27 May 2010

Orangue na Virada

É uma cidade improvável para um tipo como eu, meio provinciano, gostar. Mas gosto dela. São Paulo. Depois do Rio e de uns dias em Paraty (escrevo sobre esta vilazinha mais tarde), a maior metrópole da América do Sul. Cinzenta, tensa, vibrante, a cidade de todas as opções. O lugar gigante onde há tudo para fazer (mas rigorosamente tudo) a qualquer hora do dia. Quando se vem de um deserto de opções como Luanda, saber que se tem tudo à disposiçao, mesmo ficando todo o dia em frente à televisao, sabe muito bem.

Uma semana de amigos de cá que viveram em Angola - Ju, Fabrício e Roberta -, de muita paródia, de viver rápido e de cometer alguns atropelos sentimentais. A constipação que me pegou um beijo, ou muitos beijos, as famílias de cada um, as recordações que se reactualizam em novas experiências juntos.

O fim-de-semana da virada cultural e uma surpresa. Num sábado em que quatro milhões de pessoas anoiteceram e amanheceram nas ruas paulistanas, saio de uma casa de banho de um hotel e vejo-o. Nada mais, nada menos que o Padre Horácio, figura mítica entre as crianças de rua de Luanda, com quem trabalhou durante anos e anos e anos a fio e criou o Centro de Acolhimento Arnaldo Jansen. Ou, muito simplesmente, o Centro do Padre Horácio, como ficou popularmente conhecido.

O Orangue foi uma das pessoas que me apoiou quando cheguei a Luanda em 2004. Era mais um caçula dele. Bebíamos maruvo e dávamos umas voltas ao domingo, depois dele dar a missa. Falávamos de tudo e mais alguma coisa. Em 2006, depois de vir de Cabo Verde, ainda nos encontrámos duas ou três vezes, mas logo ele foi transferido para o Brasil. Perdi-lhe o rasto até agora, três anos depois, num encontro mais que impossível no meio de uma das maiores metrópoles do mundo, numa noite de uma confusão inimaginável.

Almoçámos juntos no dia em que eu viajaria, coincidementente, para o país dele, a Argentina. Pusemos a conversa em dia, actualizámo-nos. E despedimo-nos sem marcar encontro, porque sabemos que ele vai-se dar novamente, num qualquer canto de um mundo improvável.

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