30 July 2009

Malam Bacai Sanhá: Um político moderado que cresceu com o PAIGC

Um episódio vivido aos 15 anos, quando viu o pai ser preso e morto pela polícia política portuguesa, a PIDE, marcou o trajecto de Malam Bacai Sanhá, muçulmano de etnia beafada, ontem proclamado Presidente, aos 62 anos. Estava-se em Agosto de 1962, no Sul da Guiné, e a luta armada pela independência só começaria no ano seguinte.Foi nessa altura que o jovem Malam, filho de camponeses, natural de Empada, que muitos anos depois identificou esse como um momento marcante da sua vida, aderiu ao PAICG. LER MAIS

28 July 2009

O grito de Iraque e Bagdad

É um grito que surge de todos os lados: mais uma vez os bulldozers do Governo Provincial de Luanda estão a demolir, mais que casas, vidas. Desestruturam, desta vez nos bairros Iraque e Bagdad, o dia-a-dia de 15 mil pessoas, segundo as contas da SOS Habitat, organização rejuvenescida com o recente regresso de Luiz Araújo. Tudo deitado por terra, sem aviso prévio, sem - mais grave - qualquer alternativa para quem fica sem tecto.

Os argumentos do outro lado são facilmente rebatíveis, porque incompletos. São casas degradadas, sim senhor; áreas ocupadas clandestinamente que é preciso requalificar, muito bem. Até aqui estamos todos de acordo. Mas são,acima de tudo, casas onde vivem pessoas de carne e osso, excluídas socialmente; pessoas que sentem, que respiram, que sonham, que têm filhos, netos, sobrinhos, amigos, vizinhos, que choram, que riem, pessoas que têm direitos! Angolanos que não podem ser tratados como parasitas por quem tem interesses, muitas vezes inconfessos, no pedaço de chão que ocupam. Há mecanismos para se desalojar as pessoas com dignidade e fazer valer o direito do Estado às terras. Cumpram-se!

Os cenários repetem-se. Há uns meses, filas de desalojados do bairro Benfica, na ilha de Luanda, eram directamente despejadas nos descampados do Zango. Onde ainda hoje permanecem por sua conta e risco. Era angustiante passar pela estrada da ilha, repleta de centenas de populares à espera ao ar livre, durante vários dias, que camiões de areia os fossem buscar. Chegada a hora, lá iam eles, amontoados como entulho no meio de colchões, pedaços de mobílias e sabe-se lá mais o quê. Cruzavam toda a cidade, em caravanas intermináveis escoltadas por batedores, a caminho da nova "casa". Humilhados, atordoados, espezinhados pelo poder que os deveria proteger.

No Iraque e no Bagdad cumpre-se, mais uma vez, uma teoria-verdade: para quem detém o poder, Angola é o seu quintal, onde nós, os que não pertencem ao seu clube, vivemos de favor. A tudo temos que nos submeter silenciosamente, com um sorriso na cara, de preferência, para não estragarmos a fotografia do progresso e desenvolvimento da nossa pujante democracia.

Talvez tudo isto ultrapasse a minha limitada capacidade de compreensão, e por isso não consiga entender as grandes estratégias e urgências da Nação que supostamente justificam estas acções. Mas percebo os medos de quem, sob o pretexto de manter a ordem pública, destaca para o cenário de destruição gratuita forças militares e de intervenção que tentam evitar o que, um dia, poderá ser inevitável. Porque a bomba-relógio social que os nossos governantes tão bem estão a montar com actos deste calibre poderá um dia rebentar nas suas mãos. Nessa altura, as contas serão acertadas de uma maneira que ninguém quer. E pagará o justo pelo pecador. Um link:
http://angonoticias.com/full_headlines.php?id=24528

O puxão de orelhas de Bento XVI

A vinda de Bento XVI vista sob uma perspectiva mais política, com as relações entre política e religião, em Angola, como pano de fundo.

Angola no Vaticano

Esta foi a primeira de uma série de trabalhos de antecipação da visita do Papa Bento XVI a Angola, em Março deste ano. Reportagens com informação recolhida durante dez dias, em Roma, junto a sacerdotes angolanos que pertencem a congregações sedeadas naquela cidade e que trabalham em instituições do Vaticano. Este trabalho retrata um pouco esses religiosos, ao mesmo tempo que foca a reevangelização da Europa por africanos.

27 July 2009

Eugénio Mateus

"Esta matéria atingiu, em termos de dimensão, as Forças Armadas e foi publicada internacionalmente. Eis a razão que nos levou a realizar este acto, para que sirva de exemplo aos demais órgãos, jornalistas, no sentido de tratarem as matérias com veracidade e responsabilidade"- General Furtado à Capital (25 Julho 2009)

Não estou neste momento na Banda, e apenas me chegam os ecos da condenação do jornalista Eugénio Mateus (já agora, obrigado ao Reginaldo por disponibilizar esta citação no seu morro). Mas não consigo deixar de me surpreender com esta reprimenda ao estilo de escola primária que o general Furtado faz a toda a classe jornalística angolana - como se todos fossemos umas criancinhas birrentas que batemos o pé, atiramo-nos para o chão e partimos a melhor jarra de flores da mamã só para a chatear e a fazer sentir que temos poder.

Pois bem, lamento imenso, mas não me revejo, nem a mim, nem a muitos dos meus colegas, nessa pintura. E mais: Fico muito preocupado que esse rótulo nos seja aplicado à partida por altos responsáveis deste país, que nos pintam perante a opinião pública como um bando de miúdos petulantes a necessitar de reprimendas, sempre que fugimos da linha e dos limites traçados por quem supostamente detém a razão suprema. Se isto não é pressão, por favor, digam-me o que é. Ofereço uma birra (não dessas birras de puto, mas uma cerveja a estalar) à melhor resposta.

Não acompanhei o julgamento in loco, reafirmo, mas sei - por conversas com quem o viveu de perto e pela comunicação social, privada, claro está - que há muitas queixas sobre irregularidades no processo, e um coro de críticas aos argumentos que levaram à condenação do nosso colega. Buracos negros que deram origem ao recurso que o advogado de defesa, David Mendes, se prepara para interpôr.

São, assim, pontas soltas de um novelo que se vem enrodilhando há muito tempo com pressões judiciais sobre jornalistas angolanos e que, tendo em conta a reprimenda do nosso mais novel professor, e as agulhas muitas vezes desafinadas da nossa justiça, me fazem olhar para esta condenação de Eugénio Mateus (a quem mando um abraço a título pessoal) com muita desconfiança. Essa desconfiança de quem, como muitos de nós, não se sente protegido pelo sistema de justiça do nosso país.

Mas numa coisa estou de acordo com o general Furtado: Exige-se veracidade e responsabilidade, sim senhor. Mas de todos!

26 July 2009

Guiné-Bissau, voltas e mais voltas

Mais uma volta, mais uma eleição, mais uma (ténue) esperança. Neste momento os guineenses estão a votar mais uma vez (sempre mais uma vez) nas presidenciais. Kumba Ialá ou Malam Bacai Sanhá, opções com que muitos não se identificam, mas que são as únicas, num país cansado de confusão e com uma crónica falta de esperança.

Estive durante 15 dias em Bissau, na primeira volta das eleições, e foi impossível não me envolver com os anseios deste povo magnífico. Fartos, desanimados, totalmente descrentes e cansados das consecutivas machadadas com os políticos e militares lhes destroem todas as esperanças de dias melhores. Como em todo o lado, quem sofre é a raia miúda, que vê o seu país constantemente adiado. Vivem como autómatos, quase, rotulados como habitantes do primeiro narco-Estado da África Ocidental, intimidados pelo poder militar, que ainda hoje reinvindica os louros da luta de libertação, e recolhidos nas diminutas possibilidades de evolução e desenvolvimento que os seus dirigentes lhes proporcionam. Um cenário desesperante.

A Guiné-Bissau impressionou-me, sobretudo pela dimensão humana das pessoas, altamente afectuosas e pacíficas. Um contraste brutal com a imagem de violência que os responsáveis pelas suas vidas passam cá para fora. Todos sabem que estas eleições não vão alterar grande coisa, porque as mudanças têm que ser de fundo e abarcar todos os sectores da sociedade. Como tal, aguardo com expectativa o que aí vem. Porque este povo merece um caminho sólido. Aqui em baixo, um texto de antecipação destas eleições, que fiz para a última edição do NJ.

25 July 2009

A moamba que vem do Brasil

Atravessam o Atlântico para fazer compras e trazer as roupas e roupinhas que fazem a moda nos mercados informais de Luanda. As moambeiras fazem parte desta economia informal que prolifera em lugares como o nosso, em que todo o esquema é bem-vindo para suprir as carências de cada um. Uma viagem a São Paulo, no Brasil, deu para acompanhar um trajecto percorrido indefinidamente por centenas de mulheres angolanas, todos os anos.

Os filhos do 27 de Maio

Durante décadas, muitos dos filhos de angolanos mortos durante a purga de 27 de Maio de '77 viveram no total desconhecimento do verdadeiro motivo da morte dos seus pais. Traumatizadas pelas vivências de um dos períodos-tabú da nossa história, as famílias esconderam aos mais pequenos a verdade, para os proteger. 32 anos depois, os "filhos do 27 de Maio" exigem uma explicação do Estado angolano e do MPLA sobre o que aconteceu nos tempos seguintes ao 27/05. A resposta é a mesma de sempre - o silêncio.

27 de Maio: O Prédio da Praça

No final dos anos 70, um prédio numa praceta de Luanda era um dos centros de gravitação de boémios, jornalistas, artistas, intelectuais da cidade, jovens saídos da Independência que teimaram em ficar quando muitos partiam. Em 27 de Maio de 1977, data que assinala o estalar de uma chacina sem precedentes em Angola, depois da tentativa de revolução/golpe de Estado (conforme a versão) liderada por Nito Alves, este prédio foi "limpo". Muitos dos que aí viviam ou por lá passavam foram presos ou mortos. O prédio transformou-se num símbolo para os sobreviventes do 27 de Maio, episódio negro da história recente de Angola que ditou a morte de milhares de pessoas e instalou um clima de terror que ainda hoje desperta muitos medos e pesadelos.

22 July 2009

Mukuarimi

Vamos lá então ao significado do blog: Mukuarimi foi o nome de uma publicação lançada pelo jornalista Alfredo Troni no século XIX, em Luanda. Significa algo como "linguarudo", "falador", "maldizente". Uma provocação clara naqueles tempos, em que começavam a germinar na então colónia os ideais proto-nacionalistas (que Troni defendia com unhas e dentes), ainda que circunscritos a uma determinada elite urbana.

O que a História trouxe daí para a frente todos sabemos, porque cada um de nós viveu esse percurso à sua maneira. Chegámos, assim, ao momento actual, em que falar, acicatar, provocar (com responsabilidade) não é menos preciso do que no século XIX de Troni. A luta agora é diferente na forma e contexto, mas igual no que a move - um ideal de liberdade e a necessidade de dignificação de cada angolano. Porque não somos mercadoria manipulável, pronta a usar a cada momento em proveito próprio por quem acha que o poder é eterno.

21 July 2009

Angola deportou ilegalmente imigrantes

Em 2004, catorze imigrantes gambianos expulsos de Angola apresentaram uma queixa à Comissão Africana dos Direitos Humanos e dos Povos (CADHP), organismo da União Africana, pelo que diziam ter sido a violação dos seus direitos pelo Estado Angolano. Depois de quatro anos a apelar a Luanda para contra-alegar, e sem obter qualquer resposta, a CADHP deliberou: Angola violou nove artigos da Carta Africana dos Direitos Humanos, ao deportar ilegalmente os queixosos, ao extorquir-lhes os bens, ao negar-lhes o acesso à justiça, ao destruir-lhe os documentos, etc, etc, etc.

Ao ignorar completamente os apelos da CADHP para dar a sua versão dos factos (e quem sabe provar que, eventualmente, a história até não estaria bem contada), o governo angolano demonstrou, mais uma vez, que esta atitude autista que muitas vezes o caracteriza só lhe fica mal e acaba por ser um tiro de bazuca nos próprios pés. Porque mais cedo ou mais tarde a notícia sai cá para fora e é a imagem de Angola que se suja com o rótulo de "violador de direitos humanos", tantas vezes colado à nossa bandeira. Até porque como vai dizendo o ditado, quem cala consente.

Se um barco atracasse

Esta é uma reportagem sobre a Guiné-Bissau. Uma das que trouxe no bloco de apontamentos e gravador que me acompanharam naquelas duas semanas magníficas e intensas que passei na terra dos grandes rios. Tentei, com este trabalho, mostrar o que nunca sai cá para fora, quando o assunto são as makas que ciclicamente rebentam por lá. Porque a Guiné-Bissau é para mim, acima de tudo, uma terra de pessoas tão magníficas e ao mesmo tempo tão sem perspectiva e sonhos, que impressiona. Nunca vi nada assim. Eis um outro lado da Guiné.



E agora as duas reportagens que enviei, a partir de Bissau, durante a primeira volta das eleições. A expectativa, a política, a votação, uma nova espera.



Arquivo

Depois de um mês abandonado, decidi fazer deste blog um repositório dos meus trabalhos que acho mais significativos. Uma forma de os partilhar, comentar, obter reacções e de os arquivar, ao mesmo tempo. Começo com a mais recente edição do Novo Jornal. Depois vou buscar outros que estão lá para trás e que também me deram gozo fazer. Quero também pôr aqui outras reportagens que se fazem por Angola, noutros órgãos, que ache interessantes. E tal como o kota Reginaldo Silva com o Angolense, no seu morrodamaianga.blogspot.com, começo a pôr a partir desta semana, aqui ao lado, a primeira página do NJ, para aguçar o apetite.

Um alerta: este é um blog pessoal, e nenhuma das opiniões aqui expressas vincula o Novo Jornal, do qual reproduzo algumas páginas, e onde trabalho.