30 April 2010

Antes do Rio III - Caminho

De Canavieiras para Itabuna, três horas. De Itabuna para o Rio, 21. Músicas de viagem no autocarro semi-leito da "Águia Branca": "Despedida", "Duerme Negrito", "Luchin" e "Deja la vida volar", Victor Jara; "Maza", "Gracias a la vida", "Alfonsina y el Mar", "Solo le pido a Diós", "Cantame", "Canción con todos" em repeat, Mercedes Sosa. O disco que preparei para a Sara: "Piololo", Lokua Kanza; "Ana na Ming", Salif Keita; "Muna Xeia" e "Minino", Sara Tavares; "Balumukeno", Bonga; "Kothbiro", Ayub Ogada; "Belina", Artur Nunes; "Ninanana", Modena City Ramblers; "Apili", Simentera; uma que não posso dizer que tenho porque nunca foi editada; "Awa Y'okeyi", Papa Wemba; "Sueño con serpientes", Silvio Rodriguez. E os brasileiros: "Chega de Saudade", Mpb-4; "Chame gente", Armandinho e Moraes Moreira;"O tempo não pára", Cazuza; "Chover, chover", Cordel do Fogo Encantado. E também o motor do autocarro, a cortar os silêncios longos.

Apontamentos: subir a serra verde ao pôr-do-sol, verde e mais verde. Aqui o céu é mais alto, distante. Os carcarás (aves de rapina) a planar. Plantações extensas de eucaliptos, alinhados, dão diferentes tonalidades a este verde. Represas em pequenos povoados. Rebanhos de cabras a correr. E o sol que se põe. O ar frio do autocarro e a manta azul de malha que tenta aquecer o corpo. Terra vermelha, gretada, tal e qual a do Miradouro da Lua, em Luanda. Acampamentos de sem terra, com a bandeira vermelha do movimento em contra-luz. Noite de lua cheia. Placa para a esquerda: Vitória; para a direita: Salvador. Curva e contra-curva na serra. Costa do Cacau, dos Descobrimentos e das Baleias. Estradas não tão boas. Eu: tenho sono mas não quero fechar os olhos, quero absorver cada imagem. Aqui a noite é diferente. A nossa, a das nossas viagens longas por Angola com o vento a entrar pelo vidro do carro nas rectas enormes envolvidas na escuridão. A nossa noite é mais tensa. E telúrica. Sinto.

O que não apontei. Paragem de meia hora em Teixeira de Freitas, para comer. Salgados. Caem-me mal e tenho vontade de vomitar. Água com gás não ajuda. Filmes imbecis tentam distrair o sono de quem nem sabe que o DVD está a rodar. Uma mensagem lamechas aos meus kambas de Salvador, alguns de Angola, dois de Portugal: "'Salgo a caminar/ por la cintura cosmica del sur'. Em noite de lua cheia, a caminho do Rio, 'subo (...) hacia la entraña America y total'. 'Canción con todos', Mercedes Sosa. Com todos vocês. Abraço forte." Nova paragem. Entra mais gente. Atrás do meu lugar, um passageiro ameaça o seu vizinho: "Se me tocas mais uma vez dou-te um muro na cara, seu viado". Um telefonema. "Tenho um viado, um viadão sentado ao meu lado que não me pára de tocar, qual é o procedimento?" Ninguém se manifesta.

Durmo, acordo, durmo, acordo, durmo, acordo já com a luz da manhã cinzenta a envolver a tal muralha de morros de Cristo, ao longe. Cinco dias e 2265 km desde a saída de Salvador. Rodoviária, Praça XV, barca para Niterói, e a Marta no lado de lá, em mais um reencontro e um abraço. Um momento mais da nossa rotação conjunta mas algo desencontrada que começou há mais de cinco anos, em Cabo Verde. Como e vou dormir.

1 comment:

Ciro said...

Essa cena do viadinho no banco de tras do ônibus foi foda, pedrão! Por que vc não deu uma força para tentar solucionar a questão??