13 June 2010

Portas da Patagónia

A estrada passa, fica para trás. Passa e sempre continua. A estrada com as suas marcas, linhas contínuas, descontínuas. A estrada que delimita a paisagem a que eu vou assistindo das minhas janelas de autocarros, desimpedidas, sem barras a cortá-las. A minha viagem.

Buenos Aires, 31 de Maio. Auto-estradas ao ritmo de Cerati, rumo ao sul. Pampa seca, milhares de quilómetros e pampa, pampa, pampa. Paisagem desértica, gado, pampa na noite gelada numa estrada que corta a Argentina. A noite longa, embaciada e dormente na janela de autocarro, ecrã priveligiado de quem ali está sem saber bem como. Pampa que essa noite traga e que se ergue em movimento tectónico em montanhas friorentas que anunciam a Patagónia argentina e os Andes, mais à frente. O sol nasce, por entre o nevoeiro, tomando de assalto o Vale Encantado. Assim se chama, e assim é. Pedregulhos despenteados e ziguezagueantes no cone sul-americano. Primeiro contacto com o gelo andino.

Bariloche, porta do sul argentino. Pensão Witkter, do Wikter que sempre sonhou em ir a África. O Tronador, a montanha que ruge, e os seus glaciares. Os sete lagos e San Martin de los Andes, Puerto Bles e alguém que pergunta se a história de diamantes em Angola é como a do filme "Blood Diamond". Angola em desenhos de guardanapos de papel, Angola nas conversas em autocarro com velhinhas de todos os lados da Argentina que insistem em alimentar-me, como se o facto de viver na Banda signifique automaticamente estômago roncante, como o Tronador. A curiosidade pela nossa música, comida, e a minha dificuldade crónica de traduzir para espanhol óleo de palma (de uva?, azeitona?, milho?, perguntam), mandioca e funge.

Bariloche dos chocolates, do ambiente suíço. E do gelado, frio de rachar, do exótico. Porque para mim exotico é isto - neve, lagos gelados, gelo na estrada, glaciares, condores. E a lembrança de uma discussão numa das reuniões de redacção do NJ, sobre a pertinência de usar a palavra "exótico". Porque afinal, como tudo, é apenas uma questao de perspectiva. Os bichos raros as vezes não são tão raros como isso. Outros sim, são, mas nao se manifestam. Mas essa é outra história. O que importa é que o chefe Freitas tinha, mais uma vez, toda a razão.

Bariloche, início da Patagónia que desde muito novo, muito por culpa dos contos e crónicas de Sepúlveda e do livro de Chatwin, me atraiu imenso. Do papel para a estrada. Patagónia. Cheguei.

3 comments:

Conceição said...

Filho
Tão longe e tão perto, tal é a tua capacidade de comunicares o que vês e sentes. E assim, te vou acompanhando, com o coração aos saltos, tal o recorte dessas montanhas que descreves.
Beijo
Mãe

beta said...

lindo, pedrinho.
segue esta viagem boa.
beijos

Claudio Silva said...

Buenos Aires, cidade onde vivi por 2 mesinhos, mas cidade que amei. Como um namoro de verão, daqueles que os ingleses caraterizam como "fleeting". Boas recordações e grandes amigos que fiz por lá!