07 December 2009

Foroyaa, liberdade!

Gâmbia. Passei lá cerca de uma semana e meia, a convite da Associação Justiça, Paz e Democracia, para cobrir a 46ª Sessão da Comissão Africana dos Direitos Humanos. Paralelamente, fui tentando perceber um pouco um país dominado por Yahya Jammeh, o presidente-ditador que há 15 anos comanda com mão de ferro a vida daquelas pessoas. Mortes, prisões e desaparecimentos de jornalistas e políticos, um Estado altamente policiado onde todos desconfiam de todos, uma cultura de silêncio total e um culto de personalidade digo de um regime autocrático que se preze. Foi o que encontrei.

A própria delegação em que viajei (três angolanos, uma sul-africana e um congolês democrático), e que viajou por terra desde Dakar, foi barrada na fronteira da Gâmbia. Mesmo com vistos passados em Luanda, não nos queriam deixar entrar. As profissões, "jornalista" e "defensores dos direitos humanos" não ajudavam muito, decerto. Só depois de muita conversa, e de se telefonar para a Comissão Africana, que confirmou que estávamos ali para assistir à reunião, é que nos deixaram seguir viagem.

No meio deste caos subterrâneo, personagens. Como Fabakany Ceesay, um jovem jornalista do jornal independente, Foroyaa, de quem fiquei amigo e que me levou a conhecer um pouco os subúrbios de Serekunda, uma cidadezinha próxima a Banjul. Boné de Che Guevara e um compromisso desgraçado com a liberdade, com o progresso do seu país, e com os ideiais dos mais velhos pan-africanistas. Idealista q.b. e uma vontade imensa de viver.

E há o povo, que contrasta totalmente com esse clima de repressão. Os gambianos são altamente cordiais, muito simpáticos e afectuosos. E muito "cool". Têm uma adoração por Angola, a "terra dos diamantes", que me surpreendeu. Nós não sabemos nada sobre eles, eles sabem muito sobre nós. Não se queriam acreditar como eu, angolano, não sabia quanto valia um diamante no mercado. E pior, ficaram estupefactos por eu nunca ter visto um diamante ao vivo, na minha vida. Como se fosse escavar um pouco no quintal e apanhá-los com a mão. Somos mesmo bons a vender a nossa imagem para o exterior, não vale a pena!...

Num clima tropical e muito muito quente, o reggae. Ouve-se literalmente em todas as esquinas de Banjul - cidade ou bairro, rua ou beco. Até em árabe e wolof. Está totalmente em consonância com a forma de ser dos gambianos que conheci. Uma "boa onda" que poderá ser, quem sabe, uma forma de reagir ao medo, de descontrair e não entrar em paranóia. Aqui em baixo, uma reportagem que publiquei na última edição do Novo Jornal. Uma sincera homenagem aos que, na Gâmbia, acreditam, resistem e lutam pela liberdade e dignidade.



06 December 2009

Consciência do todo

As viagens que tenho estado a fazer recentemente, por África, estão a despertar em mim algo que não sei ainda bem racionalizar. Uma espécie de forte sentimento de comunidade, mas acima de tudo de uma responsabilidade comum - no rumo que tomámos, na denúncia do que se passa em cada um dos nossos países, nas soluções para nos encontrarmos de vez.

Nada disto se apoia em nenhuma ideologia ou convicção política. São apenas sensações com que vou ficando ao viver determinadas situações, e que se ampliam quando percebo que as grandes questões que afectam cada um dos países são irremediavelmente transversais a todos eles, ainda que diferentes na forma como se evidenciam. Vou usar uma palavra que tem sido distorcida, de tanto e tão mal utilizada - fraternidade. Olhar o outro como um de nós e dar-lhe um abraço porque há uma identidade comum. Uma identificação imediata do tipo "sei o que estás a passar, e estamos juntos nesta luta, que é a mesma... para o que der e vier". É isto que tenho sentido. Naturalmente, como um impulso.

Nada disto é novo - nem empiricamente, nem na teoria. Durante as lutas de libertação, os líderes eram, por definição, pan-africanistas. Um ideal que foi, ele mesmo, combatido e atirado na lama. As independências foram alcançadas. O "depois" é que ficou por fazer. Edificou-se uma mera linha de montagem de Estados fracos, que nem sequer se conseguem encontrar internamente, quanto mais pensar em algo maior. Por isso desconfio muito de ideias como a da criação imediata de uns Estados Unidos de África. Poderá ser um caminho, mas para já é pura demagogia.

E demagogia por uma razão muito simples: estamos todos no mesmo barco mas ainda não nos apercebemos disso. Porque não nos conhecemos ou, pior, em muitos casos não nos queremos conhecer. Como criar uma estrutura política de sucesso, se ela não parte da vontade das pessoas comuns? Aqui em Angola, por exemplo. Não somos africanos "como os outros", somos muito mais evoluídos. "Mas evoluídos em quê?", perguntava-me a coreógrafa Mónica Anapaz, numa entrevista que me deu para a Austral, em que falávamos como esta questão influencia até a dança que se faz por cá.

Estamos muito mais virados para fora - Portugal, Brasil, agora Dubai e China - do que para o nosso próprio continente. Não fazemos a mínima ideia, nem nos interessamos muito, diga-se, sobre o que se passa à nossa volta. Auto-excluímo-nos, o que se reflecte nos encontros entre africanos, em que estamos totalmente à parte das grandes discussões, da troca de informações. O que tem também a ver, claro, com a língua, que nos transforma em cinco pequenos e dispersos enclaves em África. Mas o ser lusófono não justifica tudo, porque nem sequer vejo grandes esforços de aproximação. Apenas de afirmação - faremos o MAIOR CAN em África, teremos o MAIOR aeroporto de África, somos uma POTÊNCIA em África, e por aí adiante... em África.

No fundo, fugimos do nosso próprio espelho, e recorrentemente sagramo-nos com todo o orgulho como os maiores do nada, infelizmente. É ridículo. E apenas demonstra a nossa total ignorância sobre o que se passa noutros países africanos, esses que não são tão "especiais" como nós, usando a adjectivação populista do nosso camarada Presidente. Ficam estes apontamentos. Por África.

29 November 2009

A hipnose e o absurdo

“África Hipnótica”. É a lista do meu i-pod que ouço em repeat em todas as viagens de avião. Dessas em que cruzo o continente. Voos a muitos mil pés de altitude, norte, sul, oeste, leste, luz de sol, luz de lua, luz cintilante das pontas das asas. Luz – sempre mais rápida - sobre África, Ela.

No ar artificial e na penumbra mergulho num espaço vazio, mas imenso, que incuba uma espécie de fatalidade. Os sons entram-me directamente para o cérebro em forma de ecos e céu nocturno e transformam-me num reactor alucinogénico. Nessa dimensão sinto-A: calma, gigante, potente, frágil, feliz, mortífera, autofágica. E compreendo que, na verdade, Ela permanece absolutamente indiferente à nossa idealização d'Ela mesma. Vista de cima, sem fronteiras, sem nada a não ser território naturalmente contínuo, o absurdo torna-se ainda mais evidente. No fundo, não percebemos nada - nem a nós, nem a Ela, nem o que raio fazemos nós n'Ela. No meu corpo, o ar frio do avião, o cobertor que descai e a luz que se acende a meio da noite. A luz. A luz que se apaga de novo.

Desta anestesia estranha e obscura fica a comoção. Comovo-me sempre. Nesta hipnose corremos juntos para um destino igual. Movemo-nos numa inércia animal perpetuada a força telúrica. Somos terra. Terra fina. Apenas pó.

28 November 2009

Carta a um anti-país

Gustavo Costa*

Num tempo em que o tempo vive e convive «com igrejas e os seus jurarcas, os políticos e as suas mentiras, a sociedade e as suas resignações”, também acabou por haver aqui um tempo para atender a Brecht e sobretudo ao alerta que Berthold nos fez na grande “Indiferença”. Esse tempo bateu à porta de uma Hora que ficou sem Hagá durante duas semanas, mas graças a Berthold Brecht volta a hospedar-se aqui com a dignidade daquele outro também escritor (entre muitas outras coisas) e descrito por Stefan Zweig no seu ensaio sobre autobiografias literárias como o que “poderia ser tudo” mas que “prefere não ser nada, absolutamente nada, excepto ser livre”…

Num país, que não é o meu, para muita gente deslumbrada com o poder, gente tatuada com pesadelos censórios, a liberdade de pensar em voz alta deveria ser ocultada no nevoeiro e lacrada com o selo da interdição. Nesse país, que não é o meu, esse acto, digno de um festim com fogo-de-artifício, deveria consagrar o embalsamar de quem, como eu, cultiva como traços distintivos da sua forma de fazer jornalismo três valores intransaccionáveis: a liberdade, a pedagogia e a crítica.

Nesse país, que não é o meu, em que algumas igrejas e as seitas religiosas estão convertidas em fontes de enriquecimento ilícito dalguns dos seus líderes e fiéis, tudo pode acontecer. Nesse país, que não é o meu, em que os partidos políticos preferiram leiloar os princípios e trocá-los por interesses, transformando-se, em plena hasta pública, em poderosas centrais de negócios, tudo pode acontecer. Nesse país, que não é o meu, que aceita o primado dos idólatras sobre os homens, tudo pode acontecer…

Nesse país, que não é o meu, alugado por inquilinos entontecidos com as contas de subtrair e que se apunhalam entre si, tudo pode acontecer. Nesse país, que não é o meu e que assistiu a um escandaloso processo de privatização de bens públicos altamente danoso para o Estado, tudo pode acontecer. Nesse país, que não é o meu, onde se banqueteia ao ar livre a (con)gestão ruinosa dos recursos públicos, festeja se a fraude, comemora-se a consagração da corrupção e assiste-se ao estímulo dos infractores com a adopção de um “período de graça” de quinze dias para cometimento de novos crimes e uma “amnistia” ancorada na simbologia de um areópago partidário, tudo pode acontecer…

Nesse país, que não é o meu, onde os cidadãos, com coluna vertebral, já não aceitam ser tomados por tolos, nem levam a sério quem julga poder anestesiá-los com ocas promessas de estancamento do saque, tudo pode acontecer. Nesse país, que não é o meu e que vive de discursos fantasiosos, eivados de automatismos verbais pouco edificantes e que coloca a dignidade na gaveta, tudo pode acontecer…

Nesse país, que não é o meu, em que o principal pivot da governação é um factor de estabilidade, mas também e simultaneamente factor de inibição da libertação da raiva crítica encubada na mente de gente cínica, que sabe falsear a sua fidelidade ao líder, tudo pode acontecer. Nesse país, que não é o meu, herdeiro de tradições securitárias monstruosas, onde até os telefones afugentam os seus mais altos dignitários, como se os mesmos queimassem a língua, tudo pode acontecer…

Pois bem, nesse país que não é o meu, bêbado com vários sacos azuis, a ilusão de óptica desportiva está transformada num “olímpico” sorvedouro de fundos do Estado, que escorregando direitinho para majestosas algibeiras, deixarão um dia os seus cidadãos a ver o futuro por um “CAN”. Esse país, em permanente e doentio estado de auto-flagelação, acredita que os doentes, antes de serem consultados, gostariam, se calhar, de saber primeiro qual a filiação partidária dos médicos e enfermeiros que os atendem…

Nesse país, que não é o meu, mas que é grandioso na forma, todavia “piquinino” no conteúdo, a auto flagelação constitui um ingrediente venenoso, que fazendo parte da sua história, está a desgastar a alma de gente decente na grandeza de espírito e na verticalidade intelectual. Esse mesmo país, que não é o meu, “exemplar” na distribuição da riqueza, ao mesmo tempo que se lambuza com a cultura de desperdício proporcionada pelo dinheiro do “carvão”, rasteja, inglório, aos pés do “Triunfo dos Porcos”… Extraordinário a exibir a fasquia de irrealizáveis promessas eleitoralistas, esse país, que não é o meu, “esquece-se” muitas vezes que não consegue sequer ter um ensino básico qualificado e que, por via do deficiente ingresso dos estudantes no ensino médio – é claro nem todos – se atropela o ensino superior e, a mais das vezes, se incorre em fraude académica.

Nesse país, que não é o meu, o culto da incompetência e a escassez de valores de excelência funcionam “como uma nódoa de azeite”. Ou seja, como escreveu Émile Faguet, crítico literário e moralista francês do séc. XIX, aquela “propaga-se por contágio, sendo natural que, sendo endémico, seja também epidémico e que, encontrando-se no centro e núcleo do Estado (…) se transmita e alastre nos (seus) hábitos e costumes”. É, portanto, um país maravilhoso que, em lugar do carácter, da meritrocacia e da honra, prefere trasandar o culto das distinções, dos
galões e das honrarias…

Nesse democrático país, que não é o meu, há governantes que, confundindo tudo e todos e tropeçando nas suas trapalhadas, dormem, coitados, atormentados com o que os jornalistas podem ou não escrever no dia seguinte. Nesse democrático país, que não é o meu, há governantes que, ao despertarem, atordoados com a enormidade das suas asneiras, insistem em ver a imprensa com lentes cor-de-rosa. Nesse democrático país, que não é o meu, com uma comunicação social “livre” de quaisquer pressões, a estupidificação política dalguns desses governantes, ávidos de enjaular a liberdade de pensamento, de expressão e de imprensa, no “armário obscuro das coisas proibidas”, chega a meter dó, ao vê-los pretenderem negar o seu exercício ao ar livre, ao mesmo tempo que, mentalmente atrofiados, acabam por se espatifar na estrada da auto-censura…

Esse país, que não é o meu, está povoado de uns poucos governantes, que padecendo de “epilepsia cultural”, vivem acorrentados à censura e estonteados com o fantasma da perseguição dos jornalistas. É um país que acredita que a Academia Sueca seria capaz, se calhar, de aceitar o estatuto de Ministro como atributo para integrar muitos deles como júri encarregue de atribuir um qualquer Prémio Nobel…

É um país, que não é o meu, engordurado de rancor, prisioneiro de gente atada ao passado, gente que cultiva a autofagia política, gente que insiste em “julgar” políticos mortos há mais de trinta anos, em lugar de os valorizar como homens de letras e reconhecer a sua obra literária como património nacional.

É um país que, por isso, vergado a valores culturais importados, se gaba por ver sufragado pelo poder político e pelos aparelhos partidários, o reconhecimento de uma distinção literária. Nesse país, que não é o meu, o ódio e a intolerância, empanturraram de rasuras a História. Nesse país, que na verdade é o meu, vai ser preciso partir ainda muita pedra para derrubar os seus muros. Porquê? Porque no meu país, afinal, o “Muro de Berlim” continua de pé! Desgraçadamente de pé…

*Publicado no regresso do Horagá, edição 97 do Novo Jornal

23 November 2009

Regresso amordaçado


África do Sul, Senegal e Gâmbia. Andei a girar, em trabalho, durante o último mês. Voltei agora à Banda. E descobri que, enquanto eu dava as minhas voltas, muitas outras voltas se deram por estes lados, também. Não vou entrar em grandes detalhes. Estou triste e decepcionado, a redefinir o meu posicionamento e a tentar reenquadrar-me. Mas não abdico das minhas prioridades - contrariar esta cultura de silêncio que os nossos governantes, o partido do poder e quem o comanda nos querem enfiar a todo o custo pela garganta abaixo. E que, infelizmente, quase nunca nos recusamos a digerir. Haja coragem para vomitar as mordaças inadmissíveis da censura e do medo.

21 October 2009

Pensar e ter opinião são privilégios dos poderosos

Ismael Mateus, in Semanário Angolense

A chamada à DNIC da Luísa Rogério, Victor Silva e Ana Margoso e outros que se seguirão é demasiado conveniente. Todos sabem que os jornalistas gostam de defender os seus colegas, sobretudo num caso como este, em que está em causa o direito à opinião, no caso de Luísa Rogério, e o exercício profissional do jornalismo, nos casos da Ana Margoso e do seu director.

É um exercício conveniente. Nas próximas semanas ninguém falará de atípicas e de indirectas ou directas nem do presidencialismo parlamentar. Os jornalistas vão entrar no debate, se é crime ou não, vão perguntar-se se a DNIC não tem casos mais urgentes e anteriores; vão querer mobilizar a opinião pública, que é a única arma que os pobres dos jornalistas têm contra gente tão poderosa. É por isso que o poder é uma coisa que todos querem. O poder compra tudo. O poder pode tudo.

Um amigo jornalista confidenciou que está a ler um livro recentemente lançado em Paris com o título ‹‹O Poder enlouquece››, onde se contam histórias inacreditáveis sobre a forma como o poder se enrosca nas nossas entranhas e pouco a pouco consome o que há de melhor em nós. Começa pelo estômago e por isso é que se diz que os poderosos falam de barriga cheia, ou seja, não precisam de suar, dar no duro, não têm a dimensão do valor do trabalho. Tudo lhes caido céu, por herança ou por apropriação, pouco importa. O poder depois ataca o coração. Perde-se a sensibilidade, renuncia-se às origens pobres, aos amigos pobres e às causas dos pobres ou dos não poderosos. Finalmente, ataca os olhos. O poder cega. Cega mais do que qualquer doença, já aparentemente o afectado vê mas perde a capacidade de perceber o que vê.

Os jornalistas e mais meia dúzia de milhões de angolanos que já atingiram a maioridade não são poderosos e como tal não se devem comportar como se tivessem poder. Num mundo moderno e avançado como o nosso, é inaceitável, inconcebível, intolerável permitir a ousadia da existência de um pensamento, seja lá ao abrigo de que direito – pouco importa que perigue interesses superiormente definidos. Num passado recente tínhamos um slogan que na verdade foi dos slogans mais clarividentes desta nossa epopeia pós colonial: quem manda, manda, quem não manda, cumpre. Se todos nós tivéssemos em nossas casas, cabeças, mesas de trabalho e carros esse slogan bem visível, se cada um colocasse esse slogan no seu despertador, no toque do telemóvel ou se isso fosse ensinado às nossas crianças desde o infantário pouparíamos rios de tinta ao país e debates sem qualquer utilidade. Quem não manda cumpre e não pensa. Não tem opinião.

Aliás é bom dizer também que isso de ter opinião é um modernismo que não se ajusta ao estágio de desenvolvimento do nosso país. O pobre não tem tempo para ter opinião. Anda de candongueiro, luta pelo pão diário, espera o salário no fim do mês. Não resta tempo para ter opinião. É por isso que os jornalistas, que são reconhecidamente pobres, mesmo aqueles que já não andam de candongueiro, deveriam ter a humildade de não ter opinião. Deveriam ter a coragem de endossar essa capacidade humana de pensar – que infelizmente os pobres também têm – a quem possa dar uso cabal a essa vantagem que o homem tem sobre outros animais. Então cada pobre deveria encontrar um conhecido com poder e conceder a esse individuo a liberdade de pensar por ele, tal como há centenas de anos nessa Europa hoje democrática os senhorios, donos dos escravos e até maridos eram donos da vontade – isso mesmo da vontade – dos inquilinos, mulheres e escravos. Podiam decidir por eles e estes ainda se deveriam mostrar muito agradecidos.

No nosso país o caminho é esse. Chegaremos a esse sublime momento da dignidade humana em que teremos de delegar o pensamento e a vontade a quem tenha poder, vida descansa, luxos e estrutura emocional para isso. No nosso dia-a-dia, todos os que procuram exprimir o pensamento sofrem incríveis pressões. Colegas de trabalho, amigos, familiares todos temem pela vida de quem ouse pensar. Todos acham que seria preferível colocar a nossa capacidade de pensar,empacota-la, transformar-nos em eunucos do pensamento e entregar isso a quem de direito. Fazem por bem. Querem o nosso bem.

Pensar, ter opinião não é coisa para pobre e sem poder. É isso que esses jornalistas e mais meia dúzia de milhões de angolanos já com maioridade não percebem. Não percebem que é fundamental para a sua própria sobrevivência que não pensem, que não tenham vontade senão aquela vontade de deixar as suas vidas nas mãos de quem tem direito isso ou quemlhes diga o caminho correcto para as suas tristes vidas.É por isso que essa ida à DNIC é conveniente. Pode ser que alguém apreenda a lição. Nem todos podem e saber jogar futebol. Nem todos podem ter o X5 tal como nem todos podem pensar ou saber usufruir cabalmente da sua própria vontade. Porque será que esses imbecis dos jornalistas não percebem isso?

PS: para quem não tem nem vontade, nem direito à opinião nem direito ao pensamento, imbecil é uma palavra simpática. Sorriam quando alguém, vos chamar de imbecis.

20 October 2009

"Vou matá-los e nada restará"

"Eu vou matar qualquer pessoa que queira desestabilizar este país. Se pensam que podem colaborar com os chamados defensores dos direitos humanos, e sairem impunes, é porque vivem num mundo de fantasia. Eu vou matá-los, e nada restará (...) Se estão afiliados a algum grupo de direitos humanos, podem estar seguros que a vossa segurança pessoal não será garantida pelo meu governo. Estamos preparados para matar sabotadores."

Pode parecer o início de um guião de filme de terror, mas não. Até eu não queria acreditar no que estava a ler. Estas foram as declarações, recentes, do Presidente Ayhya Jammeh, da Gâmbia. Uma intevenção muito mais hardcore do que a do nosso presidente, que em tempos disse qualquer coisa como "os direitos humanos não enchem a barriga de ninguém" (comparada com a versão gambiana, esta é conversa de menino de coro).

Com esta mais recente maka na Gâmbia, a reunião da Comissão Africana dos Direitos Humanos e dos Povos, marcada para início de Novembro para a capital, Banjul, e para a qual estou convidado, foi suspensa. A União Africana enviou ao Presidente Jammeh um repto para se retractar e garantir a segurança dos conferencistas e demais pessoal convidado pela Comissão. A resposta ainda não chegou, nem se sabe se vai chegar.

Entretanto, a situação por terras gambianas vai-se complicando. Desapareceram jornalistas; um outro, Deyda Hydara, foi morto em 2004, um caso nunca resolvido. Este senhor Presidente Ayhya Jammeh disse também, há tempos, que os jornalistas teriam que lhe obedecer. Caso contrário, que "fossem para o inferno". Percebo porque é que a minha "Profissão: jornalista" foi olhada com desconfiança na hora de pedir o visto para lá, que esteve prestes a ser-me negado.

Mas Jammeh, que anunciou, em Janeiro de 2007, ter descoberto uma cura para a SIDA com base num tratamento tradicional, tem mais pecados na lista. Em Maio do ano passado, ameaçou "cortar a cabeça" de qualquer homossexual, homem ou mulher, que descobrisse no seu país. Mais tarde, deu-lhes um ultimato para sair da Gâmbia antes que fosse tarde. Pesam também sobre ele, por exemplo, as mortes de 12 estudantes, pelas tropas governamentais, durante uma manifestação em 2000. Por isto tudo, a União Africana fala em deterioração clara da situação dos direitos humanos. Não é para menos. E assim vai o sonho de emancipação e progresso das nações africanas. O caminho ainda é longo.

11 October 2009

Telhados de vidro

Para que não haja dúvidas: repugno com todas as minhas forças a expulsão de angolanos da República Democrática do Congo e do Congo Brazzaville. O que se passa nas fronteiras norte de Angola é reprovável. É desumano, excessivo. É triste e não se justifica, por nada. Entendido?

Acontece que nós temos uma memória muito curta e, pior, como já escrevi aqui algumas vezes, atiramos pedras quando nós próprios temos telhados de vidro. Admito e concordo que a sociedade angolana se indigne e revolte com as expulsões abusivas de cidadãos nacionais que vivem, em muitos casos, há décadas do outro lado da fronteira. No entanto, não posso tolerar que nos remetamos, uma vez mais, para o papel de coitadinhos, de vítimas eternas, de uma nação modelo e santificada que age inocentemente e dentro da mais pura boa-vontade, e que é o alvo privilegiado de todo o mundo, que nos quer ver no chão.

Por estes dias o discurso viciou-se e ganhou o tom de "nós expulsamos ilegais, eles estão a expulsar angolanos legais, que já vivem há muitos anos lá". Mas com muita pena minha, esta não é a verdade pura e dura. Eu mesmo fiz uma reportagem há uns meses, que podem ler AQUI, em que dava conta que 14 gambianos apontavam o dedo a Angola por os ter expulso do país, apesar deles estarem legais. E mais: acusavam as FAA de os terem espancado, torturado, roubado os documentos e os haveres, de os terem humilhado e remetido à condição de animais. A queixa foi apresentada à Comissão Africana dos Direitos Humanos que, depois de apelar às autoridades angolanas para contraporem e explicarem o que se passou, recebeu como resposta um rotundo silêncio. Nem uma justificação, nem uma contra-alegação. Angola não mostrou uma única prova que mostrava, sem dúvidas, que eles eram ilegais. Nada! Mas expulsou-os!

E não tenhamos dúvidas que estes 14 cidadãos, que por acaso são gambianos e não da RDC ou da República do Congo (mas só por acaso), são uma ínfima parte dos muitos que, acredito com muita convicção, têm sérias razões para se queixar do comportamento de Angola. São mais que muitos os indícios que as nossas autoridades agem frequentemente a seu bel-prazer, passando muitas vezes por cima do que é lei, do que é aceitável e de nós, os cidadãos que eles deveriam proteger e não agredir continuamente.

Como também não são segredo para ninguém as denúncias de brutalidades nas zonas diamantíferas das Lundas, principalmente. Se as FAA, Polícia Nacional e empresas de segurança privada pertencentes aos generais que nos governam são continuamente acusadas de espancar e matar até cidadãos angolanos, o que não farão aos estrangeiros (legais ou ilegais), aos "langas", como chutamos continuamente em tom de escárnio? Alguém põe a mão no fogo pela legalidade das acções das FAA ou da PN lá no interior, de onde a informação quase não sai? Eu não, lamento.

Da mesma forma, não me custa nada acreditar que as campanhas contra os imigrantes ilegais assumam uma proporção de "caça", em que tudo o que mexa seja apanhado e enviado em condições nada condignas para o outro lado da fronteira. Porque mesmo na expulsão, como alegaram os 14 gambianos, nenhum dos procedimentos legais que a deviam anteceder foi previsto. É apanhá-los, despojá-los e mandá-los embora com uma mão à frente e outra atrás - exactamente o que estão agora a fazer connosco, angolanos. Com o boomerang de abusos e violência a voltar às mãos que o lançaram, as nossas, entramos numa lógica contraditória e que não nos dignifica nada. Lógica perigosa que reza algo como: se essas atitudes brutais são reprováveis quando as vítimas somos nós, em relação a "eles", langas, que supostamente são "ilegais", até se justificam.

É isto que não aceito - a subversão da verdade e o discurso de dois pesos e duas medidas. Percebo e concordo que Angola vele pelas suas fronteiras e aja contra a deturpação dos seus recursos. Isso é legítimo. Mas não concordo, nem que me paguem milhões, que em nome da segurança nacional se violem os mais elementares direitos das pessoas, ainda que supostamente estejam a cometer um crime. Da mesma forma, não posso nunca concordar com esta retaliação e a forma como nos estão a mandar embora, em nome de algo que nem interessa saber o que é. Porque nada, nem as agressões que lhes possamos ter feito, justifica que pessoas sejam tratadas desta forma. Para mim, essa é a questão fundamental: perdemos há muito qualquer noção de humanismo e de inviolabilidade dos direitos e da dignidade das pessoas, independentemente do que esteja em causa.

Esperemos para ver o que vai acontecer. Nos corredores surgem várias suposições, umas mais alarmantes que outras. Que pelo menos esta história, que ainda por cima se está a desenrolar entre indivíduos do mesmo povo, dividido pelas fronteiras do colonialismo, dê para reflectirmos um pouco mais sobre as consequências dos nossos actos, muitas vezes arrogantes e, como tal, inadmissíveis.

Yes we can


Cartoons

Começo a partir daqui uma parceria com o Sérgio Piçarra, um dos "monstros" do cartoon em Angola. São trabalhos publicados no Novo Jornal, no Kissonde, alguns inéditos. Vejam, riam-se, revejam-se, pensem!

06 October 2009

Isto para quê?

Às vezes um gajo olha para estas reflexões e pensa: Isto para quê? Isto para quem? Ou melhor, quem raio se vai interessar pelo que eu tenho para dizer sobre mim? E chego à conclusão que esta coisa de blogs é perversa. Antes escrevíamos em diários onde nos justificávamos e nos fechávamos a sete chaves. Hoje expomo-nos. Deliberadamente. Como se fossemos muito importantes e a nossa opinião contasse e desvendasse alguma verdade universal nunca antes pensada. Globalizamo-nos até a nós mesmos e perdemos o sentido do individual. Eu também caí no erro. E massifiquei-me. Mas talvez esta seja até uma forma de nos eclipsarmos. Se calhar mais eficaz do que nos fecharmos em cadernos escondidos numa gaveta (de capa preta, como tive durante muitos anos) que, por serem secretos, apetece arrombar a todo o custo.

05 October 2009

"A bo é di nos"

Uma das grandes diferenças entre Cabo Verde, onde vivi durante um ano e qualquer coisa, e Angola, é a forma como cada um integra o "outro", muitas vezes um de nós que não reconhecemos como tal. A tal história da identidade.

Quanto cheguei à Praia, em Janeiro de 2005, olhavam-me de lado. Estranhei, porque afinal de contas essa tal morabeza crioula que se apregoava aos sete ventos era uma grande treta. Mas estava enganado. Na ilha de Santiago, as pessoas não são imediatas. Olham e estudam primeiro quem chega. Se decidem que o "forasteiro" é de confiança, acolhem-no como um filho. Para a vida. Foi isso que me aconteceu. Assim que a estranheza inicial passou, imediatamente comecei a entrar na cultura das ilhas, a fazer amigos, a estabelecer a minha vida - simples, rotineira, muito "directa", como é o dia-a-dia na cidade da Praia.

Foi assim que, de repente, passei a fazer parte daquele chão. "A bo é ka nada angolano, a bo é di nos", diziam-me a todo o passo. Qualquer coisa como "tu não és nada angolano, tu és nosso". Situações destas, que marcam, foram-se sucedendo. Quando regressei, em 2008, no aeroporto estava uma amiga, ao abraçar-me, disse-me: "Pedrito, bem-vindo a bu tera". Não precisa de tradução. Nem de explicação da dimensão que estas palavras encerram.

Igual atitude em relação aos cabo-verdianos que vivem na diáspora. Um exemplo elucidativo: uma vez, estava com um amigo, natural de Luanda, filho de cabo-verdianos, no Cantinho da Fá, no Miramar. Era uma daquelas noites de sábado, em que a música crioula ao vivo vai até às tantas. Depois de umas cervejas e de uns grogues, esse meu kamba foi ter com os músicos e disse-lhes que era descendente de cabo-verdianos, mas que nunca tinha ido às ilhas, uma vez que vivera sempre no Brasil. O que se seguiu foi incrível: os kotas abraçaram-no, acolheram-no, disseram-lhe, com lágrimas nos olhos, "és nosso". E ele ficou em família.

Cá: olhamos de lado quem chega, mas, salvo algumas excepções, não damos o passo de aproximação, pomo-lo continuamente em causa. Sobretudo nos meios urbanos, já que no interior, nos kimbos, nos meios simples, a receptividade ao outro costuma ser incrível (digo-o por experiência própria). Em termos de identidade, a coisa já é mais geral, parece-me. Andamos com um "termómetro" de angolanidade na mão, com que nos medimos uns aos outros, a todo o tempo, a temperatura, que, não raras vezes, está gelada, claro está. E a maioria das vezes menosprezamos (admitamos) os angolanos que vivem lá fora. Porque não "sofrem como nós", porque não podem falar a milhares de quilómetros, porque, porque, porque. Em relação aos filhos de angolanos que nasceram no estrangeiro, então nem se fala. São qualquer coisa, menos muangolês. Aves raras, talvez.

É esta a diferença: em Cabo Verde, a identidade é essencialmente inclusiva, abarca os que dão alguma coisa positiva àquela terra, nem que seja um pouco de carinho (com excepções, claro, nenhum lugar é perfeito). Mas em Angola, a identidade segrega à partida tudo o que foge aos cânones, esse tal "purismo" de que falei num post anterior. Ouvem-se todos os dias coisas como "eu é que sou o verdadeiro angolano", ou "vocês não és nada angolano", "você é budjurra", ou ainda o famoso e polémico "santomense", que não poupou sequer o Zédu em tempos de campanha política. Só falta criar um conjunto de barras tipo Pantone, mas em vez de cor, meter conceitos para ver a percentagem de angolanidade de cada um. Ridículo.

No fundo, isto talvez se explique com aquela ideia de que as segregações são, sobretudo, formas de excluir grupos de pessoas do acesso aos recursos. Cabo Verde é estéril, por isso, em teoria, pouco há a proteger da cobiça alheia. E que há (emprego, por exemplo), também provoca reacções vergonhosas. Um exemplo é o tratamento indigno que é dado, muias vezes, aos imigrantes da costa ocidental africana, os prejorativamente chamados mandjacos, altamente ostracizados na sociedade cabo-verdiana. Que também tem o seu quê de xenófoba, embora não goste de admiti-lo. Em Angola: nem vale a pena falar na infinidade de riquezas. Muitas, que dão para todos, mas que poucos querem concentrar nas suas mãos. E aí começa uma roda-viva de barbaridades, exclusivismos e disparos sobre tudo que se mexe, e que só cabem na cabeça dos que se borram de medo de perder o lugar (mais ou menos efémero) que têm no poleiro.

E andamos nós aqui numa discussão da treta. Que também as há noutros lados do mundo, não nos enganemos. Cada um com as suas manias. E as de Cabo Verde também são interessantes. Como aquela conversa, própria de quem é resultado quase perfeito de rotas cruzadas de povos, sobre se são africanos ou europeus. Há quem diga que são "atlânticos". Normalmente abstenho-me de dar a minha opinião, porque essa não é a minha praia (embora, muito sinceramente, vista de fora a discussão seja ridícula). Apenas relembro aos meus kambas cabo-verdianos que África não é uniforme, nem plana. E que, para serem africanos, não têm que andar com uma lança na mão a caçar elefantes...

03 October 2009

Contar a dor

"Ele emocionou-se a meio da entrevista. Teve de parar, desligar a máquina que registava aquele relato trágico. Era a filha de um cantor popular que contava como tinha sido dramático na vida daquela família terem assassinado o pai, crescer a ouvir barbaridades e terem de se defender, das mentiras e da memória do pai. Um grande cantor cujos temas enchem a boca de tantos intérpretes, inflamam o orgulho de tanto angolano para afinal ter sido morto na febre violenta de Maio de 77. Ela desfiava aquela estória e a raiva já esbatida ainda fazia mais impressão."

Encontrei agora este pequeno texto no "Vida Escrita", da Marta Lança, coincidência pura, depois de ter escrito o post abaixo. É uma representação de um episódio que aconteceu durante a entrevista com a filha de David Zé, que incluí na reportagem "Os filhos do 27 de Maio", publicada este ano, que me custou muitas horas de sono e me deixou emocionalmente de rastos. Foi um dos momentos mais fortes da minha (curta) vida de jornalista. Ouvir aquele testemunho dramático mas contado de forma doce, sobre uma das figuras que, como expliquei no texto anterior, marcou a minha infância, foi explosivo. Não aguentei e desfiz-me perante o olhar silencioso e surpreendido de Deolinda...

Kotas, música, colonos e eu

Sou um coleccionador dedicado dos sons angolanos dos anos 60 e 70. E mantenho que nunca mais nesta terra se fez tão boa música como naqueles tempos. Estas canções são hinos, murmúrios, farras, sonhos, esperanças, são o fervilhar, a subversão, a inversão, a revolução. São os desgostos e sucessos de amor, a crença e falhanço de convicções. Vozes de vivos e de meio-vivos, também de mortos. São o trio da saudade, Artur Nunes, David Zé, Urbanito, obituário do 27 de Maio de 77. São a utopia, o sonho, a luta, a perseguição, a independência, a purga, o espanto, a guerra. A invasão, a ideologia e os slogans revolucionários, tão estranhos e “ingénuos”, 30 anos e muito cinismo depois. São o nada, a queda e a vertigem. São os sembas, as dikanzas, os riscos no chão. O som da agulha dos gira-discos, as baladas e lamentos, autênticos blues com sabor a terra angolana, arrancados a kimbundo.

Cresci com estas músicas, que me ajudaram a criar o imaginário do que seria Angola. Ouvíamo-las repetidamente em duas cassetes gastas que os meus pais levaram daqui, quando a História os apanhou desprevenidos, bem como ao resto da família, e os atirou para uma terra que os repudiava, a eles, portugueses de segunda. À distância do saudosismo de um tempo que, não há dúvidas, lhes foi injustamente favorável, enquanto privilegiados e dominadores, estas músicas ecoavam lá longe, em Portugal, onde nasci e aprendi que também era angolano. Solidificaram em mim um sentimento forte de pertença a esta grande terra do sul e foram a banda sonora de histórias e sabores que viria a reconhecer quando aterrei em Luanda pela primeira vez. Sem nostalgias nem intenções de recuperar o que quer que fosse de um passado que condenava, mas sim com vontade de compreender qual o meu lugar no meio deste “nós” ao qual sentia pertencer desde sempre.

As vozes dos kotas (são tantas que não as vou enumerar) são o meu reflexo identitário. Uma questão muito pessoal, ampliada numa discussão pública nos jornais, que, de tão enviesada, nem sequer equaciona que um tipo como eu se possa sentir autenticamente identificado e comprometido com este país, muito mais do que com qualquer outro lugar. Chamem-lhe abstracções, até aceito. Na verdade, nem sequer eu consigo explicá-las com argumentos racionais. Mas também não vale a pena tentar convencer os cépticos que isto não é "conversa da treta", saco fundo onde gostam de meter o que, para eles, não se enquadra num jogo sujo de corredores e interesses escondidos. Porque nesta sociedade, de uma forma brutal e infantil, é o material e a hipocrisia que nos guiam. E como julgamos os outros a partir de nós mesmos, os que dizem estar fora dessa lógica obscurantista de ganhar o máximo por todos os meios possíveis e imaginários (inclusive apelando ao amor pela pátria, um xaxo muito em voga até entre os que se auto-proclamam "verdadeiros angolanos"), ou são boelos, ou estão a mentir com todos os dentes. Acredito que tenham razão em alguns casos. Mas as generalizações são sempre um perigoso síndrome de desonestidade e preguiça intelectual.

A minha assumpção enquanto angolano, cá, tem algo de comédia série B. Quando cheguei, em 2004, logo soube que era pula. Obrigatoriamente com os bolsos cheios de kumbu e não raras vezes “filho da puta” – idealização que acabei por perceber quando comecei a ver ao largo alguns espécimes que vinham (e vêm) cá parar, que apetece transformar em sacos do boxe. Mas de um momento para o outro, talvez pelo sol africano, virei “laton”, já menos “filho da puta”, e com menos dinheiro na conta, para meu azar.

Mais tarde, a lei da nacionalidade confirmou-me luso-angolano, um "duplo"; uns tempos depois, soube que também era “oportunista”, “angolano falso” e, mais recentemente, “angolano de ocasião”. Mas nunca “angolano puro”, expressão inventada por quem anda à procura de si mesmo sem o saber, e que reduz isto de se ser angolano, ou outra coisa qualquer, a formas estanques, de preferência àquelas em que eles assentam que nem luvas. Para que não haja dúvidas do que são, e das posições de poder e exigências pessoais que, a partir disso, podem reivindicar do país e da sociedade. Porque no fundo, estas categorizações não passam de joguinhos freudianos de poder, tentativas ridículas de se priorizarem no acesso aos recursos e de manter e sobrepôr o status quo perante a "ameaça" que, muitas vezes, só existe nas suas cabeças. E, claro, nesta pureza absurda que apregoam, já há alguns parâmetros identificados: um “puro” tem que poder cantar com as Gingas “sinto-me orgulhoso de ser africano/meus antepassados todos nasceram aqui” e, igualmente importante, ter aguentado como um valente todas as privações da guerra. Porque assentar arraiais só depois da Paz, quando já tudo é “fácil” é, mais uma vez, sinal de um oportunismo avassalador, de quem recorre ao passaporte preto para dar uma de filho da terra e sugá-la até onde não puder mais.

Enquanto me é barrada a entrada no clube exclusivista dos “puros”, lá vou comendo umas funjadas e riscando umas passadas nos bodas – o único momento em que me olham, desconfiados, porque “tuga não dança assim”. Moro num beco da Ilha, atiro uns “xé” pelo meio, e dou por mim a mandar umas bocas sobre dignidade e liberdade e a exigir uma Angola diferente. Tretas de europeus e de quem não percebe nada disto, claro está. Porque não dei sangue, não tenho o direito de reclamar. Mas, filha da mãe de feitio, reclamo mesmo assim. Sou branco, nascido em Portugal num 4 de Fevereiro (ironia do destino), filho de angolanos-lusos brancos naturais de Benguela, neto de colonos brancos, portugueses das profundezas, todos “bazados” em 1975, um mês antes da Independência, e é aqui que vivo, por uma opção pessoal – é esta a história da minha angolanidade. À qual não posso fugir e que não posso fazer de conta que não existe. É ela quem me faz permanecer, que me incute o dever de me revoltar e indignar com situações com que não concordo, e que avalio de acordo com o esquema mental que as minhas experiências individuais e colectivas (não interessam quais, não interessam onde) foram arquitectando; angolanidade que me faz alegrar, celebrar, dançar, viver rápido e arrepiar da cabeça aos pés quando canto a plenos pulmões, com o Paulo Flores, “um poema que diz que p’ra ser mais feliz tem que ser em Angola”. E chamem-lhe lamechices, hipocrisia, não me interessa. Esse é o vosso espelho, não o meu.

Ouço os kotas (desculpem lá o desvio deste texto, mas saiu assim mesmo) e reconheço os momentos que me formaram. Ouvir as músicas de alguns deles dá-me força quando olho à minha volta e acho que isto não tem remédio - são exemplos de que a "luta" acaba apenas quando a vida se extingue ou quando no-la arrancam. Marcaram-me pela sua tragédia, pela força da sua atitude e determinação, e fazem-me sentir saudades de um tempo em que, independentemente da ideologia que se pregava, a luta para que Angola fosse, sem demoras, igual, próspera, livre e integradora era genuína (lá estão as tais ideias de europeu, mas agora pedi-as emprestadas...) Eram grandes, alguns destes kotas. Por isso os tentaram calar. A "ferro quente" mas sem muito sucesso...

23 September 2009

Flor

Morreu com um sorriso de palhaço pintado na cara e um coração ainda palpitante. Antes ainda, antes mesmo, calçou os sapatos vermelhos, salto alto afilado a furar o chão, antecipação do seu próprio enterro na vala comum dos sem nome. Também pôs baton, aquele violeta que um dia lhe deu a fama de “Flor”. De epíteto para epitáfio. Flor cravejada na pedra tumular imaginária. Mas tudo isto seria depois, só depois.

Neste momento ela sabia que era a última vez de tudo. Rezou um terço. Não porque fosse religiosa. Mas uma puta também reza. Avé-marias, glórias ao pai, salve-rainhas e pai-nossos regurgitados depois do último serviço onde provou o último, ultíssimo homem das suas coxas. Quis um orgasmo mas desconseguiu. Esse ficou-se mesmo pelo primeiro.

O homem bazou mas não pagou. “Fazer mais como?”, pensou, mais por força de hábito de o pensar, do que por ralação. Levantou-se nua. Pôs a girar uma balada dos kotas. “Panguiami uafua...” – “o meu amigo morreu”. A viagem lenta na escala musical com sabor a noites do trópico austral reavivou silêncios comprados, silêncios fingidos, silêncios inviolados. As paredes do quarto entraram em ebulição. Memórias a todo o vapor.

Mas disso Flor nada sabia. Por isso limitou-se a dançar. Não dançou sozinha. Em abraço sem braços, um muxarico. Foi das poucas coisas que conseguiu trazer na fuga apressada de um planalto central atordoado pela guerra que estilhaçou de vez a paz podre. Na caminhada desde o seu Bairro de São João até à praia Morena, sempre na mão aquele pau de bater funje a que baptizou de “Tu”. Com ele preparou fuba, quando havia. A ele se abraçou em cada uma das noites que passou no mato, em fuga apressada. Com ele matou o bandido que numa noite húmida e sem aviso quis chorar nela as dores de homem-sem-mulher-há-bué. Um golpe na cabeça bastou. Mais morto menos morto, ninguém se importava. Eram tantos, todos os dias. Tal como o orgasmo, o morto da sua vida também se ficou pelo primeiro. Ela mesma seria o segundo, adivinhava-o nessa irracionalidade de pressentimento. Sorriu com a ideia.

Aumentou o volume do balada-do-amigo-morto-do-cantor. Apertou com força o “Tu”, como fazia durante as noites (quase todas) em que ele era o único fiel companheiro de cama. O corpo humano com contornos de pau seco e o pau seco com ares de humano dançavam agora quase em tarraxinha. Os restos de funje de milho colaram-se aos peitos nus de Flor. A luz da única lâmpada pendente do tecto descascado começou a vacilar até sumir por completo. O som calou-se. Ficaram a penumbra e os espíritos de sempre. Lá fora, os putos de rua gritavam, em bocas recheadas de “xé” e de “filho da puta”. Não ligou, nada daquilo lhe dizia respeito. Ela era puta, a sua mãe não.

Deitou o “Tu” no colchão podre e afagou-lhe a base. Foi então que olhou o prostíbulo em jeito de despedida. Com nenhuma saudade, com alguma luz, com muitos berros dos miúdos a entrar pela janela daquela casa degradada da baixa de Luanda. Paredes podres, soalho de madeira podre, a decadência em estado maduro. Também o ar era sujo. À medida que o olhar se prolongava e a noite avançava, ele passou do castanho para o cinzento até se decidir pelo negro. A algazarra lá fora continuava. Também negras, as vozes. Bolões de putos que se encontravam e degladiavam. Já nem ligava. “Luanda tem limite?”, interrogou-se sem querer. Pensava que sim, quando aqui chegou, há muito anos, com os carimbos de “refugiada”, “deslocada”, “desgraçada” e “paiada” estampados no destino. “Por isso virei puta – tinha etiquetas até nas orelhas, como as vacas”, dizia em jeito de brincadeira séria, quando lhe perguntavam a história da sua vida. Mas agora tinha dúvidas. Sempre que pensava que não dava mais, que tudo ia rebentar, a cidade-elástico esticava um pouco mais e o equilíbrio mantinha-se, sabe-se lá como. “Não, Luanda não tem limite”, decidiu-se. Os gritos, lá fora, viraram guturais.

Tremeu. Na escuridão total de si e do quarto, ela tremeu. Não se ouviram chocalhos, antes o silêncio de um filme mudo sobre uma qualquer Nova Iorque trepidante. O corpo arrepiou-se. Pele mulata, cara amarrotada, carapinha curta e mal amanhada, olhos negros e baços, bunda arrebitada, seios-penduricalhos, três décadas dessincronizadas de carne em tremeliques involuntários. “Como as vacas loucas”, gemeu. O último esgar.

E foi então: Flor nua, Flor crua, com ecos de planalto na cabeça, as queimadas no horizonte das noites escuras e o caminho sempre distante, sempre comprido, menos possível (“tratatatata!!!”, rugiu uma aká, lá fora). E o caminho em chamas, o caminho em bombas, o caminho em nada (“tratatatata!!”). E o mato, o mato, as colinas suaves do planalto, o rugido, os homens, as crianças, o homem com o cérebro de fora, que caminhava, o planalto, o fogo, o vermelho, o amarelo, o laranja, laranjas ácidas que atiçavam a sede, e o caminho, o caminhar (“tratatatata!!”), os caminhantes em manada como as vacas, vacas como ela, que se tornariam em vacas como ela, e o “Tu” borrado de funje de milho, e o homem morto, e o caminho, o caminho, o caminho, e o cheiro a mar vindo das terras de Benguela, cidade prometida que ficava no fim do caminho, o caminho, o caminho do negro, e a montanha tornada morro, e o caminho e Benguela, e a estrada, e o monte de restos humanos, kazumbis e o caminho e o final, o final do caminho, as areias da praia, Morena como ela, Praia Morena debaixo da chuva de Verão. Final da caminhada, início de outro caminho (“tratatatata!!”). De camião, a pé, Canjala perigosa (“tra”), Sumbe (“trata”), Kuanza (“tratata”), Luanda (“tratatatata!!”). E o caminho, sempre o caminho, agora de pernas abertas em muceque podre do centro, sentença da capital. E o caminho no fim, o fim do caminho, o fim. “Agora”, pensou, “agora o fim do caminho”. Coração em síncope, rubor em face negra, a escuridão (“tratatatata!!”) do prostíbulo.

Em transe e passos trôpegos calçou os sapatos vermelhos, salto alto afilado a querer furar o chão. “Tratatatatatata!!”. Pegou no batôn violeta. “Baza muadiê, eles estão aí!!”. Com mãos trémulas riscou os lábios e a face. “Baza, caralho, corre, vão nos bondar!!” Baton em movimento apressado de bastidor de um circo quase a começar. “Tratatatata!!”. Parou em frente à janela sem vidros. “Tratatatatatata!!” Inspirou. “Puuummmm!!...” Suspirou. A bala perdida cravada no peito. Fechou os olhos e morreu. Com um sorriso de palhaço pintado na cara e um coração ainda palpitante.


Texto de ficção que escrevi em Junho de 2007, inicialmente publicado em cidadepossivel.blogspot.com

19 September 2009

Medo

Não foi a primeira vez, nem será a última. Conversa à volta de uma funjada. E o medo. Medo de falar sobre o próprio medo. Confuso? Não é.

Não consigo (nem quero) deixar de me indignar pelo lavar de mãos que muitos de nós fazemos constantemente. "Que posso fazer eu quando o povo é analfabeto?", "Que vou dizer quando sou funcionário do Estado?", "Aqui não se pode falar demais". Mentiras. Cobardia. Arrogância. Falta de compromisso. Fuga às responsabilidades dessa cidadania que continuarei a exigir de todos, porque ela não é pertença de uns quantos a quem, ainda por cima, chamam de "loucos" por falarem em voz alta.

Vivemos numa ilusão de que está tudo bem, porque a fuba é abundante e a cerveja corre solta. Estamos no paraíso, afinal. "Aqui é preciso é viver bem". E pronto. Finge-se que não tropeçamos todos os dias numa cidade feita esgoto a céu aberto (e isto não é metáfora), que o nosso palácio já nem telhados de vidro tem, estão todos feito cacos, e que os outros, esse "povo analfabeto", nem existe. Porque "são sujos", "brutos" e escondem-se em musseques onde ninguém de "bom tom" põe os pés. Somos o quê senão povo? Príncipes?

E fala-se do pensamento único. Que todos abominam mas que a maioria engole, porque pensar pela própria cabeça continua a ser uma afronta. Apoiam o desvio dos "cânones", quando muitos deles, gente com responsabilidade na formação de outros, não o fazem, demitindo-se da sua mais que obrigação de rejeitarem (ou pelo menos questionarem) todas as linhas que lhes impõem, quanto mais não seja por obrigação e dignidade intelectual. E refutá-las ao vivo, in loco, e não depois de umas cervejas inconsequentes.

Sinceramente, tamanha desresponsabilização deixa-me, mais que revoltado, triste. Porque o MEDO impera e alimenta uma ridícula auto-censura, porque o MEDO é assumido como a fórmula para se sobreviver, e porque, ao encararmos este MEDO como algo normal, arriscamo-nos a transformar-nos, de uma vez por todas, em autómatos do regime que parece que nos quer assim - bêbados, apáticos, fúteis e inúteis.

Pois bem, camaradas, sou uma migalha insignificante e a minha opinião não conta para nada. E escrevo isto mais para mim do que com esperança que alguém leia esta treta. Ninguém aqui tem jeito para ser herói ou mártir. Mas tenho o meu lugar como cidadão deste país do qual não abdico nem desisto, embora nem sempre saiba como o fazer e tornar força efectiva. Interessa-vos isto para alguma coisa? Talvez não. Mas por mais doses gigantes de frustração que nos tentem fazer engolir para nos quebrar, eu recuso, com toda a força que às vezes não tenho, deixar-me dominar por esse medo, coisa abstracta e se calhar injustificável que, no fundo, é o vosso próprio pavor - rio que corre solto debaixo dessa camada dourada a que chamam poder, mas que não é mais que verniz tosco com cor de ilusão. Percebo, por isso, o VOSSO medo.

13 September 2009

Louçã diz que Bloco de Esquerda "incomoda até em Angola"

Francisco Louçã disse hoje que "o Bloco de Esquerda incomoda até em Angola" por se ter oposto à privatização da Galp em Portugal contra os interesses do presidente angolano José Eduardo dos Santos e do empresário português Américo Amorim. Ler mais

E aqui o editorial de José Ribeiro, que saiu na edição de hoje do Jornal de Angola, e que provocou a afirmação de Louçã. Aguardemos novos capítulos desta maka na sanzala que já me fez rir muito hoje, pelo inusitado da reacção do líder do BE.

Cobaias de Deus

"Nós, as cobaias de Deus
Nós somos cobaias de Deus
Nós somos as cobaias de Deus"

"Me tire dessa jaula, irmão, não sou macaco
Desse hospital maquiavélico
Meu pai e minha mãe, eu estou com medo
Porque eles vão deixar a sorte me levar (...)"

"Nós, as cobaias, vivemos muito sós
Por isso, Deus, tem pena, e nos põe na cadeia
E nos faz cantar, dentro de uma cadeia (...)"

Trechos de "Cobaias de Deus" (Cazuza/Ângela Rô Rô)


30 anos depois, José Eduardo dos Santos continua na colina de S. José, onde celebrará mais um aniversário de poder. Muito discretamente, claro está, que isto de se ser governante em África ao estilo ad aeternum já não fica muito bem a quem se quer afirmar como um líder democrático.

Ele, o Excelentíssimo Presidente da República, Engenheiro, Arquitecto da Paz, Timoneiro da Reconstrução Nacional, Presidente do MPLA, Chefe do Governo, Comandante em Chefe das Forças Armadas de Angola, o insígne, o omnipotente, o intocável, o impenetrável (aceitam-se contribuições de epítetos). Ele, o nosso mais que tudo, que decide a bel-prazer o nosso futuro, que empurra os convertidos-sem-opção numa direcção única, que alimenta o culto de si mesmo na celebração desta Igreja sem tecto em que Angola se tornou, plantada no meio de um deserto político onde o sol queima, as cobras rastejam e os lacraus se escondem na areia com o veneno em riste.

Trinta anos depois, vai experimentando em nós, os "seus" cidadãos-cobaias, os truques e fórmulas de um poder ganho passo a passo. A metodologia não é original, mas é eficaz. Na verdade, basta uma única palavra para desencadear reacções de todo o género na enorme massa de governados que vêem, de súbito, deitados por terra, todos os consensos, ideias e horizontes construídos durante os períodos de silêncio de José Eduardo dos Santos. E tamanha demonstração de poder resulta, de facto. Para muitas correntes mornas e conformadas, é Ele o tão propalado e único garante da nossa estabilidade, a razão pela qual o país não se desmorona como um baralho de cartas. Sobre Ele assentam os alicerces de Angola. Se Ele estremecer, estremecemos; se Ele ruir, ruimos. Como ousar pô-lo em causa, se na verdade, um único piscar dos Seus olhos faz-nos ficar completamente desabaratados, à toa, sem rumo?

O último episódio da novela das presidenciais é mais uma prova que vivemos encarcerados num autêntico laboratório sociológico em que, sentado no cadeirão de cientista, Zédu nos observa e tira apontamentos, coadjuvado pelos seus assistentes do partido. Ao entrar em confronto com as declarações que saltavam cá para fora, directamente do interior do MPLA, sem aviso prévio o PR fez com que o que fosse deixasse de o ser. Bastou um comentário muito simples, dito como quem não quer a coisa à margem da conferência de imprensa conjunta com Jacob Zuma. As palavras, meias-ditas, meias por dizer, foram de uma eficácia impressionante: montaram em torno das presidenciais uma intensa aura de "e agora?" que abriu o desejado espaço à especulação desregrada. Uma declaração, só. E o país entrou em ebulição.

Mas a tragicomédia atingiria o clímax só depois, quando Bornito de Sousa veio dar o dito pelo não dito, justificar o injustificável, num impressionante e descarado jogo de palavras - um verdadeiro acto de desprezo pela inteligência dos angolanos e pela dignidade política do próprio MPLA. Como dizia um amigo, José Eduardo dos Santos quer inventar um novo sistema a que o MPLA tenta agora dar resposta, fazendo um rendilhado semântico e jurídico que corresponda aos desejos inquestionáveis do Chefe. De directas, passámos a indirectas-directas, ou directas-indirectas, ou a directas atípicas, uma nova fórmula made in Angola que ainda assim se chamam "directas", referência obrigatória dos futuros e atípicos compêndios juridicos.

E é assim que, vendo-nos mais uma vez feitos baratas tontas, o nosso PR se deve estar rir a bandeiras despregadas e a pensar "como sou poderoso". Enquanto a gargalhada sai solta, nós lá nos vamos tentando adequar, ou, na melhor das hipóteses, compreender este pensamento que muitos querem único e cristalizado.

Somos, assim, autênticas cobaias deste "Deus". Alerto que a terminologia "Deus" não é minha, mas de um amigo que, durante uma discussão à mesa de um restaurante, evitava a todo o custo, de uma forma quase irracional, dizer em voz alta "José Eduardo dos Santos". De cada vez que eu o fazia, olhava à nossa volta e pedia-me para calar. 30 anos depois, será isto respeito? Não, é medo. Porque estamos presos num tempo medieval, em que o Altíssimo é um ser inquestionável, que reprime, castiga e pune, e não alguém benigno e que vela por nós. E isto porquê? Às melhores respostas ofereço uma birra. Ou duas. Ou uma maratona daquelas fortes, para adormecermos de vez as nossas cabeças que, por estes dias, andam a pensar demasiado por si mesmas.

Director da Rádio Ecclésia nomeado pelo jornal inglês "The Guardian"

O jornal britânico "The Guardian" nomeou o Padre Maurício Camuto, director da Rádio Eccésia, para um prémio internacional que reconhece os esforços de individualidades para a democracia e liberdade nos seus países. A nomeação, lê-se no site do "The Guardian", resulta dos esforços do também jornalista (e orientador do estágio que fiz na RE, em 2004) para a promoção da liberdade de informação, num contexto em que a Ecclésia continua a ser restringida pelo poder político angolano, embora este tente continuamente tapar o sol com a peneira e descartar-se das culpas mais que óbvias que tem no cartório.

Para votar no Padre Maurício Camuto e garantir a sua merecida vitória e reconhecimento internacional da Ecclésia, aceda a http://www.guardian.co.uk/achievementsaward e clique em VOTE NOW.

12 September 2009

Agostinho Neto, uma morte prematura

Morreu há exactos 30 anos o "Pai da Nação" angolana. Evacuado para Moscovo, Agostinho Neto acabaria por sucumbir a uma crise de pâncreas, segundo os relatórios médicos. Mas as suspeições sobre as causas da sua morte estão ainda na ordem do dia, com uma das filhas do primeiro Presidente de Angola, Irene Neto, a afirmar repetidamente, nos últimos anos, que "coisas estranhas" se passaram durante a operação a que Agostinho Neto foi submetido pelos médicos russos.

O NJ publicou na última edição um excelente dossier, a meu ver, dedicado à efeméride. Assinam-no António Freitas, Manuel António e Venâncio Rodrigues.

Kissama em risco de extinção

O Parque Nacional da Kissama (PNK), que se estende do rio Kwanza ao Longa, está profundamente ameaçado por interesses imobiliários e industriais. Ao longo da guerra civil, o território do PNK foi ocupado por refugiados, e os animais selvagens que ali tinham um santuário, dizimados. Em tempos de paz, empresários, supostamente em conluio com o Governo da Província do Bengo (que nega as acusações) e a administração municipal da Kissama, sedeada na vila da Muxima, implementam projectos ilegais, porque não licenciados pelo Ministério do Ambiente, o único órgão com autoridade para tal.

Nesta longa reportagem de investigação que fiz com o jornalista Ernesto Gouveia, ficam mais que demonstradas as agressões a que o PNK está a ser sujeito, sob o olhar silencioso das autoridades locais, provinciais e nacionais. Mais de um ano depois, o Ministério do Ambiente continua mudo e calado em relação ao estudo que estaria a ser feito para definir se o parque manteria os limites antigos ou se seria redimensionado, para fazer face à nova realidade social e económica da Kissama que poderá incluir, até, o reinício da exploração on-shore de petróleo.



Mamã Muxima rogai por nós

Relatar a procissão da Nossa Senhora da Muxima a partir de uma esquadra da polícia não é propriamente normal. Mas foi o que aconteceu no ano passado, quando diligentes agentes da polícia à paisana me pediram para os acompanhar, no exacto momento em que o andor da santa começava a percorrer as ruelas da vila. Motivo: averiguações.

A história começou quando estava a jantar numa das barracas. Aparece um homem que pede para falar comigo. Leva-me a outros três "companheiros", que logo dizem que são polícias à paisana. Mostram-me o distintivo e pedem-me para os acompanhar.

Até ali estava tranquilo, mas estava dado o tiro de partida para um dos episódios mais revoltantes da minha ainda breve carreira profissional. Na esquadra, pedem-me o passe do jornal, que não tinha, embora lhes tenha mostrado o meu nome na ficha técnica do NJ. Fui logo taxado como suspeito de alguma coisa que ainda hoje não consegui perceber o quê, e remetido para um banco corrido, de madeira, encostado a uma parede suja no fundo da esquadra. Pedem-me então os dados pessoais, espantam-se quando informo que sou angolano e que tenho a idade que tenho. E dizem que me vão prender.

O momento era estranho, porque surreal. Fora da esquadra, vivia-se o clímax da procissão, o êxtase, os cânticos, as milhares de velas a penetrar a noite, a euforia, as rezas, o Bem, Deus. E eu ali dentro, com uma raiva crescente que sabia que tinha que conter, perante brutamontes que insistiam em humilhar-me verbalmente, e em criar aquele ambiente de tensão e de "estás lixado", para deixar um tipo ainda mais nervoso. Enquanto dava os nomes dos meus pais a um agente que mal sabia escrever, a Virgem passa em frente à esquadra. A porta estava aberta. Ela entra pela esquerda do buraco negro da entrada, percorre-o, sai pela direita. E o polícia chama-me a atenção.

Entretanto, os contactos com a direcção do jornal, que já abordara altos elementos da Polícia Nacional, começaram a surtir efeito. Aparece um responsável da polícia do Bengo, supostamente ligado à área da comunicação social, que exige que mostre tudo, rigorosamente tudo o que tenho no meu gravador, o que aumentou ainda mais o sentimento de nojo, raiva e indignação, que tive, mais uma vez, que engolir em seco. Com o aparelho encostado ao ouvido, passa faixa por faixa para concluir, numa "comunicação" a outro colega, que "não tem nada". Nada o quê?

Passado pouco tempo (mas horas depois de ter sido interceptado), "libertaram-nos". A procissão já tinha acabado, o recinto estava praticamente deserto. Afoguei-me em cerveja antes de sairmos para Luanda.

Nunca me dirão os motivos que levaram a esta detenção. Mas posso imaginar, embora não tenha provas. Não os escrevo aqui para não me acusarem depois de calúnia e difamação, mas apenas digo que o que aconteceu foi, com 100% de segurança, um autêntico e grosseiro atentado (mais um) à liberdade de imprensa e de expressão em Angola. Ao ir à Muxima, apenas entrei no covil do lobo.

Arménio Vieira: "O meu lado infantil está radiante"

Entrevistei Arménio Vieira cerca de uma semana depois dele ter ganho o Prémio Camões 2009. Lá estava o poeta, todo vestido de branco, eternamente sentado na esplanada do "Café Sofia" na "Pracinha" do Plateau, Cidade da Praia. Uma figura.

A conversa durou horas, ao ritmo das cervejas que ele insistia em mandar vir ininterruptamente, ante a minha inútil resistência. "És um jovem, podes beber dois litros!". No final, estava totalmente inebriado, não pela cerveja, que aguento bem, mas pela dimensão alienígena para onde Arménio Vieira me transportou com a sua forma abstracta de contar as coisas simples, os saltos temporais repentinos, as alternâncias bruscas de tom, os episódios meio-contados, meios por contar, que rematava muito mais à frente quando já nem lembrava deles, o paralelismo de discursos. Por várias vezes testou os meus sentidos, num jeito que fiquei sem perceber até que ponto era natural ou um exercício-alimento da sua "aura" do poeta.

Quando me despedi de Arménio, tinha coisas "mundanas" para fazer, mas não conseguia orientar-me. Fui obrigado a sentar-me durante uns minutos, a recuperar o raciocínio lógico e terreno para me poder organizar e desenlaçar o nó gigante em que o meu cérebro se tinha transformado. E, claro, tentei forçar-me a acreditar, ainda que sem grande convicção, que iria conseguir pegar o fio à meada e escrever uma entrevista coerente e publicável. Uma daquelas experiências únicas, que só o jornalismo proporciona.

Cabo Verde: Ilhas no centro do mundo

Não escondo a ninguém a minha enorme paixão por Cabo Verde. Vivi na Cidade da Praia durante um ano e meio, aproximadamente, onde comecei a minha vida profissional no jornal "A Semana". Aprendi muito, vivi muito, e criei uma rede de amigos do peito que preservo até hoje como um tesouro inestimável.

Quanto aterrei no Sal, em Janeiro de 2005, pouco mais conhecia do que os nomes (e pouca música) de Cesária Évora, Tito Paris e Ferro Gaita. Quando saí, em Março de 2006, porque as saudades de Angola eram já insuportáveis, trouxe comigo uma admiração enorme por um país que, aprendi, é extremamente rico não só na sua cultura, como nas paisagens e, sobretudo, nas pessoas, que têm um amor enorme pelo seu "tchon" e uma grande capacidade de trabalho. Talvez tenha sido a mistura destas componentes que tenha feito de Cabo Verde, arquipélago que o FMI carimbou como "inviável" depois da independência, em 5 de Julho de 1975, uma referência em termos de estabilidade económica, política e social em África.

No entanto, há que fazer avisos à navegação. Quem vive lá e tem algum distanciamento em relação ao país (inevitável quando se é estrangeiro) apercebe-se que, de certa forma, a sociedade cabo-verdiana está a adormecer e a baixar o seu nível de exigência democrática. Quando se recebem, quase diariamente, louvores, distinções e elogios vindos de todos os cantos do mundo, tende-se a baixar os braços e acomodar-se.

Apesar do mérito, que é real, ser-se referência da boa governação, estabilidade macro-económica, democracia e liberdade de imprensa, tendo como base de comparação os restantes Estados africanos não é, propriamente, um presente glorificador, por muito que o poder político (disforme nas suas opções de alternância) tente dizer que não, capitalizando a enxurrada de loas da comunidade internacional junto do eleitorado. Até porque o quadro não é tão perfeito como pode parecer à primeira. Vão-se sucedendo atitudes arrogantes por parte dos governantes, o discurso optimista do PAICV está gasto e tornou-se enfadonho, a sociedade civil é altamente descomprometida, a imprensa, bicéfala, é dominada por interesses partidários, e os elogios de uma comunidade internacional de olhos postos no interesse estratégico do arquipélago exigem, como é óbvio, uma moeda de troca.

Muitos jovens sabem disso e estão preocupados. É isto (bem como as relações entre Cabo Verde e Angola) que retrata este trabalho feito em Novembro de 2008, com base numa conversa informal , num fim de tarde no para mim mítico bar-restaurante Alkimist, na praia da Quebra Canela.


Neste dossier inseri ainda uma reportagem inicialmente publicada n'"A Revista", do jornal "A Semana", sobre a comunidade cabo-verdiana do Prenda, em Luanda.



Comunidades

Sempre que saio lá para fora, em reportagem, tento retratar as comunidades angolanas nesses países. Porque é importante termos a noção que nos estendemos para lá destas fronteiras africanas e que em muitos países do mundo há angolanos que carregam o nome e a bandeira do país com igual sacrifício e tenacidade, ao contrário do que pensam esses absurdos em forma de gente que acham que os emigrantes são "menos angolanos" só porque não vivem aqui.

São histórias diferentes mas iguais no seu fio condutor - chegadas, lutas e finais felizes ou infelizes, mediante a sorte e o esforço de cada um. Publico aqui dois trabalhos feitos com angolanos em Itália (Janeiro '09) e Cabo Verde (Maio '09).




07 September 2009

Carlos Moore: "Não entrego a ninguém o sonho da dignidade humana"

Carlos Moore. Durante os quatro ou cinco dias em que este etnólogo e cientista político cubano esteve em Luanda, para participar nas comemorações dos 80 anos de Mário Pinto de Andrade, andei numa outra dimensão. Surgiu numa daquelas alturas complicadas, em que pomos em causa todo o nosso trabalho, a sua verdadeira utilidade e capacidade de contribuir para a mudança real que todos queremos.

É raro termos a oportunidade de estar perto de uma dessas figuras que atravessou com grande coerência lutas diferentes e consecutivas - Revolução Cubana, lutas independentistas em África, luta dos negros nos Estados Unidos - e que, perante o fracasso de muitos dos sonhos que as alimentaram, mantêm firmes as suas convicções e ideais. Não por autismo, mas porque ainda hoje consideram ser o correcto. A tal utopia, no fundo, que ainda os fazem denunciar, apontar o dedo, não obstante a ameaça que continua a pairar sobre eles.

A relação de Carlos Moore com Angola é longa. Vem desde 1964, altura em que trabalhou com Savimbi e recebeu um passaporte tunisino que o taxava como angolano. Foi amigo de Viriato da Cruz e de Mário Pinto de Andrade, personagens com quem partilhou o seu próprio exílio, depois da ruptura com o regime de Fidel Castro, em 1963.

Esta entrevista é resultado de horas e horas de conversa. E tem uma imprecisão. Na última página, no final da resposta à pergunta "Mas não ficaram", deve-se ler: "Quando regressei a Havana (fui autorizado a regressar em 1997), antigos militares relataram-me, a chorar, a pilhagem geral e as maldades que tinham cometido aqui". Assumo o erro.



Nesta entrevista refiro a alegada censura no Festival Internacional de Cinema de Luanda (FIC Luanda), em Novembro do ano passado, por parte do Ministério da Cultura, de "Cuba: Uma Odisseia Africana". Documentário que Carlos Moore também critica, por, no seu entender, passar uma visão enviesada da intervenção cubana em Angola.

Na altura do FIC Luanda, quando entrevistava um alto quadro do Ministério da Cultura, este perguntou-me, num "encostar à parede": "Perante uma situação deste tipo, com um documentário que mente sobre a nossa História, o que é que faria?". Respondi-lhe: "Sou contra todo e qualquer tipo de censura. O que deviam fazer era exibir o documentário e fazer depois do visionamento uma discussão sobre o seu conteúdo, desmontando o que, no vosso entender, há a desmontar, e repondo o que se entende por verdade histórica". Óbvio, não? Até pode se, mas a verdade é que tal não aconteceu, e o documentário foi mesmo banido do cartaz do FIC Luanda, sob o pretexto que não fazia parte do alinhamento do festival (e que tinha ido lá parar por obra e graça do Espírito Santo).

Mas o insólito viria depois: numa atitude que podemos, numa interpretação livre, apelidar de "resistência" à tesourada do Ministério da Cultura, o júri do festival elegeu para melhor documentário... "Cuba: Uma Odisseia Africana", filme que supostamente nem fazia parte do cartaz, segundo a ministra Rosa Cruz e Silva. Os fantasmas são assim: aparecem, apanham-nos com as calças na mão e arrancam de nós um grito estridente ou um pânico silencioso.