17 June 2010

La Negra

Não me canso de a ouvir em repeat. Na verdade, tem sido a minha grande companhia para onde quer que vá. La Negra, Mercedes Sosa. Argentina, o seu chão, que a ama profundamente. É complicado para mim descrever o efeito que têm em mim a força desta voz, das músicas que canta, dos poemas que interpreta. Elevam-me. Creio que é o que posso dizer.

E como fazia com Pantera, em Cabo Verde, que admiro profundamente, mas que não tive a sorte de conhecer, também aqui faço questao de confirmar junto a todos a dimensão de Mercedes Sosa. A quem vou conhecendo faco a mesma pergunta, só para ouvir a mesma resposta: "Quando ela morreu foi comoção geral, nao foi?". "O país parou. Fizeram-lhe uma vigília de dias quando foi internada, e o velório foi uma coisa impressionante. Ela era muito amada por todos", resposta comum, mais palavra menos palavra. E lá vou eu com aquela sensação de que, realmente, há pessoas enormes neste mundo. O que é sempre reconfortante.

La Negra, idealista, exilada na ditadura argentina, la "mama grande", como lhe chamou Hugo Chávez quando ela faleceu. No seu corpo enorme de tucumana se aconchegavam jovens músicos apanhados no furacão do sucesso e da destruição total. Como Charly Garcia, rebelde irremediável que, nos braços de Mercedes Sosa, "se parecia como un niño", como me conta Gonzalo.

Mercedes. Curiosa coincidência do nome com uma paixão mais que publicitada pela alta velocidade. Ficou famosa por cá a sua frase: "a diferença entre conduzir bem ou mal está na quantidade de bichos que ficam colados ao vidro no final da viagem".

Tenho uma banda sonora desta viagem, em permanente expansão. E ela preenche a maior parte, sobretudo com os seus "zambas", música tradicional do norte da Argentina, marcada por uma percussão com contratempos lentos mas ao mesmo tempo alucinantes. "Balderrama", "Galopa Murrieta", o clássico "Gracias a la vida", "Maza", "Canción con todos", e outros tantos. Arrepiam-me da cabeça aos pés. E sobretudo têm tudo a ver com o lugar onde estou, com as paisagens e as pessoas. Na verdade, Mercedes Sosa, com a sua voz, os seus poetas e compositores, tem a vibração desta terra. Talvez seja sugestão. Talvez nao. La Negra lado a lado, nota a nota, rumo a rumo. La Negra.

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Muita coisa ainda por contar. E que vou adiando, por falta de tempo e porque o processamento de tudo o que vi e experimentei nas últimas semanas ainda está em curso. Loading... and loading... And loading.

De Buenos Aires a Bariloche; de Bariloche a El Calafate; de El Calafate a Puerto Natales, Chile; de Puerto Natales a Ushuaia, Tierra del Fuego; de Ushuaia a Buenos Aires, a única viagem de avião nos milhares e milhares de quilómetros que percorri nas últimas duas semanas em direcção ao sul. Agora uma outra. Hoje à noite. 21.20. Mexicana de Aviación. Buenos Aires/ Cidade do México/ Mazatlán.

Reloading... mais uma vez esta sensação que me acompanha desde que fui concebido - uma saudade permanente e de certa forma pesada por algo. Saudade perene. Mas acima de tudo um sentimento de profunda gratidão, emocionada até às lágrimas. Aos abraços de novos e velhos braços, aos elementos, à terra crua, aos céus descomunais e profundos, às montanhas tão imponentes como nos habituámos a imaginá-las, às neves perpétuas, ao sol que, por estes dias, no sul extremo, se eclipsa antes de ser totalmente parido pelo céu. Grato a todos os elementos pela forma como se entregam sem limitações a um forasteiro apanhado nas malhas da "cintura cósmica do sul".

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13 June 2010

Portas da Patagónia

A estrada passa, fica para trás. Passa e sempre continua. A estrada com as suas marcas, linhas contínuas, descontínuas. A estrada que delimita a paisagem a que eu vou assistindo das minhas janelas de autocarros, desimpedidas, sem barras a cortá-las. A minha viagem.

Buenos Aires, 31 de Maio. Auto-estradas ao ritmo de Cerati, rumo ao sul. Pampa seca, milhares de quilómetros e pampa, pampa, pampa. Paisagem desértica, gado, pampa na noite gelada numa estrada que corta a Argentina. A noite longa, embaciada e dormente na janela de autocarro, ecrã priveligiado de quem ali está sem saber bem como. Pampa que essa noite traga e que se ergue em movimento tectónico em montanhas friorentas que anunciam a Patagónia argentina e os Andes, mais à frente. O sol nasce, por entre o nevoeiro, tomando de assalto o Vale Encantado. Assim se chama, e assim é. Pedregulhos despenteados e ziguezagueantes no cone sul-americano. Primeiro contacto com o gelo andino.

Bariloche, porta do sul argentino. Pensão Witkter, do Wikter que sempre sonhou em ir a África. O Tronador, a montanha que ruge, e os seus glaciares. Os sete lagos e San Martin de los Andes, Puerto Bles e alguém que pergunta se a história de diamantes em Angola é como a do filme "Blood Diamond". Angola em desenhos de guardanapos de papel, Angola nas conversas em autocarro com velhinhas de todos os lados da Argentina que insistem em alimentar-me, como se o facto de viver na Banda signifique automaticamente estômago roncante, como o Tronador. A curiosidade pela nossa música, comida, e a minha dificuldade crónica de traduzir para espanhol óleo de palma (de uva?, azeitona?, milho?, perguntam), mandioca e funge.

Bariloche dos chocolates, do ambiente suíço. E do gelado, frio de rachar, do exótico. Porque para mim exotico é isto - neve, lagos gelados, gelo na estrada, glaciares, condores. E a lembrança de uma discussão numa das reuniões de redacção do NJ, sobre a pertinência de usar a palavra "exótico". Porque afinal, como tudo, é apenas uma questao de perspectiva. Os bichos raros as vezes não são tão raros como isso. Outros sim, são, mas nao se manifestam. Mas essa é outra história. O que importa é que o chefe Freitas tinha, mais uma vez, toda a razão.

Bariloche, início da Patagónia que desde muito novo, muito por culpa dos contos e crónicas de Sepúlveda e do livro de Chatwin, me atraiu imenso. Do papel para a estrada. Patagónia. Cheguei.

01 June 2010

Parabéns puto Vemba!!

O jornalismo angolano conquistou este fim de semana pela segunda vez consecutiva o prémio Jornalista Africano CNN MultiChoice de língua portuguesa com a atribuição do galardão a Sebastião Vemba com um trabalho sobre deslocados.

No conjunto de reportagens “Adeus Ilha”, que Sebastião Vemba escreveu para o Novo Jornal e que no sábado, lhe permitiu ganhar o prémio da CNN para a categoria de língua portuguesa, conta-se a odisseia de milhares de pessoas que foram obrigadas a deixar a Ilha de Luanda para a área do Zango, na periferia de Luanda.

O prémio, entregue em Kampala, Uganda, na sua 15.ª edição, coloca Angola a ganhar este galardão pela segunda vez consecutiva, depois de em 2009 Ernesto Bartolomeu, da Televisão Pública de Angola, o ter também recebido com um reportagem sobre a batalha do Cuito Cuanavale.

Sebastião Vemba tem 25 anos, é jornalista há quatro, e integra hoje os quadros do “Economia&Mercado”, embora se mantenha como colaborador do jornal onde publicou as reportagens vencedoras.

Após a atribuição deste prémio, a ministra da Comunicação Social, Carolina Cerqueira, felicitou o premiado e disse ser este um incentivo para os jornalistas angolanos participarem nas próximas edições, dignificando o jornalismo nacional.

Sobre Vemba, António Freitas, chefe de redação do Novo Jornal, realçou a “sensibilidade” que o jornalista tem para a reportagem, a sua “capacidade de observação” e como, na construção da narrativa, “transporta com facilidade o leitor para a ação”.

“É um jovem com imenso potencial (tem 25 anos e quatro de profissão), muito empenhado , com uma imensa vontade de aprender e com muito para dar. Vai, na certa, dar que falar no jornalismo angolano”, disse António Freitas.

Também a secretária geral do Sindicato de Jornalistas Angolanos, Luísa Rogério, considerou este prémio como “uma vitória do jornalismo angolano”, que vem “atestar a melhoria do jornalista que se faz no país”.

“O trabalho que conquistou o prémio tem ainda como sublinhado o facto de ser uma chamada de atenção para os problemas sociais do país”, disse.

LUSA
... e eu acrescento: esta reportagem, o Vemba fê-la doente. Ter subido ao camião onde as pessoas estavam a ser carregadas como animais para o Zango foi de se aplaudir. Faro jornalístico a toda a prova. O resultado final foi uma supresa grande e representou, sem dúvida, um salto de gigante na forma e conteúdo dos seus textos. Parabéns meu puto! Que orgulho!
*foto de Aoaní d'Alva, copiada à sucapa do paralelosehemisferios.blogspot.com, de Isabel Bordalo