07 December 2009

Foroyaa, liberdade!

Gâmbia. Passei lá cerca de uma semana e meia, a convite da Associação Justiça, Paz e Democracia, para cobrir a 46ª Sessão da Comissão Africana dos Direitos Humanos. Paralelamente, fui tentando perceber um pouco um país dominado por Yahya Jammeh, o presidente-ditador que há 15 anos comanda com mão de ferro a vida daquelas pessoas. Mortes, prisões e desaparecimentos de jornalistas e políticos, um Estado altamente policiado onde todos desconfiam de todos, uma cultura de silêncio total e um culto de personalidade digo de um regime autocrático que se preze. Foi o que encontrei.

A própria delegação em que viajei (três angolanos, uma sul-africana e um congolês democrático), e que viajou por terra desde Dakar, foi barrada na fronteira da Gâmbia. Mesmo com vistos passados em Luanda, não nos queriam deixar entrar. As profissões, "jornalista" e "defensores dos direitos humanos" não ajudavam muito, decerto. Só depois de muita conversa, e de se telefonar para a Comissão Africana, que confirmou que estávamos ali para assistir à reunião, é que nos deixaram seguir viagem.

No meio deste caos subterrâneo, personagens. Como Fabakany Ceesay, um jovem jornalista do jornal independente, Foroyaa, de quem fiquei amigo e que me levou a conhecer um pouco os subúrbios de Serekunda, uma cidadezinha próxima a Banjul. Boné de Che Guevara e um compromisso desgraçado com a liberdade, com o progresso do seu país, e com os ideiais dos mais velhos pan-africanistas. Idealista q.b. e uma vontade imensa de viver.

E há o povo, que contrasta totalmente com esse clima de repressão. Os gambianos são altamente cordiais, muito simpáticos e afectuosos. E muito "cool". Têm uma adoração por Angola, a "terra dos diamantes", que me surpreendeu. Nós não sabemos nada sobre eles, eles sabem muito sobre nós. Não se queriam acreditar como eu, angolano, não sabia quanto valia um diamante no mercado. E pior, ficaram estupefactos por eu nunca ter visto um diamante ao vivo, na minha vida. Como se fosse escavar um pouco no quintal e apanhá-los com a mão. Somos mesmo bons a vender a nossa imagem para o exterior, não vale a pena!...

Num clima tropical e muito muito quente, o reggae. Ouve-se literalmente em todas as esquinas de Banjul - cidade ou bairro, rua ou beco. Até em árabe e wolof. Está totalmente em consonância com a forma de ser dos gambianos que conheci. Uma "boa onda" que poderá ser, quem sabe, uma forma de reagir ao medo, de descontrair e não entrar em paranóia. Aqui em baixo, uma reportagem que publiquei na última edição do Novo Jornal. Uma sincera homenagem aos que, na Gâmbia, acreditam, resistem e lutam pela liberdade e dignidade.



06 December 2009

Consciência do todo

As viagens que tenho estado a fazer recentemente, por África, estão a despertar em mim algo que não sei ainda bem racionalizar. Uma espécie de forte sentimento de comunidade, mas acima de tudo de uma responsabilidade comum - no rumo que tomámos, na denúncia do que se passa em cada um dos nossos países, nas soluções para nos encontrarmos de vez.

Nada disto se apoia em nenhuma ideologia ou convicção política. São apenas sensações com que vou ficando ao viver determinadas situações, e que se ampliam quando percebo que as grandes questões que afectam cada um dos países são irremediavelmente transversais a todos eles, ainda que diferentes na forma como se evidenciam. Vou usar uma palavra que tem sido distorcida, de tanto e tão mal utilizada - fraternidade. Olhar o outro como um de nós e dar-lhe um abraço porque há uma identidade comum. Uma identificação imediata do tipo "sei o que estás a passar, e estamos juntos nesta luta, que é a mesma... para o que der e vier". É isto que tenho sentido. Naturalmente, como um impulso.

Nada disto é novo - nem empiricamente, nem na teoria. Durante as lutas de libertação, os líderes eram, por definição, pan-africanistas. Um ideal que foi, ele mesmo, combatido e atirado na lama. As independências foram alcançadas. O "depois" é que ficou por fazer. Edificou-se uma mera linha de montagem de Estados fracos, que nem sequer se conseguem encontrar internamente, quanto mais pensar em algo maior. Por isso desconfio muito de ideias como a da criação imediata de uns Estados Unidos de África. Poderá ser um caminho, mas para já é pura demagogia.

E demagogia por uma razão muito simples: estamos todos no mesmo barco mas ainda não nos apercebemos disso. Porque não nos conhecemos ou, pior, em muitos casos não nos queremos conhecer. Como criar uma estrutura política de sucesso, se ela não parte da vontade das pessoas comuns? Aqui em Angola, por exemplo. Não somos africanos "como os outros", somos muito mais evoluídos. "Mas evoluídos em quê?", perguntava-me a coreógrafa Mónica Anapaz, numa entrevista que me deu para a Austral, em que falávamos como esta questão influencia até a dança que se faz por cá.

Estamos muito mais virados para fora - Portugal, Brasil, agora Dubai e China - do que para o nosso próprio continente. Não fazemos a mínima ideia, nem nos interessamos muito, diga-se, sobre o que se passa à nossa volta. Auto-excluímo-nos, o que se reflecte nos encontros entre africanos, em que estamos totalmente à parte das grandes discussões, da troca de informações. O que tem também a ver, claro, com a língua, que nos transforma em cinco pequenos e dispersos enclaves em África. Mas o ser lusófono não justifica tudo, porque nem sequer vejo grandes esforços de aproximação. Apenas de afirmação - faremos o MAIOR CAN em África, teremos o MAIOR aeroporto de África, somos uma POTÊNCIA em África, e por aí adiante... em África.

No fundo, fugimos do nosso próprio espelho, e recorrentemente sagramo-nos com todo o orgulho como os maiores do nada, infelizmente. É ridículo. E apenas demonstra a nossa total ignorância sobre o que se passa noutros países africanos, esses que não são tão "especiais" como nós, usando a adjectivação populista do nosso camarada Presidente. Ficam estes apontamentos. Por África.