27 May 2010

Sábado-Padua

É a cara chapada de Victor Jara. Feições indígenas, queixo alongado, pele queimada, cabelo negro bem liso tombado para o lado direito. Baixo, com telemóvel na mão a controlar os três minutos convencionados para cada intervenção. Diz que “este é um grupo de amor”. Aplausos na ponte pedonal que atravessa a via do Tren de la Costa, estação de Mitre. Amor em anteposição às bandeiras partidárias e ao aproveitamento politico do movimento-cidadão. Senta-se, sério. Abraçam-no. É actor e músico argentino. Padua, chamam-lhe.

É uma assembleia popular. Gente de todas as idades, politizados ou não; estudantes universitários e advogados mais velhos de óculos escuros; curiosos e putos de skate na mão; cães por todos os lados; artistas, malabaristas, músicos; populares, dezenas de pessoas numa reunião espontânea ao velho estilo da utopia, sentados no chão de um espaço público da sua cidade. Juntos, com maior ou menor capacidade de intervenção, maior ou menor romantismo ou pragmatismo, decidem formas de luta contra a construcção de uma auto-estrada no parque do Paseo de la Costa, no bairro Vicente López. “No al vial costero” que separará ainda mais a cidade do Rio de la Plata.

Os que querem, falam. Alguns entusiasmam-se e gritam os chavões “inimigo”, “resistência”. Fantasmas vomitados tantas vezes que já nem assustam. Mas falam, moderados pela jovem socióloga Clara que faz um esforço de titãs para dar voz a todos, pôr ordem na casa e seguir em frente quando o impasse em discussões de nada impacienta.

Assembleia popular também de gente que já tem anos e anos de estrada, num país onde fazê-lo já significou inferno na terra ou carimbo para a eternidade. Discutem-se novas formas de protesto, e de como ganhar tempo para que os advogados "aliados" possam tomar acções legais para impedir o avanço das obras. Fala-se do “misticismo” da acção do dia anterior, em que 20 pessoas enfrentaram, noite dentro, 300 polícias, encerrados no campo três do Paseo de la Costa. Sufoco contrariado por mais de mil manifestantes, sobretudo habitantes do bairro, que ao mesmo tempo, do lado de fora do campo cercado, pressionavam a retirada das forças policiais e exigiam o fim do projecto. Chegou-se a um acordo. As máquinas pararam até à quarta-feira seguinte e os manifestantes foram para casa. Derrota ou retirada estratégica. Discussão também logo abafada na ponte da estação Mitre.

Uma tarde de sábado, simples, como outra qualquer. Cinzentona e fria. E um grupo de cidadãos reunidos num espaço público a discutir como exercer, em conjunto, a sua cidadania. Sem bandeiras partidárias, proibidas, aliás, na manifestação que ocorreria dias mais tarde. Assim só, em defesa de um espaço comum a que o governo da cidade porteña quer pôr fim para erguer prédios de luxo e uma estrada com cheiro a lavagem de dinheiro. A mesma história de sempre.

Ali sentado, assistente de fora, surgiu o anti-paralelismo, inevitável: sábado-cidadão versus sábado-Cuca; sábado-luta versus sábado-resignação; sábado-consciência versus sábado-alienação; sábado-Buenos Aires versus sábado-Luanda; sábado-Padua versus sábado-eu-e-muitos-mais.

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