21 October 2009

Pensar e ter opinião são privilégios dos poderosos

Ismael Mateus, in Semanário Angolense

A chamada à DNIC da Luísa Rogério, Victor Silva e Ana Margoso e outros que se seguirão é demasiado conveniente. Todos sabem que os jornalistas gostam de defender os seus colegas, sobretudo num caso como este, em que está em causa o direito à opinião, no caso de Luísa Rogério, e o exercício profissional do jornalismo, nos casos da Ana Margoso e do seu director.

É um exercício conveniente. Nas próximas semanas ninguém falará de atípicas e de indirectas ou directas nem do presidencialismo parlamentar. Os jornalistas vão entrar no debate, se é crime ou não, vão perguntar-se se a DNIC não tem casos mais urgentes e anteriores; vão querer mobilizar a opinião pública, que é a única arma que os pobres dos jornalistas têm contra gente tão poderosa. É por isso que o poder é uma coisa que todos querem. O poder compra tudo. O poder pode tudo.

Um amigo jornalista confidenciou que está a ler um livro recentemente lançado em Paris com o título ‹‹O Poder enlouquece››, onde se contam histórias inacreditáveis sobre a forma como o poder se enrosca nas nossas entranhas e pouco a pouco consome o que há de melhor em nós. Começa pelo estômago e por isso é que se diz que os poderosos falam de barriga cheia, ou seja, não precisam de suar, dar no duro, não têm a dimensão do valor do trabalho. Tudo lhes caido céu, por herança ou por apropriação, pouco importa. O poder depois ataca o coração. Perde-se a sensibilidade, renuncia-se às origens pobres, aos amigos pobres e às causas dos pobres ou dos não poderosos. Finalmente, ataca os olhos. O poder cega. Cega mais do que qualquer doença, já aparentemente o afectado vê mas perde a capacidade de perceber o que vê.

Os jornalistas e mais meia dúzia de milhões de angolanos que já atingiram a maioridade não são poderosos e como tal não se devem comportar como se tivessem poder. Num mundo moderno e avançado como o nosso, é inaceitável, inconcebível, intolerável permitir a ousadia da existência de um pensamento, seja lá ao abrigo de que direito – pouco importa que perigue interesses superiormente definidos. Num passado recente tínhamos um slogan que na verdade foi dos slogans mais clarividentes desta nossa epopeia pós colonial: quem manda, manda, quem não manda, cumpre. Se todos nós tivéssemos em nossas casas, cabeças, mesas de trabalho e carros esse slogan bem visível, se cada um colocasse esse slogan no seu despertador, no toque do telemóvel ou se isso fosse ensinado às nossas crianças desde o infantário pouparíamos rios de tinta ao país e debates sem qualquer utilidade. Quem não manda cumpre e não pensa. Não tem opinião.

Aliás é bom dizer também que isso de ter opinião é um modernismo que não se ajusta ao estágio de desenvolvimento do nosso país. O pobre não tem tempo para ter opinião. Anda de candongueiro, luta pelo pão diário, espera o salário no fim do mês. Não resta tempo para ter opinião. É por isso que os jornalistas, que são reconhecidamente pobres, mesmo aqueles que já não andam de candongueiro, deveriam ter a humildade de não ter opinião. Deveriam ter a coragem de endossar essa capacidade humana de pensar – que infelizmente os pobres também têm – a quem possa dar uso cabal a essa vantagem que o homem tem sobre outros animais. Então cada pobre deveria encontrar um conhecido com poder e conceder a esse individuo a liberdade de pensar por ele, tal como há centenas de anos nessa Europa hoje democrática os senhorios, donos dos escravos e até maridos eram donos da vontade – isso mesmo da vontade – dos inquilinos, mulheres e escravos. Podiam decidir por eles e estes ainda se deveriam mostrar muito agradecidos.

No nosso país o caminho é esse. Chegaremos a esse sublime momento da dignidade humana em que teremos de delegar o pensamento e a vontade a quem tenha poder, vida descansa, luxos e estrutura emocional para isso. No nosso dia-a-dia, todos os que procuram exprimir o pensamento sofrem incríveis pressões. Colegas de trabalho, amigos, familiares todos temem pela vida de quem ouse pensar. Todos acham que seria preferível colocar a nossa capacidade de pensar,empacota-la, transformar-nos em eunucos do pensamento e entregar isso a quem de direito. Fazem por bem. Querem o nosso bem.

Pensar, ter opinião não é coisa para pobre e sem poder. É isso que esses jornalistas e mais meia dúzia de milhões de angolanos já com maioridade não percebem. Não percebem que é fundamental para a sua própria sobrevivência que não pensem, que não tenham vontade senão aquela vontade de deixar as suas vidas nas mãos de quem tem direito isso ou quemlhes diga o caminho correcto para as suas tristes vidas.É por isso que essa ida à DNIC é conveniente. Pode ser que alguém apreenda a lição. Nem todos podem e saber jogar futebol. Nem todos podem ter o X5 tal como nem todos podem pensar ou saber usufruir cabalmente da sua própria vontade. Porque será que esses imbecis dos jornalistas não percebem isso?

PS: para quem não tem nem vontade, nem direito à opinião nem direito ao pensamento, imbecil é uma palavra simpática. Sorriam quando alguém, vos chamar de imbecis.

20 October 2009

"Vou matá-los e nada restará"

"Eu vou matar qualquer pessoa que queira desestabilizar este país. Se pensam que podem colaborar com os chamados defensores dos direitos humanos, e sairem impunes, é porque vivem num mundo de fantasia. Eu vou matá-los, e nada restará (...) Se estão afiliados a algum grupo de direitos humanos, podem estar seguros que a vossa segurança pessoal não será garantida pelo meu governo. Estamos preparados para matar sabotadores."

Pode parecer o início de um guião de filme de terror, mas não. Até eu não queria acreditar no que estava a ler. Estas foram as declarações, recentes, do Presidente Ayhya Jammeh, da Gâmbia. Uma intevenção muito mais hardcore do que a do nosso presidente, que em tempos disse qualquer coisa como "os direitos humanos não enchem a barriga de ninguém" (comparada com a versão gambiana, esta é conversa de menino de coro).

Com esta mais recente maka na Gâmbia, a reunião da Comissão Africana dos Direitos Humanos e dos Povos, marcada para início de Novembro para a capital, Banjul, e para a qual estou convidado, foi suspensa. A União Africana enviou ao Presidente Jammeh um repto para se retractar e garantir a segurança dos conferencistas e demais pessoal convidado pela Comissão. A resposta ainda não chegou, nem se sabe se vai chegar.

Entretanto, a situação por terras gambianas vai-se complicando. Desapareceram jornalistas; um outro, Deyda Hydara, foi morto em 2004, um caso nunca resolvido. Este senhor Presidente Ayhya Jammeh disse também, há tempos, que os jornalistas teriam que lhe obedecer. Caso contrário, que "fossem para o inferno". Percebo porque é que a minha "Profissão: jornalista" foi olhada com desconfiança na hora de pedir o visto para lá, que esteve prestes a ser-me negado.

Mas Jammeh, que anunciou, em Janeiro de 2007, ter descoberto uma cura para a SIDA com base num tratamento tradicional, tem mais pecados na lista. Em Maio do ano passado, ameaçou "cortar a cabeça" de qualquer homossexual, homem ou mulher, que descobrisse no seu país. Mais tarde, deu-lhes um ultimato para sair da Gâmbia antes que fosse tarde. Pesam também sobre ele, por exemplo, as mortes de 12 estudantes, pelas tropas governamentais, durante uma manifestação em 2000. Por isto tudo, a União Africana fala em deterioração clara da situação dos direitos humanos. Não é para menos. E assim vai o sonho de emancipação e progresso das nações africanas. O caminho ainda é longo.

11 October 2009

Telhados de vidro

Para que não haja dúvidas: repugno com todas as minhas forças a expulsão de angolanos da República Democrática do Congo e do Congo Brazzaville. O que se passa nas fronteiras norte de Angola é reprovável. É desumano, excessivo. É triste e não se justifica, por nada. Entendido?

Acontece que nós temos uma memória muito curta e, pior, como já escrevi aqui algumas vezes, atiramos pedras quando nós próprios temos telhados de vidro. Admito e concordo que a sociedade angolana se indigne e revolte com as expulsões abusivas de cidadãos nacionais que vivem, em muitos casos, há décadas do outro lado da fronteira. No entanto, não posso tolerar que nos remetamos, uma vez mais, para o papel de coitadinhos, de vítimas eternas, de uma nação modelo e santificada que age inocentemente e dentro da mais pura boa-vontade, e que é o alvo privilegiado de todo o mundo, que nos quer ver no chão.

Por estes dias o discurso viciou-se e ganhou o tom de "nós expulsamos ilegais, eles estão a expulsar angolanos legais, que já vivem há muitos anos lá". Mas com muita pena minha, esta não é a verdade pura e dura. Eu mesmo fiz uma reportagem há uns meses, que podem ler AQUI, em que dava conta que 14 gambianos apontavam o dedo a Angola por os ter expulso do país, apesar deles estarem legais. E mais: acusavam as FAA de os terem espancado, torturado, roubado os documentos e os haveres, de os terem humilhado e remetido à condição de animais. A queixa foi apresentada à Comissão Africana dos Direitos Humanos que, depois de apelar às autoridades angolanas para contraporem e explicarem o que se passou, recebeu como resposta um rotundo silêncio. Nem uma justificação, nem uma contra-alegação. Angola não mostrou uma única prova que mostrava, sem dúvidas, que eles eram ilegais. Nada! Mas expulsou-os!

E não tenhamos dúvidas que estes 14 cidadãos, que por acaso são gambianos e não da RDC ou da República do Congo (mas só por acaso), são uma ínfima parte dos muitos que, acredito com muita convicção, têm sérias razões para se queixar do comportamento de Angola. São mais que muitos os indícios que as nossas autoridades agem frequentemente a seu bel-prazer, passando muitas vezes por cima do que é lei, do que é aceitável e de nós, os cidadãos que eles deveriam proteger e não agredir continuamente.

Como também não são segredo para ninguém as denúncias de brutalidades nas zonas diamantíferas das Lundas, principalmente. Se as FAA, Polícia Nacional e empresas de segurança privada pertencentes aos generais que nos governam são continuamente acusadas de espancar e matar até cidadãos angolanos, o que não farão aos estrangeiros (legais ou ilegais), aos "langas", como chutamos continuamente em tom de escárnio? Alguém põe a mão no fogo pela legalidade das acções das FAA ou da PN lá no interior, de onde a informação quase não sai? Eu não, lamento.

Da mesma forma, não me custa nada acreditar que as campanhas contra os imigrantes ilegais assumam uma proporção de "caça", em que tudo o que mexa seja apanhado e enviado em condições nada condignas para o outro lado da fronteira. Porque mesmo na expulsão, como alegaram os 14 gambianos, nenhum dos procedimentos legais que a deviam anteceder foi previsto. É apanhá-los, despojá-los e mandá-los embora com uma mão à frente e outra atrás - exactamente o que estão agora a fazer connosco, angolanos. Com o boomerang de abusos e violência a voltar às mãos que o lançaram, as nossas, entramos numa lógica contraditória e que não nos dignifica nada. Lógica perigosa que reza algo como: se essas atitudes brutais são reprováveis quando as vítimas somos nós, em relação a "eles", langas, que supostamente são "ilegais", até se justificam.

É isto que não aceito - a subversão da verdade e o discurso de dois pesos e duas medidas. Percebo e concordo que Angola vele pelas suas fronteiras e aja contra a deturpação dos seus recursos. Isso é legítimo. Mas não concordo, nem que me paguem milhões, que em nome da segurança nacional se violem os mais elementares direitos das pessoas, ainda que supostamente estejam a cometer um crime. Da mesma forma, não posso nunca concordar com esta retaliação e a forma como nos estão a mandar embora, em nome de algo que nem interessa saber o que é. Porque nada, nem as agressões que lhes possamos ter feito, justifica que pessoas sejam tratadas desta forma. Para mim, essa é a questão fundamental: perdemos há muito qualquer noção de humanismo e de inviolabilidade dos direitos e da dignidade das pessoas, independentemente do que esteja em causa.

Esperemos para ver o que vai acontecer. Nos corredores surgem várias suposições, umas mais alarmantes que outras. Que pelo menos esta história, que ainda por cima se está a desenrolar entre indivíduos do mesmo povo, dividido pelas fronteiras do colonialismo, dê para reflectirmos um pouco mais sobre as consequências dos nossos actos, muitas vezes arrogantes e, como tal, inadmissíveis.

Yes we can


Cartoons

Começo a partir daqui uma parceria com o Sérgio Piçarra, um dos "monstros" do cartoon em Angola. São trabalhos publicados no Novo Jornal, no Kissonde, alguns inéditos. Vejam, riam-se, revejam-se, pensem!

06 October 2009

Isto para quê?

Às vezes um gajo olha para estas reflexões e pensa: Isto para quê? Isto para quem? Ou melhor, quem raio se vai interessar pelo que eu tenho para dizer sobre mim? E chego à conclusão que esta coisa de blogs é perversa. Antes escrevíamos em diários onde nos justificávamos e nos fechávamos a sete chaves. Hoje expomo-nos. Deliberadamente. Como se fossemos muito importantes e a nossa opinião contasse e desvendasse alguma verdade universal nunca antes pensada. Globalizamo-nos até a nós mesmos e perdemos o sentido do individual. Eu também caí no erro. E massifiquei-me. Mas talvez esta seja até uma forma de nos eclipsarmos. Se calhar mais eficaz do que nos fecharmos em cadernos escondidos numa gaveta (de capa preta, como tive durante muitos anos) que, por serem secretos, apetece arrombar a todo o custo.

05 October 2009

"A bo é di nos"

Uma das grandes diferenças entre Cabo Verde, onde vivi durante um ano e qualquer coisa, e Angola, é a forma como cada um integra o "outro", muitas vezes um de nós que não reconhecemos como tal. A tal história da identidade.

Quanto cheguei à Praia, em Janeiro de 2005, olhavam-me de lado. Estranhei, porque afinal de contas essa tal morabeza crioula que se apregoava aos sete ventos era uma grande treta. Mas estava enganado. Na ilha de Santiago, as pessoas não são imediatas. Olham e estudam primeiro quem chega. Se decidem que o "forasteiro" é de confiança, acolhem-no como um filho. Para a vida. Foi isso que me aconteceu. Assim que a estranheza inicial passou, imediatamente comecei a entrar na cultura das ilhas, a fazer amigos, a estabelecer a minha vida - simples, rotineira, muito "directa", como é o dia-a-dia na cidade da Praia.

Foi assim que, de repente, passei a fazer parte daquele chão. "A bo é ka nada angolano, a bo é di nos", diziam-me a todo o passo. Qualquer coisa como "tu não és nada angolano, tu és nosso". Situações destas, que marcam, foram-se sucedendo. Quando regressei, em 2008, no aeroporto estava uma amiga, ao abraçar-me, disse-me: "Pedrito, bem-vindo a bu tera". Não precisa de tradução. Nem de explicação da dimensão que estas palavras encerram.

Igual atitude em relação aos cabo-verdianos que vivem na diáspora. Um exemplo elucidativo: uma vez, estava com um amigo, natural de Luanda, filho de cabo-verdianos, no Cantinho da Fá, no Miramar. Era uma daquelas noites de sábado, em que a música crioula ao vivo vai até às tantas. Depois de umas cervejas e de uns grogues, esse meu kamba foi ter com os músicos e disse-lhes que era descendente de cabo-verdianos, mas que nunca tinha ido às ilhas, uma vez que vivera sempre no Brasil. O que se seguiu foi incrível: os kotas abraçaram-no, acolheram-no, disseram-lhe, com lágrimas nos olhos, "és nosso". E ele ficou em família.

Cá: olhamos de lado quem chega, mas, salvo algumas excepções, não damos o passo de aproximação, pomo-lo continuamente em causa. Sobretudo nos meios urbanos, já que no interior, nos kimbos, nos meios simples, a receptividade ao outro costuma ser incrível (digo-o por experiência própria). Em termos de identidade, a coisa já é mais geral, parece-me. Andamos com um "termómetro" de angolanidade na mão, com que nos medimos uns aos outros, a todo o tempo, a temperatura, que, não raras vezes, está gelada, claro está. E a maioria das vezes menosprezamos (admitamos) os angolanos que vivem lá fora. Porque não "sofrem como nós", porque não podem falar a milhares de quilómetros, porque, porque, porque. Em relação aos filhos de angolanos que nasceram no estrangeiro, então nem se fala. São qualquer coisa, menos muangolês. Aves raras, talvez.

É esta a diferença: em Cabo Verde, a identidade é essencialmente inclusiva, abarca os que dão alguma coisa positiva àquela terra, nem que seja um pouco de carinho (com excepções, claro, nenhum lugar é perfeito). Mas em Angola, a identidade segrega à partida tudo o que foge aos cânones, esse tal "purismo" de que falei num post anterior. Ouvem-se todos os dias coisas como "eu é que sou o verdadeiro angolano", ou "vocês não és nada angolano", "você é budjurra", ou ainda o famoso e polémico "santomense", que não poupou sequer o Zédu em tempos de campanha política. Só falta criar um conjunto de barras tipo Pantone, mas em vez de cor, meter conceitos para ver a percentagem de angolanidade de cada um. Ridículo.

No fundo, isto talvez se explique com aquela ideia de que as segregações são, sobretudo, formas de excluir grupos de pessoas do acesso aos recursos. Cabo Verde é estéril, por isso, em teoria, pouco há a proteger da cobiça alheia. E que há (emprego, por exemplo), também provoca reacções vergonhosas. Um exemplo é o tratamento indigno que é dado, muias vezes, aos imigrantes da costa ocidental africana, os prejorativamente chamados mandjacos, altamente ostracizados na sociedade cabo-verdiana. Que também tem o seu quê de xenófoba, embora não goste de admiti-lo. Em Angola: nem vale a pena falar na infinidade de riquezas. Muitas, que dão para todos, mas que poucos querem concentrar nas suas mãos. E aí começa uma roda-viva de barbaridades, exclusivismos e disparos sobre tudo que se mexe, e que só cabem na cabeça dos que se borram de medo de perder o lugar (mais ou menos efémero) que têm no poleiro.

E andamos nós aqui numa discussão da treta. Que também as há noutros lados do mundo, não nos enganemos. Cada um com as suas manias. E as de Cabo Verde também são interessantes. Como aquela conversa, própria de quem é resultado quase perfeito de rotas cruzadas de povos, sobre se são africanos ou europeus. Há quem diga que são "atlânticos". Normalmente abstenho-me de dar a minha opinião, porque essa não é a minha praia (embora, muito sinceramente, vista de fora a discussão seja ridícula). Apenas relembro aos meus kambas cabo-verdianos que África não é uniforme, nem plana. E que, para serem africanos, não têm que andar com uma lança na mão a caçar elefantes...

03 October 2009

Contar a dor

"Ele emocionou-se a meio da entrevista. Teve de parar, desligar a máquina que registava aquele relato trágico. Era a filha de um cantor popular que contava como tinha sido dramático na vida daquela família terem assassinado o pai, crescer a ouvir barbaridades e terem de se defender, das mentiras e da memória do pai. Um grande cantor cujos temas enchem a boca de tantos intérpretes, inflamam o orgulho de tanto angolano para afinal ter sido morto na febre violenta de Maio de 77. Ela desfiava aquela estória e a raiva já esbatida ainda fazia mais impressão."

Encontrei agora este pequeno texto no "Vida Escrita", da Marta Lança, coincidência pura, depois de ter escrito o post abaixo. É uma representação de um episódio que aconteceu durante a entrevista com a filha de David Zé, que incluí na reportagem "Os filhos do 27 de Maio", publicada este ano, que me custou muitas horas de sono e me deixou emocionalmente de rastos. Foi um dos momentos mais fortes da minha (curta) vida de jornalista. Ouvir aquele testemunho dramático mas contado de forma doce, sobre uma das figuras que, como expliquei no texto anterior, marcou a minha infância, foi explosivo. Não aguentei e desfiz-me perante o olhar silencioso e surpreendido de Deolinda...

Kotas, música, colonos e eu

Sou um coleccionador dedicado dos sons angolanos dos anos 60 e 70. E mantenho que nunca mais nesta terra se fez tão boa música como naqueles tempos. Estas canções são hinos, murmúrios, farras, sonhos, esperanças, são o fervilhar, a subversão, a inversão, a revolução. São os desgostos e sucessos de amor, a crença e falhanço de convicções. Vozes de vivos e de meio-vivos, também de mortos. São o trio da saudade, Artur Nunes, David Zé, Urbanito, obituário do 27 de Maio de 77. São a utopia, o sonho, a luta, a perseguição, a independência, a purga, o espanto, a guerra. A invasão, a ideologia e os slogans revolucionários, tão estranhos e “ingénuos”, 30 anos e muito cinismo depois. São o nada, a queda e a vertigem. São os sembas, as dikanzas, os riscos no chão. O som da agulha dos gira-discos, as baladas e lamentos, autênticos blues com sabor a terra angolana, arrancados a kimbundo.

Cresci com estas músicas, que me ajudaram a criar o imaginário do que seria Angola. Ouvíamo-las repetidamente em duas cassetes gastas que os meus pais levaram daqui, quando a História os apanhou desprevenidos, bem como ao resto da família, e os atirou para uma terra que os repudiava, a eles, portugueses de segunda. À distância do saudosismo de um tempo que, não há dúvidas, lhes foi injustamente favorável, enquanto privilegiados e dominadores, estas músicas ecoavam lá longe, em Portugal, onde nasci e aprendi que também era angolano. Solidificaram em mim um sentimento forte de pertença a esta grande terra do sul e foram a banda sonora de histórias e sabores que viria a reconhecer quando aterrei em Luanda pela primeira vez. Sem nostalgias nem intenções de recuperar o que quer que fosse de um passado que condenava, mas sim com vontade de compreender qual o meu lugar no meio deste “nós” ao qual sentia pertencer desde sempre.

As vozes dos kotas (são tantas que não as vou enumerar) são o meu reflexo identitário. Uma questão muito pessoal, ampliada numa discussão pública nos jornais, que, de tão enviesada, nem sequer equaciona que um tipo como eu se possa sentir autenticamente identificado e comprometido com este país, muito mais do que com qualquer outro lugar. Chamem-lhe abstracções, até aceito. Na verdade, nem sequer eu consigo explicá-las com argumentos racionais. Mas também não vale a pena tentar convencer os cépticos que isto não é "conversa da treta", saco fundo onde gostam de meter o que, para eles, não se enquadra num jogo sujo de corredores e interesses escondidos. Porque nesta sociedade, de uma forma brutal e infantil, é o material e a hipocrisia que nos guiam. E como julgamos os outros a partir de nós mesmos, os que dizem estar fora dessa lógica obscurantista de ganhar o máximo por todos os meios possíveis e imaginários (inclusive apelando ao amor pela pátria, um xaxo muito em voga até entre os que se auto-proclamam "verdadeiros angolanos"), ou são boelos, ou estão a mentir com todos os dentes. Acredito que tenham razão em alguns casos. Mas as generalizações são sempre um perigoso síndrome de desonestidade e preguiça intelectual.

A minha assumpção enquanto angolano, cá, tem algo de comédia série B. Quando cheguei, em 2004, logo soube que era pula. Obrigatoriamente com os bolsos cheios de kumbu e não raras vezes “filho da puta” – idealização que acabei por perceber quando comecei a ver ao largo alguns espécimes que vinham (e vêm) cá parar, que apetece transformar em sacos do boxe. Mas de um momento para o outro, talvez pelo sol africano, virei “laton”, já menos “filho da puta”, e com menos dinheiro na conta, para meu azar.

Mais tarde, a lei da nacionalidade confirmou-me luso-angolano, um "duplo"; uns tempos depois, soube que também era “oportunista”, “angolano falso” e, mais recentemente, “angolano de ocasião”. Mas nunca “angolano puro”, expressão inventada por quem anda à procura de si mesmo sem o saber, e que reduz isto de se ser angolano, ou outra coisa qualquer, a formas estanques, de preferência àquelas em que eles assentam que nem luvas. Para que não haja dúvidas do que são, e das posições de poder e exigências pessoais que, a partir disso, podem reivindicar do país e da sociedade. Porque no fundo, estas categorizações não passam de joguinhos freudianos de poder, tentativas ridículas de se priorizarem no acesso aos recursos e de manter e sobrepôr o status quo perante a "ameaça" que, muitas vezes, só existe nas suas cabeças. E, claro, nesta pureza absurda que apregoam, já há alguns parâmetros identificados: um “puro” tem que poder cantar com as Gingas “sinto-me orgulhoso de ser africano/meus antepassados todos nasceram aqui” e, igualmente importante, ter aguentado como um valente todas as privações da guerra. Porque assentar arraiais só depois da Paz, quando já tudo é “fácil” é, mais uma vez, sinal de um oportunismo avassalador, de quem recorre ao passaporte preto para dar uma de filho da terra e sugá-la até onde não puder mais.

Enquanto me é barrada a entrada no clube exclusivista dos “puros”, lá vou comendo umas funjadas e riscando umas passadas nos bodas – o único momento em que me olham, desconfiados, porque “tuga não dança assim”. Moro num beco da Ilha, atiro uns “xé” pelo meio, e dou por mim a mandar umas bocas sobre dignidade e liberdade e a exigir uma Angola diferente. Tretas de europeus e de quem não percebe nada disto, claro está. Porque não dei sangue, não tenho o direito de reclamar. Mas, filha da mãe de feitio, reclamo mesmo assim. Sou branco, nascido em Portugal num 4 de Fevereiro (ironia do destino), filho de angolanos-lusos brancos naturais de Benguela, neto de colonos brancos, portugueses das profundezas, todos “bazados” em 1975, um mês antes da Independência, e é aqui que vivo, por uma opção pessoal – é esta a história da minha angolanidade. À qual não posso fugir e que não posso fazer de conta que não existe. É ela quem me faz permanecer, que me incute o dever de me revoltar e indignar com situações com que não concordo, e que avalio de acordo com o esquema mental que as minhas experiências individuais e colectivas (não interessam quais, não interessam onde) foram arquitectando; angolanidade que me faz alegrar, celebrar, dançar, viver rápido e arrepiar da cabeça aos pés quando canto a plenos pulmões, com o Paulo Flores, “um poema que diz que p’ra ser mais feliz tem que ser em Angola”. E chamem-lhe lamechices, hipocrisia, não me interessa. Esse é o vosso espelho, não o meu.

Ouço os kotas (desculpem lá o desvio deste texto, mas saiu assim mesmo) e reconheço os momentos que me formaram. Ouvir as músicas de alguns deles dá-me força quando olho à minha volta e acho que isto não tem remédio - são exemplos de que a "luta" acaba apenas quando a vida se extingue ou quando no-la arrancam. Marcaram-me pela sua tragédia, pela força da sua atitude e determinação, e fazem-me sentir saudades de um tempo em que, independentemente da ideologia que se pregava, a luta para que Angola fosse, sem demoras, igual, próspera, livre e integradora era genuína (lá estão as tais ideias de europeu, mas agora pedi-as emprestadas...) Eram grandes, alguns destes kotas. Por isso os tentaram calar. A "ferro quente" mas sem muito sucesso...