico e a principal atracção para mim, o metro. Na hora de ponta, sempre que as portas se abrem, as pessoas atiram-se literalmente para dentro das carruagens, num vale tudo em que só se sentem e vêem pés, cotovelos e braços numa amálgama bem apertada de corpos. Uma espécie de candongueiro sobre carris. “Se houvesse metro em Luanda seria assim”, pensei várias vezes.

E Querétaro. A minha querida Querétaro, a minha cidade bipolar. Lá, na calle Pasteur, quase no cruzamento com a Avenida Zaragoza, vivi dois meses, enquanto fiz um curso intensivo de espanhol. Lá cheguei totalmente esfrangalhado, fiz a minha travessia do deserto interior e me recompus.

Querétaro. Cidade no centro do país, a três horas do Distrito Federal (Cidade do México). Nobre, colonial, dita conservadora, com um centro histórico ocre, verde e pedra, muito bem preservado. A cidade dos arcos. Lá começou o movimento que arrancou a ferros a independência do México, há 200 anos. Lugar pacífico, muito seguro, senhorial e religioso. E com muita vida. Todos os dias, nas ruas centrais, actuações de teatro, circo, concertos, gente de um lado para o outro. Cidade que começa a viver a partir das 10 da manhã, algo que me custou a acostumar.

Querétaro da animação, com uma noite fantástica, comida do melhor, e o bar bem simpático de Mbimbi, congolês de Kassai, filho de angolana, e que já viveu nas Lundas. Ponto de encontro dos muito poucos emigrantes africanos a viver em Querétaro, o restaurante era animado por festas de kwassa-kwassa, zouk, kizomba, cabo-love e tarraxinhas. Era também o palco, todas as sextas-feiras, do projecto de Luis Enrique, um mexicano que dirige um grupo de percussionistas queretanos que arrancavam sons magníficos dos seus batuques. E com duas dançarinas de danças tribais que... sim senhora.

Querétaro. Mais um território sentimental a acrescentar à minha lista de lugares a voltar, sempre. Onde deixei amigos, e uma história que vou retomar daqui a um mês, quando regressar, antes de sair definitivamente da América.

"Paloma Negra", Lila Downs



A incrível Lila Downs cantando "Paloma Negra", uma das "rancheras" símbolo do México. Muitas memórias.

05 November 2010

México: Política, traidores e os States

Mexicano gosta de política. E fala dela em voz alta, principalmente no reduto familiar ou entre amigos. Esta forma de convívio, aliás, é também parecida com a nossa. A família tem um papel fundamental, e beber e comer à volta de uma mesa enquanto se discute o Deus e Diabo, a vida dos vizinhos ou as celebridades, é parte fundamental do cardápio.

Mais atrevidos que os angolanos, embora também com alguns cuidados, falam do Partido Revolucionário Institucional (PRI), que esteve uns impressionantes 71 anos seguidos no poder (por isso se fala, por vezes, na mexicanização da política angolana). Discute-se a eleição fraudulenta de Felipe Calderón (teve que assumir a guerra contra o narcotráfico para se credibilizar junto de um eleitorado que o via como uma farsa, dizem alguns), ou da incrível e inédita aliança entre uma formação política super esquerda, o Partido de la Revolución Democrática (PRD), com uma de super direita, o Partido Acción Nacional (PAN, no poder). Ideologias antagónicas postas de parte, com o fim único de derrotar o PRI. Uns a favor, outros contra, todos gritando, animados, os seus argumentos enquanto rolam tacos de tudo e mais alguma coisa, pozoles (espécie de sopa) e sumos de fruta. Porque, atenção, e este é um pormenor que nos distingue, e muito, os mexicanos raramente bebem álcool durante a refeição (!!).

Fala-se também em traidores. Porque, opinião generalizada (no meu círculo de amigos, pelo menos), o mexicano sempre traiu o seu próprio país, edificando-o à lei da bala. A começar pelo mítico e odiado presidente Santa Anna, que no século XIX vendeu uma boa parte do território aos EUA; passando pelos diferentes governos corruptos, e terminando nos próprios narcotraficantes, mexicanos que espalham o terror no seu próprio país, traindo-o assim, mais uma vez.

E de política em política, chega-se também a um assunto inevitável: Estados Unidos da América. O vizinho do norte é amado e odiado, ao mesmo tempo. Se de lá vêm todos os males do México, na opinião de muitos, a começar pelo tal trauma nacional que é grande parte do território original mexicano fazer agora parte dos States, é também da "terra dos sonhos" que vêm grandes influências culturais e comportamentos. Ao ponto de haver uma cultura própria de mexicanos residentes nos EUA, os chamados "chicanos", que gerou movimentos musicais e literários com repercussões na "terra mãe".

Na verdade, a política mexicana em relação aos EUA faz-se de joelhos. Ou não estivesse a economia do México dependente dos “gringos” em mais de 80%. Enquanto isso, esses mesmos gringos constroem um muro ao longo da fronteira comum para conter a emigração ilegal e o trabalho dos “coiotes”, os intermediários que levam às escondidas os mexicanos até ao outro lado da linha a troco de muito kumbu.

Enquanto erguem muros da vergonha, os mesmos States ameaçam intervir em território mexicano caso o governo de Calderón não consiga pôr fim à matança entre narcotraficantes. Palavra de Hillary Clinton a denunciar uma hipocrisia desmedida da administração americana. É que o tráfico no México é quase totalmente direccionado para o mercado gringo. Na verdade, o que a senhora Clinton e seus conterrâneos deviam perceber é que o descalabro no México é efeito, não causa. Essa, está no seu país, nos jovens que querem viajar na maionese da liamba ("mota", na gíria mexicana) que vem do outro lado da fronteira. Que tal lutar contra isto antes de vir com ameaças irresponsáveis? Hipocrisia chapada.

Apesar destas makas e outras, como as mortes de emigrantes na fronteira norte, muito mexicano torce pela selecção norte-americana no Mundial, e orgulha-se desta relação de interdependência umbilical entre os países (boa parte dos produtos consumidos nos EUA são produzidos no México - mão de obra mais barata, claro está). No fundo, não é mais que uma grande ilusão, uma síndrome de inferioridade do tipo “se estou com os grandes, também sou grande”. Motivo de muitas discussões à volta de cervejas. Faz recordar aquelas fotografias entre um Zé-ninguém ultra sorridente abraçado a uma super estrela com cara de enfado, que só aceita tirar a foto porque é esse "zezinho" quem lhe alimenta a fama.

Mas é precisamente aí que reside a diferença. O México é tudo menos um Zé-ninguém. É um país com mil e uma riquezas, com uma cultura milenar, muito forte, capaz de fazer inveja aos gringos lá do norte, se eles tivessem sensibilidade para tal. Ofuscado pelo poderio dos EUA, este país reduz-se, minimiza-se, encolhe-se, ao mesmo tempo que esporadicamente se agarra à tradição e a um sentimento nacionalista, como o que este ano despertou com toda a força durante a comemoração dos 200 anos da independência e dos 100 anos do início da Revolução (Que independência? Que comemoramos? Independência de Espanha e dependência dos States? A morte por todos os lados?, perguntavam os velhos do Restelo).

Fiquei, no fundo, com a ideia que é um país um pouco perdido, inclusivamente culturalmente. Alterna constantemente entre a super-afirmação e a submissão em relação aos estrangeiros, que são sobrevalorizados, e principalmente ao modelo gringo, que muitos encaram como o ideal, o fashion, o civilizado. Ainda que não o admitam. Contradições que põem o país numa encruzilhada a ser desfeita, para que o México levante voo por si mesmo. Sem a sombra paternalista e oportunista dos norte-americanos.

Aqui, uma música ácida e divertida da grande Susana Zabaleta, sobre esta relação México/EUA. "Los Vecinos".

México: Narco e risadas

Houve os meses que foram passando. Percorri México de uma ponta à outra. Tirando o norte, onde o terrorismo do narcotráfico, as lutas entre clãs antes aliados, agora rivais, multiplicam os banhos de sangue. México sangrento nas manchetes dos jornais. Sangrias em bares e restaurantes, chacinas em festas, centros de desintoxicação e onde calhar. Mais de 28 mil mortos desde 2006, ano em que Felipe Calderón se tornou presidente. Gráfico aterrador em curva ascendente.

Há o medo, sim, embora todos os mexicanos saibam que quem não tem nada a ver com o assunto não é um alvo directo. A não ser que esteja no lugar errado à hora errada. À mesa, durante as refeições de família ou entre amigos, o assunto vem sempre à tona. Enumeram-se as estradas nacionais por onde já é perigoso passar durante a noite, relatam-se movimentos suspeitos de amigos ou vizinhos, contam-se histórias que excitam os noticiários, fala-se na guerra que o governo diz travar contra os narcotraficantes e nos resultados não muito animadores.

E todos dizem algo interessante, que atesta a dimensão do problema. O Governo, já ninguém tem receio de criticar, como há alguns anos. O poder político deixou de ser uma ameaça. O medo, agora, é de falar algo que enfureça os narcotraficantes, porque as represálias são, normalmente, fatais. Só este ano os narcos já mataram 11 jornalistas, segundo os Repórteres Sem Fronteiras. Dezenas de outros foram ameaçados. Tornei-me, inclusivamente, bastante amigo de uma repórter que teve que fugir com a sua filha da cidade onde vivia, para outra, depois de ter escrito um livro em que expunha ligações entre políticos e grupos de traficantes. O que antes era o bufo do governo tornou-se o bufo dos narcos. Por isso há receio em confiar na pessoa ao lado e em chamar a atenção de quem não se deve.

Ao mesmo tempo, há a deslocação interna de habitantes dos estados do norte do país, os mais perigosos, para lugares mais tranquilos no centro e sul do país. Embora segurança seja cada vez mais relativa. Há poucas semanas, até a Cidade do México, onde nunca tinha acontecido nenhum acto violento relacionado com o narco, foi palco de uma matança de seis pessoas. Ciudad Juárez, na fronteira com os EUA, e considerada a mais perigosa do México (o número de assassinatos em relação ao número de habitantes é maior do que em Mogadíscio, na Somália), diz adeus todos os dias a dezenas de habitantes.

Um quadro negativo e negro? Sim, sem dúvida. Mas não extremo. O mexicano, à semelhança do angolano, tem uma capacidade incrível de burlar-se das suas desgraças. Barreira eficaz contra o pânico colectivo. Entre a descrição de episódios macabros, vem sempre a piada, a risada estridente, um coro de vozes e confusão tão típicos da Banda, também. Mexicano ri-se de si mesmo. E essa é a sua principal arma contra a paranóia e a dificuldade.

Interregno

Um interregno longo. Um espaço de mim para mim. Porque durante estes meses, as palavras foram o que menos falta fez. As minhas, digo.

Fui por um mês e fiquei quase quatro. México. A minha novela mexicana. Roteiro desajeitado de quem foi visitar terra estranha e voltou com ela encravada nas unhas. “México à flor da pele”, escrevi no post anterior. Quando a missa não ia nem a metade.

Foi tudo muito para dentro. Uma vertigem cá dentro. Um abrir a muita coisa que a minha rotina agitada de Luanda, dedicada ao que me era exterior, me fez esquecer. Nos últimos anos fui-me adiando e omitindo, porque na minha cabeça, acima de tudo, era necessário escrever, era necessário estar atento, era necessário fintar, era necessário blá, blá, blá. Era necessário eu, também, e disso não me dei conta. Até agora.

Finalmente permiti-me e senti-me muito bem nesta nova posição. Mais equilibrado. Esta foi a herança de meses a fio em que saltei de turbilhão para alucinação, de êxtase sorridente para declive obtuso. E sabem que mais? Vivi. E sabem que mais ainda? Mudei. E pus na cabeça de uma vez por todas que há coisas que não posso omitir se quero, afinal, o que todos querem – ser feliz.

Discurso muito meu, este. Desculpem-me as lamechices. Mas, sabem, um homem também ama e chora. E isso, espantem-se, é tão bom.

05 August 2010

Nada

O nome de mais uma canção. Agora de outro lado deste continente, no reverso de onde parti. Zoe. Não apareço há muito por todos os motivos e por nenhum. Estou no México, para que não duvidem mais. Um mês e meio. Cidade do México - DF, Mazatlán, Escuinapa, Mazatlán, Querétaro, Toluca, Querétaro, Guanajuato, DF, Cancún, Tulum, Punta Allen, Tulum, Playa del Carmen, Cancún, Chiquilá, ilha de Holbox, Chiquilá,Valladolid, Mérida, Mahahual, Oaxaca, Mitla, Hierve el Água, Tule, Oaxaca, Monte Albán, Oaxaca, Mazunte, Oaxaca, DF, Mazatlán, DF, San Cristóbal de las Casas, Ocosingo, La Garrucha, Ocosingo, Palenque, Cidade do México agora como ponto de permanência, não de escala.

Muitas somas e reduções num turbilhão descomunal que está a pôr em causa muito do que tinha estabelecido como as minhas verdades imutáveis. Foi-se a arrogância do auto-conhecimento consumado e do futuro definido a régua e esquadro. Foi-se muita coisa, veio muita outra. Para ficar.

Deixou de ser uma viagem de paisagens e quilómetros. Passou a ser uma vertigem interior. Principalmente por isso não tenho escrito. A dica é balofa, repetitiva, monótona e lamechas, mas de facto "nada voltará a ser o mesmo". O espaço está em aberto.

Daqui regresso a Toluca; de lá regresso a Querétaro. Ponto final, vírgula ou regresso ao lugar onde, de facto, quero regressar, tudo indefinido. México à flor da pele.

17 June 2010

La Negra

Não me canso de a ouvir em repeat. Na verdade, tem sido a minha grande companhia para onde quer que vá. La Negra, Mercedes Sosa. Argentina, o seu chão, que a ama profundamente. É complicado para mim descrever o efeito que têm em mim a força desta voz, das músicas que canta, dos poemas que interpreta. Elevam-me. Creio que é o que posso dizer.

E como fazia com Pantera, em Cabo Verde, que admiro profundamente, mas que não tive a sorte de conhecer, também aqui faço questao de confirmar junto a todos a dimensão de Mercedes Sosa. A quem vou conhecendo faco a mesma pergunta, só para ouvir a mesma resposta: "Quando ela morreu foi comoção geral, nao foi?". "O país parou. Fizeram-lhe uma vigília de dias quando foi internada, e o velório foi uma coisa impressionante. Ela era muito amada por todos", resposta comum, mais palavra menos palavra. E lá vou eu com aquela sensação de que, realmente, há pessoas enormes neste mundo. O que é sempre reconfortante.

La Negra, idealista, exilada na ditadura argentina, la "mama grande", como lhe chamou Hugo Chávez quando ela faleceu. No seu corpo enorme de tucumana se aconchegavam jovens músicos apanhados no furacão do sucesso e da destruição total. Como Charly Garcia, rebelde irremediável que, nos braços de Mercedes Sosa, "se parecia como un niño", como me conta Gonzalo.

Mercedes. Curiosa coincidência do nome com uma paixão mais que publicitada pela alta velocidade. Ficou famosa por cá a sua frase: "a diferença entre conduzir bem ou mal está na quantidade de bichos que ficam colados ao vidro no final da viagem".

Tenho uma banda sonora desta viagem, em permanente expansão. E ela preenche a maior parte, sobretudo com os seus "zambas", música tradicional do norte da Argentina, marcada por uma percussão com contratempos lentos mas ao mesmo tempo alucinantes. "Balderrama", "Galopa Murrieta", o clássico "Gracias a la vida", "Maza", "Canción con todos", e outros tantos. Arrepiam-me da cabeça aos pés. E sobretudo têm tudo a ver com o lugar onde estou, com as paisagens e as pessoas. Na verdade, Mercedes Sosa, com a sua voz, os seus poetas e compositores, tem a vibração desta terra. Talvez seja sugestão. Talvez nao. La Negra lado a lado, nota a nota, rumo a rumo. La Negra.

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Muita coisa ainda por contar. E que vou adiando, por falta de tempo e porque o processamento de tudo o que vi e experimentei nas últimas semanas ainda está em curso. Loading... and loading... And loading.

De Buenos Aires a Bariloche; de Bariloche a El Calafate; de El Calafate a Puerto Natales, Chile; de Puerto Natales a Ushuaia, Tierra del Fuego; de Ushuaia a Buenos Aires, a única viagem de avião nos milhares e milhares de quilómetros que percorri nas últimas duas semanas em direcção ao sul. Agora uma outra. Hoje à noite. 21.20. Mexicana de Aviación. Buenos Aires/ Cidade do México/ Mazatlán.

Reloading... mais uma vez esta sensação que me acompanha desde que fui concebido - uma saudade permanente e de certa forma pesada por algo. Saudade perene. Mas acima de tudo um sentimento de profunda gratidão, emocionada até às lágrimas. Aos abraços de novos e velhos braços, aos elementos, à terra crua, aos céus descomunais e profundos, às montanhas tão imponentes como nos habituámos a imaginá-las, às neves perpétuas, ao sol que, por estes dias, no sul extremo, se eclipsa antes de ser totalmente parido pelo céu. Grato a todos os elementos pela forma como se entregam sem limitações a um forasteiro apanhado nas malhas da "cintura cósmica do sul".

Loading... and loading... and loading... and loading...

13 June 2010

Portas da Patagónia

A estrada passa, fica para trás. Passa e sempre continua. A estrada com as suas marcas, linhas contínuas, descontínuas. A estrada que delimita a paisagem a que eu vou assistindo das minhas janelas de autocarros, desimpedidas, sem barras a cortá-las. A minha viagem.

Buenos Aires, 31 de Maio. Auto-estradas ao ritmo de Cerati, rumo ao sul. Pampa seca, milhares de quilómetros e pampa, pampa, pampa. Paisagem desértica, gado, pampa na noite gelada numa estrada que corta a Argentina. A noite longa, embaciada e dormente na janela de autocarro, ecrã priveligiado de quem ali está sem saber bem como. Pampa que essa noite traga e que se ergue em movimento tectónico em montanhas friorentas que anunciam a Patagónia argentina e os Andes, mais à frente. O sol nasce, por entre o nevoeiro, tomando de assalto o Vale Encantado. Assim se chama, e assim é. Pedregulhos despenteados e ziguezagueantes no cone sul-americano. Primeiro contacto com o gelo andino.

Bariloche, porta do sul argentino. Pensão Witkter, do Wikter que sempre sonhou em ir a África. O Tronador, a montanha que ruge, e os seus glaciares. Os sete lagos e San Martin de los Andes, Puerto Bles e alguém que pergunta se a história de diamantes em Angola é como a do filme "Blood Diamond". Angola em desenhos de guardanapos de papel, Angola nas conversas em autocarro com velhinhas de todos os lados da Argentina que insistem em alimentar-me, como se o facto de viver na Banda signifique automaticamente estômago roncante, como o Tronador. A curiosidade pela nossa música, comida, e a minha dificuldade crónica de traduzir para espanhol óleo de palma (de uva?, azeitona?, milho?, perguntam), mandioca e funge.

Bariloche dos chocolates, do ambiente suíço. E do gelado, frio de rachar, do exótico. Porque para mim exotico é isto - neve, lagos gelados, gelo na estrada, glaciares, condores. E a lembrança de uma discussão numa das reuniões de redacção do NJ, sobre a pertinência de usar a palavra "exótico". Porque afinal, como tudo, é apenas uma questao de perspectiva. Os bichos raros as vezes não são tão raros como isso. Outros sim, são, mas nao se manifestam. Mas essa é outra história. O que importa é que o chefe Freitas tinha, mais uma vez, toda a razão.

Bariloche, início da Patagónia que desde muito novo, muito por culpa dos contos e crónicas de Sepúlveda e do livro de Chatwin, me atraiu imenso. Do papel para a estrada. Patagónia. Cheguei.

01 June 2010

Parabéns puto Vemba!!

O jornalismo angolano conquistou este fim de semana pela segunda vez consecutiva o prémio Jornalista Africano CNN MultiChoice de língua portuguesa com a atribuição do galardão a Sebastião Vemba com um trabalho sobre deslocados.

No conjunto de reportagens “Adeus Ilha”, que Sebastião Vemba escreveu para o Novo Jornal e que no sábado, lhe permitiu ganhar o prémio da CNN para a categoria de língua portuguesa, conta-se a odisseia de milhares de pessoas que foram obrigadas a deixar a Ilha de Luanda para a área do Zango, na periferia de Luanda.

O prémio, entregue em Kampala, Uganda, na sua 15.ª edição, coloca Angola a ganhar este galardão pela segunda vez consecutiva, depois de em 2009 Ernesto Bartolomeu, da Televisão Pública de Angola, o ter também recebido com um reportagem sobre a batalha do Cuito Cuanavale.

Sebastião Vemba tem 25 anos, é jornalista há quatro, e integra hoje os quadros do “Economia&Mercado”, embora se mantenha como colaborador do jornal onde publicou as reportagens vencedoras.

Após a atribuição deste prémio, a ministra da Comunicação Social, Carolina Cerqueira, felicitou o premiado e disse ser este um incentivo para os jornalistas angolanos participarem nas próximas edições, dignificando o jornalismo nacional.

Sobre Vemba, António Freitas, chefe de redação do Novo Jornal, realçou a “sensibilidade” que o jornalista tem para a reportagem, a sua “capacidade de observação” e como, na construção da narrativa, “transporta com facilidade o leitor para a ação”.

“É um jovem com imenso potencial (tem 25 anos e quatro de profissão), muito empenhado , com uma imensa vontade de aprender e com muito para dar. Vai, na certa, dar que falar no jornalismo angolano”, disse António Freitas.

Também a secretária geral do Sindicato de Jornalistas Angolanos, Luísa Rogério, considerou este prémio como “uma vitória do jornalismo angolano”, que vem “atestar a melhoria do jornalista que se faz no país”.

“O trabalho que conquistou o prémio tem ainda como sublinhado o facto de ser uma chamada de atenção para os problemas sociais do país”, disse.

LUSA
... e eu acrescento: esta reportagem, o Vemba fê-la doente. Ter subido ao camião onde as pessoas estavam a ser carregadas como animais para o Zango foi de se aplaudir. Faro jornalístico a toda a prova. O resultado final foi uma supresa grande e representou, sem dúvida, um salto de gigante na forma e conteúdo dos seus textos. Parabéns meu puto! Que orgulho!
*foto de Aoaní d'Alva, copiada à sucapa do paralelosehemisferios.blogspot.com, de Isabel Bordalo

27 May 2010

27 de Maio

Hoje. 33 anos de silêncios.

Buala

Aqui em baixo, um novo projecto, a que MUKUARIMI se associa:

PRÉ-LANÇAMENTO BUALA [em fase de teste]
Temos o prazer de convidar a visitar online o BUALA, novo portal de Cultura Africana Contemporânea: http://www.buala.org/

A partir de hoje, e durante 30 dias, o portal funcionará em fase de teste para darmos a conhecer o projecto a um grupo de pessoas, instituições e empresas que julgamos poderem ter interesse em colaborar activamente nesta ideia. Estamos portanto permeáveis a sugestões, correcções e novas colaborações.

Com o apoio da Casa das Áfricas [Brasil] e Fundação Calouste Gulbenkian [Portugal], foi possível implementar o site que agora apresentamos. Aguardamos comentários,

Pela equipa BUALA,
Marta Lança, Marta Mestre e Francisca Bagulho

Outono e Lo de Charly

Luz de Outono. Luz e frio de Outono na latitude da Cidade do Cabo, mas num outro lado do mundo. Buenos Aires com o acordeão de Chango Spasiuk. Chámame do norte e nordeste, Misiones. Sempre a música a dar um toque especial à coisa. É vício.

Nas ruas, os despojos das comemorações da Revolução de Maio, que há precisos 200 anos dava o mote para a independência argentina, seis anos depois. A libertação definitiva das “províncias unidas do sul” que o hino, obrigado por decreto, recorda todas as meias-noites nas rádios nacionais. Versão oficial ao estilo militar, versão (lindíssima) de Mercedes Sosa e Folkloristas, ou versão Charly Garcia.

Bicentenário e as ruas da capital federal, o microcentro copy-paste Espanha oitocentista, abarrotadas de gente. Altos e menos altos brancos-europeus, baixos e de olhos rasgados-asiáticos, baixos e menos baixos de pele curtida pelo sol e frio em traços indígenas. Gente de todo o tamanho e feitio a lembrar que a história desta terra é origem e mestiçagem.

Os descendentes dos escravos não se vêem. Não existem mais, ainda que há dois séculos 40% da população argentina fosse negra. Como vários povos índios, foram dizimados, mas numa campanha de esperança podre. Foram enviados para a frente das várias batalhas que moldaram a Argentina. Se regressassem vivos e inteiros, tornavam-se livres. Se não, paciência. Pois bem: ou não voltaram ou desapareceram do mapa. Eclipsaram-se. Argentina parida no sangue – dos negros, dos índios - um milhão de mortos em campanhas de deserto. Um país que agora se celebra.

O sangue também da ditadura. 30 mil mortos em sete anos de um dos regimes mais extremos da América Latina dos finais dos anos 70. Ainda hoje se condenam carrascos, velhos antes em prisão domiciliária dourada, e que vão terminar os dias na cadeia como qualquer criminoso. As feridas estão demasiado abertas, mas pelo menos tentam-se curar. Ao contrário do nosso Maio de 77, que poderá ter vitimado mais do dobro desta tragédia, mas que virou tabu de Estado. A ditadura argentina, dizia. E os valores da liberdade e resistência em noite de celebração nas vozes de intervenção que subiram ao palco.

Noite na avenida 9 de Julio, centríssimo de Buenos Aires, junto ao obelisco onde se ergueu pela primeira vez a bandeira argentina e que, por vezes, serve de pénis encamisado das campanhas de luta contra o SIDA. O aproveitamento político também da praxe de uma data de todos. Partidarização do aniversário de uma revolução, com campanhas do governo de Cristina Kirchner. A lembrar a nossa Banda. Versão mais light, mas igualmente nojenta e inadmissível.

Noite de Buenos Aires e da Argentina oficialmente comemorada. Propagandisticamente comemorada. Cerveja Quilmes e a parrillada do mítico “Lo de Charly” que, às 4 da manhã, já nao há. A festa passou. Os palcos da festa viram esqueleto de metal. A vida regressa, normal, à cidade do tango.

Sábado-Padua

É a cara chapada de Victor Jara. Feições indígenas, queixo alongado, pele queimada, cabelo negro bem liso tombado para o lado direito. Baixo, com telemóvel na mão a controlar os três minutos convencionados para cada intervenção. Diz que “este é um grupo de amor”. Aplausos na ponte pedonal que atravessa a via do Tren de la Costa, estação de Mitre. Amor em anteposição às bandeiras partidárias e ao aproveitamento politico do movimento-cidadão. Senta-se, sério. Abraçam-no. É actor e músico argentino. Padua, chamam-lhe.

É uma assembleia popular. Gente de todas as idades, politizados ou não; estudantes universitários e advogados mais velhos de óculos escuros; curiosos e putos de skate na mão; cães por todos os lados; artistas, malabaristas, músicos; populares, dezenas de pessoas numa reunião espontânea ao velho estilo da utopia, sentados no chão de um espaço público da sua cidade. Juntos, com maior ou menor capacidade de intervenção, maior ou menor romantismo ou pragmatismo, decidem formas de luta contra a construcção de uma auto-estrada no parque do Paseo de la Costa, no bairro Vicente López. “No al vial costero” que separará ainda mais a cidade do Rio de la Plata.

Os que querem, falam. Alguns entusiasmam-se e gritam os chavões “inimigo”, “resistência”. Fantasmas vomitados tantas vezes que já nem assustam. Mas falam, moderados pela jovem socióloga Clara que faz um esforço de titãs para dar voz a todos, pôr ordem na casa e seguir em frente quando o impasse em discussões de nada impacienta.

Assembleia popular também de gente que já tem anos e anos de estrada, num país onde fazê-lo já significou inferno na terra ou carimbo para a eternidade. Discutem-se novas formas de protesto, e de como ganhar tempo para que os advogados "aliados" possam tomar acções legais para impedir o avanço das obras. Fala-se do “misticismo” da acção do dia anterior, em que 20 pessoas enfrentaram, noite dentro, 300 polícias, encerrados no campo três do Paseo de la Costa. Sufoco contrariado por mais de mil manifestantes, sobretudo habitantes do bairro, que ao mesmo tempo, do lado de fora do campo cercado, pressionavam a retirada das forças policiais e exigiam o fim do projecto. Chegou-se a um acordo. As máquinas pararam até à quarta-feira seguinte e os manifestantes foram para casa. Derrota ou retirada estratégica. Discussão também logo abafada na ponte da estação Mitre.

Uma tarde de sábado, simples, como outra qualquer. Cinzentona e fria. E um grupo de cidadãos reunidos num espaço público a discutir como exercer, em conjunto, a sua cidadania. Sem bandeiras partidárias, proibidas, aliás, na manifestação que ocorreria dias mais tarde. Assim só, em defesa de um espaço comum a que o governo da cidade porteña quer pôr fim para erguer prédios de luxo e uma estrada com cheiro a lavagem de dinheiro. A mesma história de sempre.

Ali sentado, assistente de fora, surgiu o anti-paralelismo, inevitável: sábado-cidadão versus sábado-Cuca; sábado-luta versus sábado-resignação; sábado-consciência versus sábado-alienação; sábado-Buenos Aires versus sábado-Luanda; sábado-Padua versus sábado-eu-e-muitos-mais.

O mapa de Carlos Alberto

Numa parede da casa de Carlos Alberto e Juana, um mapa-mundi gigante. A RDC ainda é Zaire, e outros que tais, mas ele lá está, colado, enorme, ameaçado pela humidade (a mesma que obrigou a tirar do lugar o forno eléctrico, na cozinha). Uma torrente de perguntas sai, imprevisível. O olhar curioso deste kota verte em perguntas sobre os mandingas que não somos, dos bantu que sim, também somos, e em questões sobre a colonização.

Com um livro na mão que tirou da sua prateleira de mil folhas, mostra a divisão etno-linguística de África. Fala de kimbundo, dos Mbundo. E da escravatura. Com os olhos bem abertos, solta uma avalanche de palavras ao jeito tão bom de quem não se quer impor ou pavonear com conhecimento, mas partilhá-lo com avidez. Procura saber, fala de África com alguma autoridade e de Angola com simpatia.

Afinal, deste outro lado do mar há quem nos conheça para lá do óbvio. O que, tendo em conta o contexto histórico, é sempre uma boa surpresa. Naquela casa laranja do bairro Olivos, um mapa do mundo XL pinta, a verde e a curiosidade, o quadradinho que somos nós, canto sul de uma África distante da cidade porteña.

Teatro Avenida

Teatro Avenida, Avenida de Mayo, 1222. A minha porta de entrada para Buenos Aires. Depois de um longo caminho no “Crucero del Norte” que me trouxe, ao longo de pesadas 36 horas, de São Paulo até à capital argentina. Paraná de oeste a leste com as plantações de soja que nunca mais acabam, Foz do Iguaçu com fronteira comum a três países, o adeus ao Brasil onde passei três meses. Logo Misiones, Corrientes e Entre Rios com a noite, e o destino final ao nascer do dia. 21 de Maio.

Teatro Avenida e um encontro, seis anos depois. Gonzalo. Amigo grande dos tempos de Santiago de Compostela. Nos primeiros croissants num dos muitos cafés acolhedores da cidade, o desfilar das memórias daquele ano galeglo e incrível em que tudo foi possível. O reafirmar de uma amizade que não se esgotou nem no tempo, nem na distância, e que, mais importante, não ficou retida lá atrás.

Gonzalo percurssionista e músico profissional de vibrafone e marimba, elemento de orquestras que enchem grandes salas da capital argentina, centro vibrante de cultura. A Buenos Aires de Gonzalo e de Jazmin, a sua namorada, activista severa, é a que estou a conhecer. Polvilhada com longas conversas noite dentro, na sua pequena casa octogenária da calle Blanco Encalada. Luz quente e rosada de três pequenos candeeiros e palavras sobre Argentina, Angola, política, memórias, música, cultura, História e mulheres.

A cidade. Altamente europeia no aspecto, no jeito de vestir e de andar. Cinzenta, triste. Melancólica e feminina. Ao mesmo tempo, com uma vibração diferente. América Latina que não se reconhece a si mesma, presa que está numa longínqua raiz europeia que supostamente a valoriza e diferencia. Identidades cruzadas, no fundo.

Os edifícios elegantes do centro, os novos arranha-céus de gosto bastante, mas bastante duvidoso. San Telmo com a feira de antiguidades de domingo, antigo bairro negro da cidade, quando ainda os havia (os negros). La Boca, pobreza em jeito de cartão-postal pintado a cores vivas no lugar onde aportavam os imigrantes que fizeram este país como ele é. Centro turístico de excelência, com tudo o que de aborrecido isso tem.

Belgrano, Puerto Madero, La Recoleta e um cemitério monumental onde descansam todos os presidentes e personagens importantes e snobes. Importante ponto turístico também, mórbido até ao esqueleto. O bairro judeu onde, em 1994, um atentado matou dezenas de pessoas. Ao longo de uma das ruas, o nome da cada uma das vítimas, simbolizadas por árvores.

A cidade. Quadrada, das “cuadras” que tudo indicam e a todos orientam. O sotaque característico dos argentinos, em que o “ll” vira “ch”. Boludo, pelotudo, kilombo, chavon, guita, mina, pibe. Trocar o “tu” por “vos”, o “vosotros” por “ustedes”. Seis anos depois, mergulho de novo no espanhol que, afinal, não esqueci.

Comer o assado é ritual. Carne de todos os tipos e feitios, enchidos de todos os tipos e feitios, uma digestão pesada que ajuda a digerir o fernet, licor cá da banda feito de ervas, amargo adocicado por Coca Cola. Trazido da Europa pelos imigrantes.

Os ecos de Buenos Aires, que se tem vindo a mostrar uma espécie de laboratório político e social da América Latina. Lembranças de repressão, como a de 2001, depois da hecatombe financeira do país. Assembleias populares por todos os bairros, manifestações, perseguição, espionagem, mortes seleccionadas, o assassínio de um anjo que andava de bicicleta, imortalizado na música “El Ángel de la Bicicleta”.

O anjo - activista social que geria um "comedor" para crianças pobres, personagem identificado então pelas autoridades como agitador social. Antes de ser morto a sangue frio, gritou a frase que virou refrão de música e um ícone desses tempos: “bajen las armas/ que aquí solo hay pibes comiendo”. Morreu. Nos dias seguintes por toda a cidade a imagem de um anjo de bicicleta foi chapada nas paredes públicas. Sarampo de consciência. Não morreu. E virou mito.

As músicas. “Maria de los Buenos Aires”, ópera de Piazzola, no Centro Cultural Borges. A eterna Mercedes Sosa, que tanto adoro, e que aqui se projecta na memória e emoção colectivas. E que, afinal, era viciada em alta velocidade e em carros potentes. Sons. Zambas, chámame, tango e tango electrónico e o candombe uruguaio, que vem do outro lado do Rio de La Plata.

Histórias, muitas. Da "mania" das gentes da capital se acharem europeias, do virar de costas aos restantes povos da região. História feita de San Martin, libertador da América do Sul, juntamente com Bolívar, e de sobreviventes do Holocausto e dissidentes nazis que aqui encontraram porto seguro, ironicamente lado a lado. Da construcção da cidade, ou de imigrantes como o avô de Gonzalo, que chegou há 80 anos ao porto de Buenos Aires, vindo de Italia. A boina que trazia nesse dia, castanha clara, foi-me oferecida em mãos pelo Gonz, num gesto altamente simbólico, para mim.

Com uma boina octogenária, um cachecol gigante que a Jazmin me fez, e uma pulseira que ela trouxe de Jujui, no nordeste do país, alta montanha andina, e que me ofereceu, vou descubrindo tranquilamente Buenos Aires. Com um frio de Outono que me gela da cabeça aos pés.

Orangue na Virada

É uma cidade improvável para um tipo como eu, meio provinciano, gostar. Mas gosto dela. São Paulo. Depois do Rio e de uns dias em Paraty (escrevo sobre esta vilazinha mais tarde), a maior metrópole da América do Sul. Cinzenta, tensa, vibrante, a cidade de todas as opções. O lugar gigante onde há tudo para fazer (mas rigorosamente tudo) a qualquer hora do dia. Quando se vem de um deserto de opções como Luanda, saber que se tem tudo à disposiçao, mesmo ficando todo o dia em frente à televisao, sabe muito bem.

Uma semana de amigos de cá que viveram em Angola - Ju, Fabrício e Roberta -, de muita paródia, de viver rápido e de cometer alguns atropelos sentimentais. A constipação que me pegou um beijo, ou muitos beijos, as famílias de cada um, as recordações que se reactualizam em novas experiências juntos.

O fim-de-semana da virada cultural e uma surpresa. Num sábado em que quatro milhões de pessoas anoiteceram e amanheceram nas ruas paulistanas, saio de uma casa de banho de um hotel e vejo-o. Nada mais, nada menos que o Padre Horácio, figura mítica entre as crianças de rua de Luanda, com quem trabalhou durante anos e anos e anos a fio e criou o Centro de Acolhimento Arnaldo Jansen. Ou, muito simplesmente, o Centro do Padre Horácio, como ficou popularmente conhecido.

O Orangue foi uma das pessoas que me apoiou quando cheguei a Luanda em 2004. Era mais um caçula dele. Bebíamos maruvo e dávamos umas voltas ao domingo, depois dele dar a missa. Falávamos de tudo e mais alguma coisa. Em 2006, depois de vir de Cabo Verde, ainda nos encontrámos duas ou três vezes, mas logo ele foi transferido para o Brasil. Perdi-lhe o rasto até agora, três anos depois, num encontro mais que impossível no meio de uma das maiores metrópoles do mundo, numa noite de uma confusão inimaginável.

Almoçámos juntos no dia em que eu viajaria, coincidementente, para o país dele, a Argentina. Pusemos a conversa em dia, actualizámo-nos. E despedimo-nos sem marcar encontro, porque sabemos que ele vai-se dar novamente, num qualquer canto de um mundo improvável.

05 May 2010

Rio angolano


Há uma dinâmica angolana bastante interessante aqui no Rio de Janeiro. Quando cheguei, há uma semana, do outro lado da baía de Guanabara recebeu-me Marta Lança, jornalista portuguesa intimamente ligada a Angola. Um dia depois, saí a tomar umas birras com Keita Mayanda, rapper luandense, aqui de férias. Mais tarde apareceu Ariel de Bigault. Na altura, esta realizadora e produtora cultural francesa, que tem uma vasta obra sobre Angola, estava de passagem pelo Rio, a caminho de Salvador.

No sábado, dia em que chegou Roberta, paulistana que viveu em Luanda, um jantar em casa de Sérgio Afonso, fotógrafo e cineasta angolano que aqui vive há dois anos. Ontem, encontro com Antónia Onofre, jornalista benguelense que passou pelo Rio a caminho do Chile, para um encontro de jornalismo. Pelo meio, telefonemas para Ondjaki, que também aqui mora, e conversas via skype com Agualusa, que fez do Rio de Janeiro uma segunda casa.

Com a cidade como pano de fundo, as discussões sobre Angola. As mesmas, mas à distância, o que permite olhar o país de outra forma. Os problemas, as comparações com o Brasil, as novas ideias e projectos que se querem aplicar quando voltarmos à Banda. A sensação mais real da loucura que são as nossas rotinas e limitações em Luanda. E aquela tirada comum e inevitável, em comparação um tanto ou quanto simplista: "aqui, até a favela tem energia".

Conversas também sobre representações de África que abundam no Brasil - o continente "negro" encarado como um único país, onde vivemos no meio dos animais selvagens e em cima das árvores. A África mítica a que se agarram (até) académicos e os movimentos de reinvindicação dos direitos dos negros brasileiros. Aqui, muita gente que deveria estar muito melhor informada, assume África como a mesma de há 500 anos, cristalizada numa equação ao estilo "tribo e leões, africanos bons e colonos maus". Evita-se a África de hoje, a África real, fruto de todos os processos históricos - desastrosos ou libertadores, externos ou internos - que a varreram desde sempre.

Numa tentativa de afirmação de identidades, muitos afro-brasileiros agarram-se a esta África ancestral para se encontrarem e imporem em peito feito contra o racismo que aqui grassa, mais ou menos camufladamente. As tribos "originais" (o que quer que isso seja), os sobas, os reis e a "mamã África" surgem como uma espécie de tábua de salvação identitária para quem se sente (e é, na verdade) continuamente agredido e excluído.

Os exemplos são vários. Como o que vende Salvador como uma segunda África. Teoria que quem vem de Luanda e passa um tempo na capital baiana não compra nem no arreiou. A colagem é absolutamente forçada. Existem traços comuns nos sons, na gastronomia, em alguns traços fisionómicos e posturas, é certo, mas são ténues e difusos, reminiscências do passado, misturadas com algo novo. Não são africanos, são outra coisa, já - brasileiros.

O Brasil não é africano, nem europeu, nem asiático. O Brasil é o Brasil, e ponto final. E este deveria ser o ponto de partida para qualquer discussão sobre identidade do brasileiro, quer seja índio, "afro", "euro" ou "japa". Não quero mandar boca em casa alheia, mas vir de África permite-me ter uma opinião. E ao agarrarem-se a algo que já não existe, a não ser na cartilha identitária que eles próprios compõem, os afro-brasileiros correm o sério risco de se confundirem e de se perderem ainda mais - ou não fossem muitos dos seus fundamentos meras derivações de equívocos em que insistem em acreditar.

Impressões de corrida

Correm para a frente, para trás. Com pressa, devagarinho. Com sungas ou calções de banho ou de licra, t-shirt ou em tronco nú. Correm com os pés, com bicicleta, de skate e com mp3's e ipod's amarrados no braço.
Hedonismo puro, uma preocupação pelo físico e aparência a toda a prova. O calçadão de Copacabana, Ipanema, Leblon, o da Lagoa Rodrigo de Freitas e sei lá mais onde, de dia, de noite, de noite-dentro - milhares de cariocas de um lado para o outro numa dinâmica que nunca vi, em jeito de corpo único, centopeia disléxica nos seus pés em sentidos contrários.

Uma tentativa

Para onde quer que se olhe, reconhece-se. A da televisão, das canções, poemas. A da sensibilidade e propaganda. A cidade. Verde-mato, branco-areia, azul-céu-mar. Rio de Janeiro a cumprir com rigor e superação os clichés que a tornam o que é, referência e imagem principal do Brasil.

Aqui, a boca sempre em espanto e os sentidos alerta. Cada rotação em grau menor traz algo novo e surpreendente em termos de beleza natural. Não falo, por isso, da cidade cimento. Nem dos contrastes luxo e miséria. Estou aqui há meia dúzia de dias, não tenho mínima propriedade para caracterizar o Rio a outros níveis senão o que me surge como percepção imediata. Apenas vejo os sinais - favelas cintilantes a pontilhar os morros, como o do Dois Irmãos, onde acaba o ultra-luxuoso e chato Leblon. E um distanciamento crónico entre os dois mundos que aqui convivem de costas voltadas.

03 May 2010

Mau génio

Escrever algo original sobre o Rio de Janeiro é para génios. Como não o sou, limito-me a repetir o que tantos já disseram: a beleza desta cidade - meio mato, meio betão; meio luxo, meio miséria - é verdadeiramente extraordinária. As outras palavras (as que na realidade poderão descrever o que se vê por aqui), deixo-as para quem as sabe, de facto, escrever. A mais de que isto não me atrevo.

30 April 2010

Antes do Rio III - Caminho

De Canavieiras para Itabuna, três horas. De Itabuna para o Rio, 21. Músicas de viagem no autocarro semi-leito da "Águia Branca": "Despedida", "Duerme Negrito", "Luchin" e "Deja la vida volar", Victor Jara; "Maza", "Gracias a la vida", "Alfonsina y el Mar", "Solo le pido a Diós", "Cantame", "Canción con todos" em repeat, Mercedes Sosa. O disco que preparei para a Sara: "Piololo", Lokua Kanza; "Ana na Ming", Salif Keita; "Muna Xeia" e "Minino", Sara Tavares; "Balumukeno", Bonga; "Kothbiro", Ayub Ogada; "Belina", Artur Nunes; "Ninanana", Modena City Ramblers; "Apili", Simentera; uma que não posso dizer que tenho porque nunca foi editada; "Awa Y'okeyi", Papa Wemba; "Sueño con serpientes", Silvio Rodriguez. E os brasileiros: "Chega de Saudade", Mpb-4; "Chame gente", Armandinho e Moraes Moreira;"O tempo não pára", Cazuza; "Chover, chover", Cordel do Fogo Encantado. E também o motor do autocarro, a cortar os silêncios longos.

Apontamentos: subir a serra verde ao pôr-do-sol, verde e mais verde. Aqui o céu é mais alto, distante. Os carcarás (aves de rapina) a planar. Plantações extensas de eucaliptos, alinhados, dão diferentes tonalidades a este verde. Represas em pequenos povoados. Rebanhos de cabras a correr. E o sol que se põe. O ar frio do autocarro e a manta azul de malha que tenta aquecer o corpo. Terra vermelha, gretada, tal e qual a do Miradouro da Lua, em Luanda. Acampamentos de sem terra, com a bandeira vermelha do movimento em contra-luz. Noite de lua cheia. Placa para a esquerda: Vitória; para a direita: Salvador. Curva e contra-curva na serra. Costa do Cacau, dos Descobrimentos e das Baleias. Estradas não tão boas. Eu: tenho sono mas não quero fechar os olhos, quero absorver cada imagem. Aqui a noite é diferente. A nossa, a das nossas viagens longas por Angola com o vento a entrar pelo vidro do carro nas rectas enormes envolvidas na escuridão. A nossa noite é mais tensa. E telúrica. Sinto.

O que não apontei. Paragem de meia hora em Teixeira de Freitas, para comer. Salgados. Caem-me mal e tenho vontade de vomitar. Água com gás não ajuda. Filmes imbecis tentam distrair o sono de quem nem sabe que o DVD está a rodar. Uma mensagem lamechas aos meus kambas de Salvador, alguns de Angola, dois de Portugal: "'Salgo a caminar/ por la cintura cosmica del sur'. Em noite de lua cheia, a caminho do Rio, 'subo (...) hacia la entraña America y total'. 'Canción con todos', Mercedes Sosa. Com todos vocês. Abraço forte." Nova paragem. Entra mais gente. Atrás do meu lugar, um passageiro ameaça o seu vizinho: "Se me tocas mais uma vez dou-te um muro na cara, seu viado". Um telefonema. "Tenho um viado, um viadão sentado ao meu lado que não me pára de tocar, qual é o procedimento?" Ninguém se manifesta.

Durmo, acordo, durmo, acordo, durmo, acordo já com a luz da manhã cinzenta a envolver a tal muralha de morros de Cristo, ao longe. Cinco dias e 2265 km desde a saída de Salvador. Rodoviária, Praça XV, barca para Niterói, e a Marta no lado de lá, em mais um reencontro e um abraço. Um momento mais da nossa rotação conjunta mas algo desencontrada que começou há mais de cinco anos, em Cabo Verde. Como e vou dormir.

Antes do Rio II - Canavieiras

Cordel do Fogo Encantado substitui Jessier Quirino. O caminho fica mais verde. "Chover, chover". Planalto verde, estrada em curva e contra-curva, verde muito verde. "Chover, chover". O verde com histórias secas do sertão. Outras mas as mesmas.

"Choveu, choveu". Relatos também reais. Ciro em jeito de confidência e uma amizade a fortificar-se quilómetro a quilómetro. Fazendas de cacau, antigas e agora moribundas depois da praga em forma de cruz deitar por terra o sabor doce e provocar uma onda de suicídios. O caminho a avançar entre casas pobres. O sorriso da moça tipo índia, olhos claros e brilhantes, numa vila que não sei o nome. Compro doce de leite e maracujá e o queijo de búfala. Ela sorri com curiosidade pelo meu sotaque gringo e desaparece na cozinha, lá atrás.

O carro em viagem. "Foi tanta água que amarrotou". Itabuna, Ilhéus de Jorge Amado com o seu Pontal e a catedral ao longe. Olivença, a brasileira, na inflexação para sul que cruza Una e segue adiante na Costa do Cacau. Mangal a perder de vida e céu carregado, cinzento claro e escuro. Pingos de chuva, "pancadas", como se diz por aqui. O fim do caminho, depois do desvio para Canavieiras e da ponte de má memória, fim na beira de um rio paradisíaco pontilhado de barcos de pescadores e uma Iemanjá cenário de novela da Globo. A "Casa Verde" de dona Zezinha. Nha Zezinha, na verdade, mãe cabo-verdiana de Ciro. De Paúl, Ribeira das Pombas. Olhos claros e beleza a olhos mais que vistos de Santo Antão.

O resto foi o dia depois. Vila aos pés de um rio de duas fozes e de uma ilha no meio de praias extensas. Areal com cintura de coqueiros e cabanas de lambretas e cervejas. Numa ilha brasileira, baiana do sul, o "sítio" Kianda. Memórias de Angola.

Canavieiras pequenina com a sua traça novecentista, edifícios térreos e coloridos, coreto no meio da praça, a "gaiola" onde Kubitschek discursou. Traça e ruas empedradas também a lembrar as de Cabo Verde. Um açaí para lá de bom e as palavras de quem o preparou, entusiasmadas com uma nova ponte que vai tirar um pouco mais Canavieiras do isolamento, mas que destruirá grande parte do mangal. Ele, ambientalista, com "Babilónia irada" na boca e bandeira de Bob Marley lá atrás. Fascinado com o "progresso".

O Ciro voltou a Salvador com a filha, Lu, que, depois de quatro dias de convívio, me taxou de provocador e tagarela. Eu fiquei mais uma noite. Para continuar para sul.

Antes do Rio I - Vitória da Conquista

De Salvador ao Rio, horas e horas de estrada. Com o eco do sertão baiano e de um Brasil diferente. História de pó, de fome, de terra gretada. Da espera da chuva que não vem, tão ao estilo cabo-verdiano. E da abundância momentânea durante os três meses em que o sabiá, que tem obrigação de cantar apenas quando chove, estremece a terra com o seu canto.

O trovador sertanejo Jessier Quirino no caminho tenso de camiões e noite até Vitória da Conquista. Voz em modo pause em Milagres, para uma fatia de um incrível bolo de milho e cheiro de café feito na hora. Jessier Quirino e o sertão, em apresentação exclusiva de Ciro Brigham, mestre de cerimónias da minha incursão pelo pedacinho do interior da Bahía que é a sua verdadeira casa.

Vitória da Conquista de noite, fria, com um enorme Cristo nordestino, magro, esquálido, petrificado em estátua em cima do morro, ao longe. Vitória da Conquista de dia, fresquinha, mito de uma cidade construída em cima de uma gigantesca tumba de índios assassinados em dia de vitória e de conquista. Comércio por todos os lados, gente por todos os lados, caldo de cana, queijo de cabaça, ovos de codorna, tripa frita, maravilhosa rabada e caldo de sururu. Cidade de planalto, terceira maior do estado.

A casa. Família de Maria Fernanda, kamba de Luanda. Filão de personagens - da matriarca ao cassule, o simpático Gugu - que me acolheram e me fizeram também família. Generosidade a toda a prova.

Discussão em condomínio fechado e electrificado. A divertida Lana e o seu reaccionário mas super amável vizinho. Beringela com mel e discussão. "Preto" e "negro" e o absurdo do politicamente correcto. Quotas na universidade para "negros" ou "pretos" brasileiros, África e Angola, literatura. E música. Que continuou depois, em bar de jazz com um poster da marginal de Luanda na parede. Memórias de um percussionista dono do espaço, que já tocou com Wiza e Paulo Flores. O depois e a viagem que continuou.

Coroa de frente fria


À distância, para quem vem do norte, é uma imponente muralha de morros alinhados, com um Cristo lá no alto. Ao longe, a visão mítica de quem chega a um lugar que já sente conhecer, mas que ali se concretiza em dissonância. A cidade real diante dos olhos, aqui, com uma coroa de neblina de mais uma frente fria. Rio de Janeiro, agora.

22 April 2010

Chega de saudade


O tempo não pára e a viagem também não. Amanhã saio de Salvador. Dois meses depois da minha chegada. Perguntam-me frequentemente o que fiz por aqui. Eu invento mil e uma coisas para não revelar que produzi zero.ponto.zero ao longo de todo este tempo. A quem não disse as coisas como elas eram, as minhas desculpas. Não era tanto para ocultar o que me atirariam à cara como inércia pura, mas para evitar perguntas a que não queria responder.

Mas não estive parado. Numa atitude puramente burguesa, e queimando parte das poupanças que tinha reservado para começar com a minha "vida adulta", repensei-me. Eu exposto em jeito de espelho. A pior crueldade que alguém pode fazer-se a si mesmo, talvez, mas absolutamente necessária. Cheguei a algumas conclusões. A mais importante: também eu tenho que ser uma prioridade, o que não tem acontecido nos últimos anos. Ainda que isso possa correponder a rupturas radicais.

Enquanto isso, vivo os meus últimos momentos de Salvador. Dia após dia fui-me integrando nesta cidade que se arrisca a ser (mais um) dos meus refúgios. A ela devo esta calma e tranquilidade que já não sentia há tanto tempo. Este lugar tem uma energia enorme a que sucumbi sem pestanejar.

Aqui há sorrisos apenas sorrisos, sem segundas intenções. E dei-me conta que Luanda me tornou hipócrita, ao achar que não há sorriso sem interesse, simpatia sem pedido subjacente. O estereotipo do brasileiro-interesseiro foi deitado por terra, estilhaçou-se completamente (embora haja de tudo um pouco, obviamente).

Já vivi em vários países nos últimos dez anos. E nunca em nenhum deles me senti tão acarinhado e bem recebido desde o primeiro minuto como aqui. Carinho. Sim, carinho é a palavra certa. Encontrei em Salvador essa "boa onda" que me permitiu relaxar e baixar aquelas defesas tensas com que vivemos permanentemente em Luanda. Descompri e pensei muito a sério no que quero para o meu futuro - aí surge, então, um beco sem saída e a dúvida: bato no muro e dou-lhe eternamente cabeçadas, ou volto para trás (para onde?) e refaço o caminho? Só o tempo o dirá. Mas na verdade, muita coisa terá que mudar no meu regresso a Luanda. Estou cansado de montanhas russas emocionais.

Volto, assim, ao início deste texto. O que fiz em dois meses? Muito, afinal. Percorri as ruas e intermináveis ladeiras desta cidade. Pituba, Amaralina, Rio Vermelho e o acarajé da Dinha, praia da Paciência com a antiga casa da Gal Costa lá em cima do morro. Ondina, Barra, a minha Barra. O farol, magnífico, a marcar a entrada da Bahia de Todos os Santos e o início do Recôncavo baiano. A praia do Porto, passerelle em forma de areia, palco de mil um filmes, inusitados para quem vem de África.

Horas e horas de autocarros com os seus baleiros, autênticas máquinas de marketing que vendem rebuçados, chicletes e tudo e mais alguma coisa. Todos com "pessoal" na boca a cada dez segundos. Ônibus para todo o lado. 2,30 reais, o máximo 3. E o trânsito que, como na Nguimbi, pára com uma ou duas gotas de chuva (e aqui choveu uma semana inteira quase sem parar!).

Dois meses de Pelourinho. Mítico. O início de tudo no Feijão da Alaíde. Dois meses de muito cravinho, cachaça, catuaba, príncipe perfeito, Skol, Skin, cerveja gelada, não fresca. Dias e dias de acarajé, abará, queijo coalho, vatapá, caruru, moqueca de tudo e mais alguma coisa, casquinha de siri, bobó de camarão, mandiçoba, churrasco, caldo de sururu, farofa, escondidinho, carne de sol, arrumadinho, do magnífico açaí e de pimenta que não arde como a nossa.

As palavras proibidas do nosso vocabulário: rapariga, puto, pica, zona. E as deles: (mo)queca, bobó, bico. A descoordenação dos diferentes "portugueses" e aquela sensação estranhíssima de perceber cada palavra em estado bruto, mas de não atingir o seu significado, muitas vezes. A mesma língua na forma, uma outra coisa por vezes imperceptível no conteúdo. Uma gigante paranóia regada a "vei", "massa", "de foder", "rei", "um bocado", que aqui é muito, e pelo restante "baianês".

Dois meses de Cazuza a fazer mais sentido, de Mercedes Sosa, Victor Jara, Violeta Parra no sentimento pan-americano. O Carnaval que não vivi, mas que está omipresente nos sons imortais Dodó e Osmar com o hino "Chame Gente", que me emociona "pa caralho". Do magnífico Armandinho, Spok Trevo, Moraes Moreira, shows e mais shows. De roda de samba em Itapuã e no Santo António ao estilo que eu gosto - chinelo no pé e pé no chão, sem pretensiosismos, gente à volta de uma mesa a tocar e cantar com toda a alma que a cerveja imprime a quem tem já o samba nas veias. O axé, o pagode o forró. O candomblé que não toquei. E o Sancofa com os seus sembas, kizombas, kuduros e tarraxas do DJ Fábio. Angola pintada a amarelo na parede e a banda brasileira que tem nome de Semba, mas não o sabe tocar.

A Bahía, sobretudo, das minhas pessoas. Soteropolitanos (naturais daqui) que conheci em Luanda e que me abraçaram todo este tempo, me levaram ao colo e que cuidaram de mim. Filipe, Chetto, Manu, Ciro, Danilo. As minhas paixonetas, as minhas noites, os meus novos kambas. A Lina, mana búlgara-angolana; o Orlando, mestrando angolano na UFBA; a fantástica Lud. O grupo de angolanos, estudantes bolseiros da Odebrecht com quem matava saudades de casa com funje, danças e aquelas conversas e risadas exageradas e ruidosas a que baiano não está habituado e que sabem tão bem.

Amanhã vou para Vitória da Conquista e Canavieiras, no interior do estado. Segunda ou terça viajo para o Rio de Janeiro onde deverei ficar duas semanas. Sigo depois para São Paulo, mais duas semanas, e depois Argentina e México. Até final de Julho vou estar em rotação.

Para trás fica Salvador, que olho já com os "olhos de adeus" que tenho posto tantas vezes nos últimos anos. Bahía, a minha Bahía que me diz em jeito de bossa-nova "chega de saudade". Mas não vale a pena, saudade é a minha segunda pele. E a cada canto deste mundo que percorro e vivo, ela se adensa e vai ganhando novos pretextos para se impôr em estado permanente. Fica a banda sonora do momento. Tom Jobim e Dorival Caymmi: "Ah que saudade eu tenho da Bahía..."

16 April 2010

Caminhar


chegou a hora de seguir viagem...


05 April 2010

Isto sim é oposição!!



Isto sim, é oposição! E um dia a nossa Assembleia Nacional, que de tão viciada, chata, previsível e cúmplice, não é mais que um soporífero daqueles valentes, também "vai pegar fogo" (esperemos)!

Este vídeo (são sete minutos que valem bem a pena, garanto) captou o momento em que a deputada do Estado do Rio de Janeiro, Cidinha Campos, do Partido Democrático Trabalhista, desmascara a hipocrisia e corrupção grassantes na assembleia estadual, enfiando à força a carapuça na cabeça dos outros deputados, que não tossiram nem mugiram! O mote foi a candidatura ao Tribunal de Contas do Estado, de José Nader, político envolvido em escândalos de corrupção. A bomba de Cidinha Campos caiu com um enorme estardalhaço impossível de ser ignorado e de não deixar mortos e feridos!

Vejam lá se reconhecem as críticas (qualquer semelhança com o nosso estado de coisas é pura coincidência). Aviso para terem cuidado com o volume, porque o dedo quando entra na ferida dói a sério e até o mais insensível Rambo chora e berra! Aos nossos partidos do outro lado da barricada, aprendam como se faz e... coragem!

PÉROLAS DE CIDINHA CAMPOS

"Acabou a discussão do leite? (...) Eu quero falar dos que mamam, não das crianças que têm direito, mas dos marmanjos, safados, sem-vergonha, cafajestes que infestam a política nacional, que infestam esta casa [assembleia estadual do Rio do Janeiro]"

"A corrupção deste país está no DNA, não está mais aqui, na Justiça, no Ministério Público, está no DNA das pessoas!"

"Eu vejo todo o mundo gargalhando neste plenário. Quanto mais ladrão, mais querido! Mais simpático!"

"O outro candidato [ao Tribunal de Contas] fraudou a Bolsa Família, e todo o mundo ficou quieto aqui [na assembleia estadual do RJ]. Ninguém se dispôs a levantar a podridão do seu comportamento, roubando escola de criança. E agora é candidato!"

"Existe uma quadrilha aqui dentro desta casa. Uma quadrilha!"

"São esses que vão fiscalizar as contas do Estado? É na mão desta gente que ficam as contas do Estado, de 91 municípios, do PAC [Programa de Aceleração do Crescimento]. Vamos parar com esta palhaçada!"

"Isto aqui [assembleia estadual] não é uma casa de santos mas também não se pode transformar numa casa de canalhas consagrados, canalhas corruptos, VAGABUNDOS que todo o mundo sabe quem são mas merecem o voto da outra canalhada toda [aponta para os restantes deputados]!"

"Eu vou dar os nomes dos deputados associados a essa camarilha. E acho que vão sobrar poucos. Obrigada!"

03 April 2010

Questionário aos kotas de todas as lutas


Solo le pido a Dios
Que el dolor no me sea indiferente
Que la reseca Muerte no me encuentre
Vacio y solo sin haber hecho lo suficiente.
"Solo le pido a Dios", Léon Gieco (por Mercedes Sosa)

Qual a força que nos faz acreditar uma vida toda que a luta é a única via? E que energia é essa que faz, de facto, o caminho ser de convicção permanente? Como avaliar a necessidade de recuos e novos avanços? Que é isto que se mete dentro da cabeça e do coração e nos faz sentir que sem compromisso – com os outros, com o nosso chão – não se é rigorosamente nada?

Será que cobardia é o que achamos que ela é? Recuar é cobardia ou sensatez? Olhar, como eu, o nosso país do outro lado do oceano durante uma espécie de licença sabática interior é fuga, refúgio ou inteligência emocional? É egoísta sentir-me bem comigo mesmo, aqui num canto diferente do mundo, ainda que pense continuamente no que ficou para trás e tente reequacionar procedimentos e objectivos? Não terei também eu direito a isto como pessoa? Onde fico eu no meio disto tudo?

Quando é que sair se torna abandono? E que lugar para a reivindicação a partir de cá, longe, quando lá, no nosso chão, os nossos companheiros continuam a empurrar o barco? Sem paragens, com as mesmas pressões, riscos e com a mesma força.

Qual é, digam-me, a fronteira entre mim e os outros? Qual é a causa mais importante – a do eu como indivíduo ou a do eu como colectivo? Uma existe sem a outra? E qual o ponto de equilíbrio entre uma e outra? E qual o sentido da anulação do meu “eu”, em virtude do grupo? Existe alguém que esteja de tal forma imerso na luta, qualquer ela que seja, que se sinta feliz apenas com os ganhos exteriores a si mesmo? Os que parecem contentar-se com isso, não estarão de alguma forma a viver um grande teatro e a compensar com tudo isso as fragilidades interiores e vidas pessoais esfrangalhadas e empatadas? Lutam pelos outros, mas perderam a sua própria luta…

A frase é mais que batida. Brecht: "há homens que lutam um dia, e são bons; há outros que lutam um ano, e são melhores; há aqueles que lutam muitos anos, e são muito bons; porém há os que lutam toda a vida - estes são os imprescindíveis". Mas esta “toda uma vida” é assim tão linear no seu conceito e no que ela abarca? De facto, há quem cante sempre, com o mesmo brilho nos olhos. Mas como atingir este estado de elevação, mesmo com os momentos de desespero e de frustração incontornáveis quando tudo à nossa volta soa a derrota – imposta, pressentida, sugerida? A solução é continuar a avançar por pura inércia? É aí que entra a força individual de cada um? Como lidar-se com o estado de explosão?

Um kota que respeito muito, desses que supostamente não perderam nunca o tal brilho nos olhos durante as décadas e décadas de lutas pela liberdade em África e no seu país, disse-me uma vez, aqui em Salvador, que há um sinal de alerta que anuncia a necessidade de uma análise interior profunda – olhar os que estão do outro lado da barricada, e que cujas acções de alguma forma combatemos, com a mesma agressividade, irracionalidade e ódio que os caracterizam e que consideramos inaceitáveis. Parece-me justo e muito razoável.

Não acredito em heróis. Tal como Deus, criámo-los para, em alturas de desespero, não cairmos num buraco fundo de irreversibilidade. Alimentamos a esperança que algo superior, e que não controlamos, intervenha e sacuda de vez a poeira que nos sufoca a todos. Somos humanos. Todinhos. Uns mais fortes que outros, porém.

Porque não acredito que duvidar seja sinal de fraqueza, ficam as perguntas. E uma paz interior e tranquilidade que não sentia há muito tempo e que encontrei deste lado de cá. Apesar de não passar de um puto com muitas ideias na cabeça e com pouca ou nenhuma obra feita, quero encontrar o meu caminho e um ponto de equilíbrio onde jogue com as minhas fraquezas e forças. Responda quem quiser.

02 April 2010

Gracias a la vida

"Gracias a la vida", Violeta Parra. Ouço esta música há anos, e neste momento resume como me sinto. Grato por tudo que em metamorfose constante se apresenta diante dos meus olhos. A vida. E o pressentimento. Não sei bem a quem ou a quê se agradece quando se agradece à vida - se a mim, se a essa coisa chamada destino, acaso, energia universal ou Deus. De qualquer forma fica o obrigado. Aqui uma magnífica interpretação desta canção pelo colosso Mercedes Sosa, "La Negra". Foto: Em Bilene, Moçambique. Abril/08

"Gracias a la vida que me ha dado tanto
Me dio dos luceros que cuando los abro
Perfecto distingo lo negro del blanco
Y en el alto cielo su fondo estrellado
Y en las multitudes el hombre que yo amo

Gracias a la vida que me ha dado tanto
Me ha dado el oído que en todo su ancho
Graba noche y día grillos y canarios
Martirios, turbinas, ladridos, chubascos
Y la voz tan tierna de mi bien amado

Gracias a la vida que me ha dado tanto
Me ha dado el sonido y el abecedario
Con él, las palabras que pienso y declaro
Madre, amigo, hermano
Y luz alumbrando la ruta del alma del que estoy amando

Gracias a la vida que me ha dado tanto
Me ha dado la marcha de mis pies cansados
Con ellos anduve ciudades y charcos
Playas y desiertos, montañas y llanos
Y la casa tuya, tu calle y tu patio

Gracias a la vida que me ha dado tanto
Me dio el corazón que agita su marco
Cuando miro el fruto del cerebro humano
Cuando miro el bueno tan lejos del malo
Cuando miro el fondo de tus ojos claros

Gracias a la vida que me ha dado tanto
Me ha dado la risa y me ha dado el llanto
Así yo distingo dicha de quebranto
Los dos materiales que forman mi canto
Y el canto de ustedes que es el mismo canto
Y el canto de todos que es mi propio canto

Gracias a la vida, gracias a la vida."

25 March 2010

(des)ordem (re)estabelecida


"Quando me desespero, lembro-me que a verdade e o amor sempre triunfaram. Houve tiranos e opressores, mas todos caíram".


Ghandi




Vergonhoso. Ditatorial. Inqualificável. E eu nem sei como ainda me supreendo... A manifestação em Benguela, "Não partam a minha casa", não aconteceu. Limitou-se à leitura de uma declaração. Quando já vários activistas estavam na Graça para começar o protesto contra as demolições e despejos forçados, a Omunga retrocedeu e cancelou o que era aguardado com expectativa. Motivo: um ostensivo dispositivo da Polícia de Intervenção Rápida (PIR) nas ruas por onde os manifestantes iriam passar - "sirenes o dia todo e em toda a cidade, cães, arsenal e carros pesados", segundo um amigo. Cenário de estado de sítio para conter um simples protesto de civis que iria acontecer de forma ordeira e pacífica, de acordo com as garantias dadas pela associação, e das quais não duvido minimamente. Ameaça e intimidação de órgãos do Estado aos que ousariam expressar a sua opinião contra os actos de governo. Que outra interpretação?

Mas não foi esta a única razão que ditou o cancelamento. Na noite de ontem, quarta-feira, segundo os relatos que chegam de Benguela, as rádios locais emitiram um comunicado do governo de Armando da Cruz Neto que alertava: “O Governo Provincial de Benguela (GPB), no quadro das suas responsabilidades de defesa da ordem, da tranquilidade e da paz social, usará os meios legalmente instituídos, visando anular tal pretensão [a realização da manifestação] e declara que não se responsabilizará pelos eventuais danos físicos ou materiais decorrentes do exercício da sua actividade em defesa da ordem estabelecida”. Citação do jornal Apostolado. A mensagem era simples: ou desistem de uma vez da ideia ou apanham porrada da PIR e nós nem aí. Uma aviso-à-Pilatos que, pelo menos indirectamente, terá sido transmitido a José Patrocínio pelo Comandante Provincial da Polícia Nacional de Benguela e pelo GPB, nos encontros que precederam a tentativa lograda da manifestação.

E tudo isto, pasme-se, "em defesa da ordem estabelecida". Mas que "ordem estabelecida" é esta? A da bagunça total em que sempre os mesmos continuarão a decidir a bel-prazer como se o país fosse deles, e nós meros inquilinos dos seus quintais? Quando é que se vão deixar de uma vez por todas da paranóia de que "quem não está connosco está contra nós?" Quando é que vão deixar de nos ver como ratos de porão a quem pensam poderem dar uns pontapés para sairmos da frente e umas migalhas para nos calarmos?

Esta vossa arrogância não vai durar para sempre. Por muitos ouvidos moucos que façam às reivindicações do povo que deviam servir (esta proibição abusiva de uma manifestação foi apenas uma entre muitas), vamos continuar a respirar o mesmo ar, a caminhar nas mesmas ruas, a viver no mesmo país. E essa vossa fantasia de super-homens vai continuar lado-a-lado com os nossos desejos e projectos que vos fogem do controlo, porque não são arquitectados nos corredores "do partido" ou da Cidade Alta. A consciência é livre e assim também o somos enquanto formos dignos!

À Omunga e a todos os que se deslocaram a Benguela, tiro o chapéu. Apesar da "retirada estratégica", foi a primeira vez em muitos anos que vi uma tamanha mobilização e tanta gente a dar a cara por uma causa. A Benguela acorreu um mar de pessoas de todo o país, desde cidadãos anónimos, a figuras proeminentes da sociedade política e entidades religiosas, que se juntaram aos muitos cidadãos e activistas benguelenses prontos a reivindicar os seus direitos. Espero que esta força não esmoreça, até porque a Omunga não desistiu do protesto e promete voltar à carga noutro contexto. Este é um sinal de que algo está a mudar em Angola. E como o poder tem medo disso!

23 March 2010

NÃO PARTAM A MINHA CASA


O maremoto de demolições no Lubango, que se segue aos de Luanda e Benguela, vai estar no centro de protestos liderados pela Omunga, com o apoio de inúmeras organizações da sociedade civil e personalidades, inclusivamente do estrangeiro.

Assim, amanhã, quinta-feira, em Benguela, um grupo organizado de manifestantes sai às 15 horas do Bairro da Graça em direcção ao Largo de África, na cidade das acácias rubras, para gritar a alto e a bom som ao poder em Angola: NÃO PARTAM A MINHA CASA!

Como seria de esperar, o Governo da Província de Benguela já proibiu a manifestação, incómoda para o executivo e o MPLA. A associação de José Patrocínio recorreu imediatamente e a batata quente está agora nas mãos do tribunal provincial que deverá dizer algo nas próximas horas. Ainda assim, a Omunga já avisou que, proibido ou não, o protesto vai mesmo avançar:

"A MARCHA VAI EM FRENTE! PORQUÊ? PORQUE DE ACORDO COM A LEI 16/91 (LEI DO DIREITO À REUNIÃO E À MANIFESTAÇÃO) Artigo 14.º(Infracções e sanções) 4 As autoridades que impeçam ou tentem impedir, fora do disposto na presente lei, o livre exercício do direito de reunião ou manifestação incorrem no crime de abuso de autoridade, previsto no Código Penal, ficando igualmente sujeitas a responsabilidade disciplinar.

É um argumento de peso, sem dúvida, embora muitas vezes a lei seja vista através de lentes bem baças pelos órgãos do Estado que a deveriam cumprir à risca. O que é certo é que a manifestação é um direito consagrado inclusivamente na nova Constituição que o MPLA e o governo tanto elogiam. Não venham agora com interpretações-à-medida para pararem o grito de cidadãos que, espantem-se senhores governantes, também pensam pela própria cabeça. E o que têm dizer, espantem-se mais uma vez, não vai de acordo com o que vocês defendem e andam a fazer.

Em baixo, um excelente trabalho sobre as demolições no Lubango, da autoria de Miguel Gomes e com contribuições de Teodoro Albano, publicado na última edição do Novo Jornal. Inclui uma entrevista a Isaac dos Anjos, em que o governador da Huíla exibe claramente, e com a maior das naturalidades, toda a arrogância, prepotência e insensibilidade do poder em Angola.


Demolições no Lubango: Abaixo-assinado de Jacques dos Santos

Jacques dos Santos está a promover um abaixo-assinado URGENTE, contra a forma como as demolições no Lubango estão a ser feitas, deixando milhares de pessoas em condições sub-humanas. Aqui está o manifesto que é, para mim, mais que pertinente. Divulguem o máximo possível, por favor.

"Caros amigos,

O texto abaixo é da minha inteira responsabilidade e não engaja de modo algum a Associação Cultural e Recreativa Chá de Caxinde. Se estiverem de acordo com as posições aí assumidas agradeço as vossas urgentes respostas, dando-me, por esta via o vosso sim, bem como o nome e endereço que constarão da lista de assinaturas.

DIGNIDADE E CIDADANIA
Jacques Arlindo dos Santos

Ao Exmo. Senhor Presidente da 9ª Comissão da Assembleia Nacional - Direitos Humanos, Petições, Reclamações e Sugestões dos Cidadãos

Luanda, 23 de Março de 2010

Os abaixo assinados vêm assistindo a um desusado movimento de demolição de casas em várias cidades do país, que os deixa seriamente preocupados. Sendo certo que as medidas aprovadas superiormente e que visam a luta contra as construções clandestinas apontam para este tipo de acção não é menos certo que, aplicada como vem sendo feita (veja-se o caso dos acontecimentos do Lubango) concorre-se perigosamente para que se desrespeitem direitos sagrados dos cidadãos.

Ficarmos indiferentes ao drama que inúmeros concidadãos nossos estão a viver, sujeitos à chuva e ao relento, significa que pactuamos com a perda da dignidade que sempre norteou a luta pela independência nacional. Não pretendendo retirar validade às medidas governamentais, queremos apenas chamar a atenção para a necessidade premente que existe de se dialogar e negociar e serem encontradas formas humanas de alojamento.

Alerta-se ainda para o facto de o Estado nada perder se encontrar, na base do bom senso, soluções mais justas para este problema de que não são apenas culpadas as populações atingidas. Os abaixo assinados apelam às autoridades por medidas mais adequadas e dão o seu apoio à manifestação que se pretende levar a cabo na cidade de Benguela no próximo dia 25/03/10, porque a Nova Constituição o permite e o Estado de Direito consagra o respeito pelos direitos fundamentais dos cidadãos."

chacaxinde@netcabo.co.ao/chacaxinde@ebonet.net/chacaxinde@hotmail.com

22 March 2010

Salvador


É agora que este blog fica intimista. E é assim que rompo, três meses depois, como notou Soberano Canhanga, um silêncio que foi mais grito que outra coisa. Todo este tempo (tão pouco, afinal, vejo agora) foi de revolução. Episódios inesperados, marretadas na cabeça, o fim de algumas ilusões e desnorte que desembocaram em novas coordenadas e numa estratégia diferente para os mesmos objectivos de sempre.

Olho agora Luanda e Angola de frente, do outro lado do espelho. Salvador da Bahía, numa reprodução algumas vezes forçada do que fica do outro lado do Atlântico. Curiosamente, é a minha Benguela que fica cara com cara com o Farol da Barra, a minha referência numa cidade que há muitos anos se impôs no meu imaginário (e de tantos outros) pelas palavras de Jorge Amado.

Estou, digamos, na minha fase egoísta e de distanciamento. Egoísta, porque preciso com urgência de pensar mais em mim do que em grandes causas; distanciamento, porque, apesar de sentir umas saudades terríveis de Angola, é interessante olhá-la de fora, e ver o tipo de sentimentos que ela desperta. Na boca fica aquele sabor agridoce do absurdo. Talvez parecido com o sabor de uma mulher que amamos loucamente mas que nos dá porrada todos os dias e nos atira à cara a nossa imposta ou suposta impotência.

Estou neste limbo e assim deverei ficar uns tempos mais. Sou um puto, um "teenager guevarista", segundo a arrogância de um importante senhor da Banda (desses do estilo "sabes quem eu sou?"). Por isso tenho que me dar espaço para viver coisas novas, descobrir algo para além da asfixia, conhecer pessoas diferentes, definir mil planos de viagens e de escritas que talvez nem se concretizem. Mas isso também não importa. Estou a viver-me pela primeira vez em muito tempo. Que Salvador me salve... e até ao regresso.