25 March 2010

(des)ordem (re)estabelecida


"Quando me desespero, lembro-me que a verdade e o amor sempre triunfaram. Houve tiranos e opressores, mas todos caíram".


Ghandi




Vergonhoso. Ditatorial. Inqualificável. E eu nem sei como ainda me supreendo... A manifestação em Benguela, "Não partam a minha casa", não aconteceu. Limitou-se à leitura de uma declaração. Quando já vários activistas estavam na Graça para começar o protesto contra as demolições e despejos forçados, a Omunga retrocedeu e cancelou o que era aguardado com expectativa. Motivo: um ostensivo dispositivo da Polícia de Intervenção Rápida (PIR) nas ruas por onde os manifestantes iriam passar - "sirenes o dia todo e em toda a cidade, cães, arsenal e carros pesados", segundo um amigo. Cenário de estado de sítio para conter um simples protesto de civis que iria acontecer de forma ordeira e pacífica, de acordo com as garantias dadas pela associação, e das quais não duvido minimamente. Ameaça e intimidação de órgãos do Estado aos que ousariam expressar a sua opinião contra os actos de governo. Que outra interpretação?

Mas não foi esta a única razão que ditou o cancelamento. Na noite de ontem, quarta-feira, segundo os relatos que chegam de Benguela, as rádios locais emitiram um comunicado do governo de Armando da Cruz Neto que alertava: “O Governo Provincial de Benguela (GPB), no quadro das suas responsabilidades de defesa da ordem, da tranquilidade e da paz social, usará os meios legalmente instituídos, visando anular tal pretensão [a realização da manifestação] e declara que não se responsabilizará pelos eventuais danos físicos ou materiais decorrentes do exercício da sua actividade em defesa da ordem estabelecida”. Citação do jornal Apostolado. A mensagem era simples: ou desistem de uma vez da ideia ou apanham porrada da PIR e nós nem aí. Uma aviso-à-Pilatos que, pelo menos indirectamente, terá sido transmitido a José Patrocínio pelo Comandante Provincial da Polícia Nacional de Benguela e pelo GPB, nos encontros que precederam a tentativa lograda da manifestação.

E tudo isto, pasme-se, "em defesa da ordem estabelecida". Mas que "ordem estabelecida" é esta? A da bagunça total em que sempre os mesmos continuarão a decidir a bel-prazer como se o país fosse deles, e nós meros inquilinos dos seus quintais? Quando é que se vão deixar de uma vez por todas da paranóia de que "quem não está connosco está contra nós?" Quando é que vão deixar de nos ver como ratos de porão a quem pensam poderem dar uns pontapés para sairmos da frente e umas migalhas para nos calarmos?

Esta vossa arrogância não vai durar para sempre. Por muitos ouvidos moucos que façam às reivindicações do povo que deviam servir (esta proibição abusiva de uma manifestação foi apenas uma entre muitas), vamos continuar a respirar o mesmo ar, a caminhar nas mesmas ruas, a viver no mesmo país. E essa vossa fantasia de super-homens vai continuar lado-a-lado com os nossos desejos e projectos que vos fogem do controlo, porque não são arquitectados nos corredores "do partido" ou da Cidade Alta. A consciência é livre e assim também o somos enquanto formos dignos!

À Omunga e a todos os que se deslocaram a Benguela, tiro o chapéu. Apesar da "retirada estratégica", foi a primeira vez em muitos anos que vi uma tamanha mobilização e tanta gente a dar a cara por uma causa. A Benguela acorreu um mar de pessoas de todo o país, desde cidadãos anónimos, a figuras proeminentes da sociedade política e entidades religiosas, que se juntaram aos muitos cidadãos e activistas benguelenses prontos a reivindicar os seus direitos. Espero que esta força não esmoreça, até porque a Omunga não desistiu do protesto e promete voltar à carga noutro contexto. Este é um sinal de que algo está a mudar em Angola. E como o poder tem medo disso!

1 comment:

Conceição said...

Partilho inteiramente deste teu parecer. A justiça pode tardar, mas irá ser feita e esses senhores que se julgam intocáveis hão-de cair pelas suas próprias mãos. Não foi esta Angola que o MPLA prometeu aos seus filhos há muitos anos atrás. Pobre povo, que foi induzido em erro e falsas esperanças. Mas acredito, que um dia tudo vai ser diferente e que este País ainda há-de ser de todos e não só de meia dúzia.Força e coragem àqueles que lutam para que isso aconteça. Obrigada pela vossa determinação.