21 October 2009

Pensar e ter opinião são privilégios dos poderosos

Ismael Mateus, in Semanário Angolense

A chamada à DNIC da Luísa Rogério, Victor Silva e Ana Margoso e outros que se seguirão é demasiado conveniente. Todos sabem que os jornalistas gostam de defender os seus colegas, sobretudo num caso como este, em que está em causa o direito à opinião, no caso de Luísa Rogério, e o exercício profissional do jornalismo, nos casos da Ana Margoso e do seu director.

É um exercício conveniente. Nas próximas semanas ninguém falará de atípicas e de indirectas ou directas nem do presidencialismo parlamentar. Os jornalistas vão entrar no debate, se é crime ou não, vão perguntar-se se a DNIC não tem casos mais urgentes e anteriores; vão querer mobilizar a opinião pública, que é a única arma que os pobres dos jornalistas têm contra gente tão poderosa. É por isso que o poder é uma coisa que todos querem. O poder compra tudo. O poder pode tudo.

Um amigo jornalista confidenciou que está a ler um livro recentemente lançado em Paris com o título ‹‹O Poder enlouquece››, onde se contam histórias inacreditáveis sobre a forma como o poder se enrosca nas nossas entranhas e pouco a pouco consome o que há de melhor em nós. Começa pelo estômago e por isso é que se diz que os poderosos falam de barriga cheia, ou seja, não precisam de suar, dar no duro, não têm a dimensão do valor do trabalho. Tudo lhes caido céu, por herança ou por apropriação, pouco importa. O poder depois ataca o coração. Perde-se a sensibilidade, renuncia-se às origens pobres, aos amigos pobres e às causas dos pobres ou dos não poderosos. Finalmente, ataca os olhos. O poder cega. Cega mais do que qualquer doença, já aparentemente o afectado vê mas perde a capacidade de perceber o que vê.

Os jornalistas e mais meia dúzia de milhões de angolanos que já atingiram a maioridade não são poderosos e como tal não se devem comportar como se tivessem poder. Num mundo moderno e avançado como o nosso, é inaceitável, inconcebível, intolerável permitir a ousadia da existência de um pensamento, seja lá ao abrigo de que direito – pouco importa que perigue interesses superiormente definidos. Num passado recente tínhamos um slogan que na verdade foi dos slogans mais clarividentes desta nossa epopeia pós colonial: quem manda, manda, quem não manda, cumpre. Se todos nós tivéssemos em nossas casas, cabeças, mesas de trabalho e carros esse slogan bem visível, se cada um colocasse esse slogan no seu despertador, no toque do telemóvel ou se isso fosse ensinado às nossas crianças desde o infantário pouparíamos rios de tinta ao país e debates sem qualquer utilidade. Quem não manda cumpre e não pensa. Não tem opinião.

Aliás é bom dizer também que isso de ter opinião é um modernismo que não se ajusta ao estágio de desenvolvimento do nosso país. O pobre não tem tempo para ter opinião. Anda de candongueiro, luta pelo pão diário, espera o salário no fim do mês. Não resta tempo para ter opinião. É por isso que os jornalistas, que são reconhecidamente pobres, mesmo aqueles que já não andam de candongueiro, deveriam ter a humildade de não ter opinião. Deveriam ter a coragem de endossar essa capacidade humana de pensar – que infelizmente os pobres também têm – a quem possa dar uso cabal a essa vantagem que o homem tem sobre outros animais. Então cada pobre deveria encontrar um conhecido com poder e conceder a esse individuo a liberdade de pensar por ele, tal como há centenas de anos nessa Europa hoje democrática os senhorios, donos dos escravos e até maridos eram donos da vontade – isso mesmo da vontade – dos inquilinos, mulheres e escravos. Podiam decidir por eles e estes ainda se deveriam mostrar muito agradecidos.

No nosso país o caminho é esse. Chegaremos a esse sublime momento da dignidade humana em que teremos de delegar o pensamento e a vontade a quem tenha poder, vida descansa, luxos e estrutura emocional para isso. No nosso dia-a-dia, todos os que procuram exprimir o pensamento sofrem incríveis pressões. Colegas de trabalho, amigos, familiares todos temem pela vida de quem ouse pensar. Todos acham que seria preferível colocar a nossa capacidade de pensar,empacota-la, transformar-nos em eunucos do pensamento e entregar isso a quem de direito. Fazem por bem. Querem o nosso bem.

Pensar, ter opinião não é coisa para pobre e sem poder. É isso que esses jornalistas e mais meia dúzia de milhões de angolanos já com maioridade não percebem. Não percebem que é fundamental para a sua própria sobrevivência que não pensem, que não tenham vontade senão aquela vontade de deixar as suas vidas nas mãos de quem tem direito isso ou quemlhes diga o caminho correcto para as suas tristes vidas.É por isso que essa ida à DNIC é conveniente. Pode ser que alguém apreenda a lição. Nem todos podem e saber jogar futebol. Nem todos podem ter o X5 tal como nem todos podem pensar ou saber usufruir cabalmente da sua própria vontade. Porque será que esses imbecis dos jornalistas não percebem isso?

PS: para quem não tem nem vontade, nem direito à opinião nem direito ao pensamento, imbecil é uma palavra simpática. Sorriam quando alguém, vos chamar de imbecis.

20 October 2009

"Vou matá-los e nada restará"

"Eu vou matar qualquer pessoa que queira desestabilizar este país. Se pensam que podem colaborar com os chamados defensores dos direitos humanos, e sairem impunes, é porque vivem num mundo de fantasia. Eu vou matá-los, e nada restará (...) Se estão afiliados a algum grupo de direitos humanos, podem estar seguros que a vossa segurança pessoal não será garantida pelo meu governo. Estamos preparados para matar sabotadores."

Pode parecer o início de um guião de filme de terror, mas não. Até eu não queria acreditar no que estava a ler. Estas foram as declarações, recentes, do Presidente Ayhya Jammeh, da Gâmbia. Uma intevenção muito mais hardcore do que a do nosso presidente, que em tempos disse qualquer coisa como "os direitos humanos não enchem a barriga de ninguém" (comparada com a versão gambiana, esta é conversa de menino de coro).

Com esta mais recente maka na Gâmbia, a reunião da Comissão Africana dos Direitos Humanos e dos Povos, marcada para início de Novembro para a capital, Banjul, e para a qual estou convidado, foi suspensa. A União Africana enviou ao Presidente Jammeh um repto para se retractar e garantir a segurança dos conferencistas e demais pessoal convidado pela Comissão. A resposta ainda não chegou, nem se sabe se vai chegar.

Entretanto, a situação por terras gambianas vai-se complicando. Desapareceram jornalistas; um outro, Deyda Hydara, foi morto em 2004, um caso nunca resolvido. Este senhor Presidente Ayhya Jammeh disse também, há tempos, que os jornalistas teriam que lhe obedecer. Caso contrário, que "fossem para o inferno". Percebo porque é que a minha "Profissão: jornalista" foi olhada com desconfiança na hora de pedir o visto para lá, que esteve prestes a ser-me negado.

Mas Jammeh, que anunciou, em Janeiro de 2007, ter descoberto uma cura para a SIDA com base num tratamento tradicional, tem mais pecados na lista. Em Maio do ano passado, ameaçou "cortar a cabeça" de qualquer homossexual, homem ou mulher, que descobrisse no seu país. Mais tarde, deu-lhes um ultimato para sair da Gâmbia antes que fosse tarde. Pesam também sobre ele, por exemplo, as mortes de 12 estudantes, pelas tropas governamentais, durante uma manifestação em 2000. Por isto tudo, a União Africana fala em deterioração clara da situação dos direitos humanos. Não é para menos. E assim vai o sonho de emancipação e progresso das nações africanas. O caminho ainda é longo.

19 October 2009

Posso?


11 October 2009

Telhados de vidro

Para que não haja dúvidas: repugno com todas as minhas forças a expulsão de angolanos da República Democrática do Congo e do Congo Brazzaville. O que se passa nas fronteiras norte de Angola é reprovável. É desumano, excessivo. É triste e não se justifica, por nada. Entendido?

Acontece que nós temos uma memória muito curta e, pior, como já escrevi aqui algumas vezes, atiramos pedras quando nós próprios temos telhados de vidro. Admito e concordo que a sociedade angolana se indigne e revolte com as expulsões abusivas de cidadãos nacionais que vivem, em muitos casos, há décadas do outro lado da fronteira. No entanto, não posso tolerar que nos remetamos, uma vez mais, para o papel de coitadinhos, de vítimas eternas, de uma nação modelo e santificada que age inocentemente e dentro da mais pura boa-vontade, e que é o alvo privilegiado de todo o mundo, que nos quer ver no chão.

Por estes dias o discurso viciou-se e ganhou o tom de "nós expulsamos ilegais, eles estão a expulsar angolanos legais, que já vivem há muitos anos lá". Mas com muita pena minha, esta não é a verdade pura e dura. Eu mesmo fiz uma reportagem há uns meses, que podem ler AQUI, em que dava conta que 14 gambianos apontavam o dedo a Angola por os ter expulso do país, apesar deles estarem legais. E mais: acusavam as FAA de os terem espancado, torturado, roubado os documentos e os haveres, de os terem humilhado e remetido à condição de animais. A queixa foi apresentada à Comissão Africana dos Direitos Humanos que, depois de apelar às autoridades angolanas para contraporem e explicarem o que se passou, recebeu como resposta um rotundo silêncio. Nem uma justificação, nem uma contra-alegação. Angola não mostrou uma única prova que mostrava, sem dúvidas, que eles eram ilegais. Nada! Mas expulsou-os!

E não tenhamos dúvidas que estes 14 cidadãos, que por acaso são gambianos e não da RDC ou da República do Congo (mas só por acaso), são uma ínfima parte dos muitos que, acredito com muita convicção, têm sérias razões para se queixar do comportamento de Angola. São mais que muitos os indícios que as nossas autoridades agem frequentemente a seu bel-prazer, passando muitas vezes por cima do que é lei, do que é aceitável e de nós, os cidadãos que eles deveriam proteger e não agredir continuamente.

Como também não são segredo para ninguém as denúncias de brutalidades nas zonas diamantíferas das Lundas, principalmente. Se as FAA, Polícia Nacional e empresas de segurança privada pertencentes aos generais que nos governam são continuamente acusadas de espancar e matar até cidadãos angolanos, o que não farão aos estrangeiros (legais ou ilegais), aos "langas", como chutamos continuamente em tom de escárnio? Alguém põe a mão no fogo pela legalidade das acções das FAA ou da PN lá no interior, de onde a informação quase não sai? Eu não, lamento.

Da mesma forma, não me custa nada acreditar que as campanhas contra os imigrantes ilegais assumam uma proporção de "caça", em que tudo o que mexa seja apanhado e enviado em condições nada condignas para o outro lado da fronteira. Porque mesmo na expulsão, como alegaram os 14 gambianos, nenhum dos procedimentos legais que a deviam anteceder foi previsto. É apanhá-los, despojá-los e mandá-los embora com uma mão à frente e outra atrás - exactamente o que estão agora a fazer connosco, angolanos. Com o boomerang de abusos e violência a voltar às mãos que o lançaram, as nossas, entramos numa lógica contraditória e que não nos dignifica nada. Lógica perigosa que reza algo como: se essas atitudes brutais são reprováveis quando as vítimas somos nós, em relação a "eles", langas, que supostamente são "ilegais", até se justificam.

É isto que não aceito - a subversão da verdade e o discurso de dois pesos e duas medidas. Percebo e concordo que Angola vele pelas suas fronteiras e aja contra a deturpação dos seus recursos. Isso é legítimo. Mas não concordo, nem que me paguem milhões, que em nome da segurança nacional se violem os mais elementares direitos das pessoas, ainda que supostamente estejam a cometer um crime. Da mesma forma, não posso nunca concordar com esta retaliação e a forma como nos estão a mandar embora, em nome de algo que nem interessa saber o que é. Porque nada, nem as agressões que lhes possamos ter feito, justifica que pessoas sejam tratadas desta forma. Para mim, essa é a questão fundamental: perdemos há muito qualquer noção de humanismo e de inviolabilidade dos direitos e da dignidade das pessoas, independentemente do que esteja em causa.

Esperemos para ver o que vai acontecer. Nos corredores surgem várias suposições, umas mais alarmantes que outras. Que pelo menos esta história, que ainda por cima se está a desenrolar entre indivíduos do mesmo povo, dividido pelas fronteiras do colonialismo, dê para reflectirmos um pouco mais sobre as consequências dos nossos actos, muitas vezes arrogantes e, como tal, inadmissíveis.

Yes we can


Cartoons

Começo a partir daqui uma parceria com o Sérgio Piçarra, um dos "monstros" do cartoon em Angola. São trabalhos publicados no Novo Jornal, no Kissonde, alguns inéditos. Vejam, riam-se, revejam-se, pensem!

06 October 2009

Isto para quê?

Às vezes um gajo olha para estas reflexões e pensa: Isto para quê? Isto para quem? Ou melhor, quem raio se vai interessar pelo que eu tenho para dizer sobre mim? E chego à conclusão que esta coisa de blogs é perversa. Antes escrevíamos em diários onde nos justificávamos e nos fechávamos a sete chaves. Hoje expomo-nos. Deliberadamente. Como se fossemos muito importantes e a nossa opinião contasse e desvendasse alguma verdade universal nunca antes pensada. Globalizamo-nos até a nós mesmos e perdemos o sentido do individual. Eu também caí no erro. E massifiquei-me. Mas talvez esta seja até uma forma de nos eclipsarmos. Se calhar mais eficaz do que nos fecharmos em cadernos escondidos numa gaveta (de capa preta, como tive durante muitos anos) que, por serem secretos, apetece arrombar a todo o custo.