03 April 2010

Questionário aos kotas de todas as lutas


Solo le pido a Dios
Que el dolor no me sea indiferente
Que la reseca Muerte no me encuentre
Vacio y solo sin haber hecho lo suficiente.
"Solo le pido a Dios", Léon Gieco (por Mercedes Sosa)

Qual a força que nos faz acreditar uma vida toda que a luta é a única via? E que energia é essa que faz, de facto, o caminho ser de convicção permanente? Como avaliar a necessidade de recuos e novos avanços? Que é isto que se mete dentro da cabeça e do coração e nos faz sentir que sem compromisso – com os outros, com o nosso chão – não se é rigorosamente nada?

Será que cobardia é o que achamos que ela é? Recuar é cobardia ou sensatez? Olhar, como eu, o nosso país do outro lado do oceano durante uma espécie de licença sabática interior é fuga, refúgio ou inteligência emocional? É egoísta sentir-me bem comigo mesmo, aqui num canto diferente do mundo, ainda que pense continuamente no que ficou para trás e tente reequacionar procedimentos e objectivos? Não terei também eu direito a isto como pessoa? Onde fico eu no meio disto tudo?

Quando é que sair se torna abandono? E que lugar para a reivindicação a partir de cá, longe, quando lá, no nosso chão, os nossos companheiros continuam a empurrar o barco? Sem paragens, com as mesmas pressões, riscos e com a mesma força.

Qual é, digam-me, a fronteira entre mim e os outros? Qual é a causa mais importante – a do eu como indivíduo ou a do eu como colectivo? Uma existe sem a outra? E qual o ponto de equilíbrio entre uma e outra? E qual o sentido da anulação do meu “eu”, em virtude do grupo? Existe alguém que esteja de tal forma imerso na luta, qualquer ela que seja, que se sinta feliz apenas com os ganhos exteriores a si mesmo? Os que parecem contentar-se com isso, não estarão de alguma forma a viver um grande teatro e a compensar com tudo isso as fragilidades interiores e vidas pessoais esfrangalhadas e empatadas? Lutam pelos outros, mas perderam a sua própria luta…

A frase é mais que batida. Brecht: "há homens que lutam um dia, e são bons; há outros que lutam um ano, e são melhores; há aqueles que lutam muitos anos, e são muito bons; porém há os que lutam toda a vida - estes são os imprescindíveis". Mas esta “toda uma vida” é assim tão linear no seu conceito e no que ela abarca? De facto, há quem cante sempre, com o mesmo brilho nos olhos. Mas como atingir este estado de elevação, mesmo com os momentos de desespero e de frustração incontornáveis quando tudo à nossa volta soa a derrota – imposta, pressentida, sugerida? A solução é continuar a avançar por pura inércia? É aí que entra a força individual de cada um? Como lidar-se com o estado de explosão?

Um kota que respeito muito, desses que supostamente não perderam nunca o tal brilho nos olhos durante as décadas e décadas de lutas pela liberdade em África e no seu país, disse-me uma vez, aqui em Salvador, que há um sinal de alerta que anuncia a necessidade de uma análise interior profunda – olhar os que estão do outro lado da barricada, e que cujas acções de alguma forma combatemos, com a mesma agressividade, irracionalidade e ódio que os caracterizam e que consideramos inaceitáveis. Parece-me justo e muito razoável.

Não acredito em heróis. Tal como Deus, criámo-los para, em alturas de desespero, não cairmos num buraco fundo de irreversibilidade. Alimentamos a esperança que algo superior, e que não controlamos, intervenha e sacuda de vez a poeira que nos sufoca a todos. Somos humanos. Todinhos. Uns mais fortes que outros, porém.

Porque não acredito que duvidar seja sinal de fraqueza, ficam as perguntas. E uma paz interior e tranquilidade que não sentia há muito tempo e que encontrei deste lado de cá. Apesar de não passar de um puto com muitas ideias na cabeça e com pouca ou nenhuma obra feita, quero encontrar o meu caminho e um ponto de equilíbrio onde jogue com as minhas fraquezas e forças. Responda quem quiser.

5 comments:

Beta said...

A revolução está em ti e nunca vai te abandonar, pedro.

Pedro Cardoso said...

Não sou romântico ao ponto de acreditar que transporte em mim qualquer tipo de fatalismo revoluvionário. Só quero que as coisas evoluam. E que a morte não me apanhe sem ter feito o suficiente, como diz a canção.

Helena said...

Ao ler o seu texto identifiquei-me imenso com ele...
Se porque aos 52 anos, trabalho há 30 anos na mesma área profissional... em reabilitação de pessoas com deficiência... e tem dias em que me pergunto se os avanços "3 pés" superam os recuos "2 pés" e os "pés paradinhos"!!!
Se porque tenho "um coração angolano"... e sinto o seu texto...
Se porque o seu texto está tão admiravelmente escrito que me emociona.
Será por causa das perguntas que faz? Mas como viver sem sentir “que sair se torna abandono”?
Sim, fui ver a sua idade!
Sim, acho que vou ser sua fã!
E obrigada por ter escrito este texto!
M. Helena

Pedro Cardoso said...

Obrigado Helena. 30 anos, não só a acreditar, mas a viver de acordo com isso, tornam-na grande. Que a sua força a continue a acompanhar. Passo por passo, revés a revés. Obrigado mais uma vez.

Helena said...

Voltei.
Sim! até agora tenho conseguido … gritar à Lua prateada “Sim!!”
http://sutseg.blogspot.com/2006/01/o-convite-de-oriah-mountain-dreamer.html#comments
Além deste texto lindo (acho que vai gostar!) deixo um sonzinho!
http://www.youtube.com/watch?v=tn43Efqh6XA
Abraço!
MH