23 September 2009

Flor

Morreu com um sorriso de palhaço pintado na cara e um coração ainda palpitante. Antes ainda, antes mesmo, calçou os sapatos vermelhos, salto alto afilado a furar o chão, antecipação do seu próprio enterro na vala comum dos sem nome. Também pôs baton, aquele violeta que um dia lhe deu a fama de “Flor”. De epíteto para epitáfio. Flor cravejada na pedra tumular imaginária. Mas tudo isto seria depois, só depois.

Neste momento ela sabia que era a última vez de tudo. Rezou um terço. Não porque fosse religiosa. Mas uma puta também reza. Avé-marias, glórias ao pai, salve-rainhas e pai-nossos regurgitados depois do último serviço onde provou o último, ultíssimo homem das suas coxas. Quis um orgasmo mas desconseguiu. Esse ficou-se mesmo pelo primeiro.

O homem bazou mas não pagou. “Fazer mais como?”, pensou, mais por força de hábito de o pensar, do que por ralação. Levantou-se nua. Pôs a girar uma balada dos kotas. “Panguiami uafua...” – “o meu amigo morreu”. A viagem lenta na escala musical com sabor a noites do trópico austral reavivou silêncios comprados, silêncios fingidos, silêncios inviolados. As paredes do quarto entraram em ebulição. Memórias a todo o vapor.

Mas disso Flor nada sabia. Por isso limitou-se a dançar. Não dançou sozinha. Em abraço sem braços, um muxarico. Foi das poucas coisas que conseguiu trazer na fuga apressada de um planalto central atordoado pela guerra que estilhaçou de vez a paz podre. Na caminhada desde o seu Bairro de São João até à praia Morena, sempre na mão aquele pau de bater funje a que baptizou de “Tu”. Com ele preparou fuba, quando havia. A ele se abraçou em cada uma das noites que passou no mato, em fuga apressada. Com ele matou o bandido que numa noite húmida e sem aviso quis chorar nela as dores de homem-sem-mulher-há-bué. Um golpe na cabeça bastou. Mais morto menos morto, ninguém se importava. Eram tantos, todos os dias. Tal como o orgasmo, o morto da sua vida também se ficou pelo primeiro. Ela mesma seria o segundo, adivinhava-o nessa irracionalidade de pressentimento. Sorriu com a ideia.

Aumentou o volume do balada-do-amigo-morto-do-cantor. Apertou com força o “Tu”, como fazia durante as noites (quase todas) em que ele era o único fiel companheiro de cama. O corpo humano com contornos de pau seco e o pau seco com ares de humano dançavam agora quase em tarraxinha. Os restos de funje de milho colaram-se aos peitos nus de Flor. A luz da única lâmpada pendente do tecto descascado começou a vacilar até sumir por completo. O som calou-se. Ficaram a penumbra e os espíritos de sempre. Lá fora, os putos de rua gritavam, em bocas recheadas de “xé” e de “filho da puta”. Não ligou, nada daquilo lhe dizia respeito. Ela era puta, a sua mãe não.

Deitou o “Tu” no colchão podre e afagou-lhe a base. Foi então que olhou o prostíbulo em jeito de despedida. Com nenhuma saudade, com alguma luz, com muitos berros dos miúdos a entrar pela janela daquela casa degradada da baixa de Luanda. Paredes podres, soalho de madeira podre, a decadência em estado maduro. Também o ar era sujo. À medida que o olhar se prolongava e a noite avançava, ele passou do castanho para o cinzento até se decidir pelo negro. A algazarra lá fora continuava. Também negras, as vozes. Bolões de putos que se encontravam e degladiavam. Já nem ligava. “Luanda tem limite?”, interrogou-se sem querer. Pensava que sim, quando aqui chegou, há muito anos, com os carimbos de “refugiada”, “deslocada”, “desgraçada” e “paiada” estampados no destino. “Por isso virei puta – tinha etiquetas até nas orelhas, como as vacas”, dizia em jeito de brincadeira séria, quando lhe perguntavam a história da sua vida. Mas agora tinha dúvidas. Sempre que pensava que não dava mais, que tudo ia rebentar, a cidade-elástico esticava um pouco mais e o equilíbrio mantinha-se, sabe-se lá como. “Não, Luanda não tem limite”, decidiu-se. Os gritos, lá fora, viraram guturais.

Tremeu. Na escuridão total de si e do quarto, ela tremeu. Não se ouviram chocalhos, antes o silêncio de um filme mudo sobre uma qualquer Nova Iorque trepidante. O corpo arrepiou-se. Pele mulata, cara amarrotada, carapinha curta e mal amanhada, olhos negros e baços, bunda arrebitada, seios-penduricalhos, três décadas dessincronizadas de carne em tremeliques involuntários. “Como as vacas loucas”, gemeu. O último esgar.

E foi então: Flor nua, Flor crua, com ecos de planalto na cabeça, as queimadas no horizonte das noites escuras e o caminho sempre distante, sempre comprido, menos possível (“tratatatata!!!”, rugiu uma aká, lá fora). E o caminho em chamas, o caminho em bombas, o caminho em nada (“tratatatata!!”). E o mato, o mato, as colinas suaves do planalto, o rugido, os homens, as crianças, o homem com o cérebro de fora, que caminhava, o planalto, o fogo, o vermelho, o amarelo, o laranja, laranjas ácidas que atiçavam a sede, e o caminho, o caminhar (“tratatatata!!”), os caminhantes em manada como as vacas, vacas como ela, que se tornariam em vacas como ela, e o “Tu” borrado de funje de milho, e o homem morto, e o caminho, o caminho, o caminho, e o cheiro a mar vindo das terras de Benguela, cidade prometida que ficava no fim do caminho, o caminho, o caminho do negro, e a montanha tornada morro, e o caminho e Benguela, e a estrada, e o monte de restos humanos, kazumbis e o caminho e o final, o final do caminho, as areias da praia, Morena como ela, Praia Morena debaixo da chuva de Verão. Final da caminhada, início de outro caminho (“tratatatata!!”). De camião, a pé, Canjala perigosa (“tra”), Sumbe (“trata”), Kuanza (“tratata”), Luanda (“tratatatata!!”). E o caminho, sempre o caminho, agora de pernas abertas em muceque podre do centro, sentença da capital. E o caminho no fim, o fim do caminho, o fim. “Agora”, pensou, “agora o fim do caminho”. Coração em síncope, rubor em face negra, a escuridão (“tratatatata!!”) do prostíbulo.

Em transe e passos trôpegos calçou os sapatos vermelhos, salto alto afilado a querer furar o chão. “Tratatatatatata!!”. Pegou no batôn violeta. “Baza muadiê, eles estão aí!!”. Com mãos trémulas riscou os lábios e a face. “Baza, caralho, corre, vão nos bondar!!” Baton em movimento apressado de bastidor de um circo quase a começar. “Tratatatata!!”. Parou em frente à janela sem vidros. “Tratatatatatata!!” Inspirou. “Puuummmm!!...” Suspirou. A bala perdida cravada no peito. Fechou os olhos e morreu. Com um sorriso de palhaço pintado na cara e um coração ainda palpitante.


Texto de ficção que escrevi em Junho de 2007, inicialmente publicado em cidadepossivel.blogspot.com

19 September 2009

Medo

Não foi a primeira vez, nem será a última. Conversa à volta de uma funjada. E o medo. Medo de falar sobre o próprio medo. Confuso? Não é.

Não consigo (nem quero) deixar de me indignar pelo lavar de mãos que muitos de nós fazemos constantemente. "Que posso fazer eu quando o povo é analfabeto?", "Que vou dizer quando sou funcionário do Estado?", "Aqui não se pode falar demais". Mentiras. Cobardia. Arrogância. Falta de compromisso. Fuga às responsabilidades dessa cidadania que continuarei a exigir de todos, porque ela não é pertença de uns quantos a quem, ainda por cima, chamam de "loucos" por falarem em voz alta.

Vivemos numa ilusão de que está tudo bem, porque a fuba é abundante e a cerveja corre solta. Estamos no paraíso, afinal. "Aqui é preciso é viver bem". E pronto. Finge-se que não tropeçamos todos os dias numa cidade feita esgoto a céu aberto (e isto não é metáfora), que o nosso palácio já nem telhados de vidro tem, estão todos feito cacos, e que os outros, esse "povo analfabeto", nem existe. Porque "são sujos", "brutos" e escondem-se em musseques onde ninguém de "bom tom" põe os pés. Somos o quê senão povo? Príncipes?

E fala-se do pensamento único. Que todos abominam mas que a maioria engole, porque pensar pela própria cabeça continua a ser uma afronta. Apoiam o desvio dos "cânones", quando muitos deles, gente com responsabilidade na formação de outros, não o fazem, demitindo-se da sua mais que obrigação de rejeitarem (ou pelo menos questionarem) todas as linhas que lhes impõem, quanto mais não seja por obrigação e dignidade intelectual. E refutá-las ao vivo, in loco, e não depois de umas cervejas inconsequentes.

Sinceramente, tamanha desresponsabilização deixa-me, mais que revoltado, triste. Porque o MEDO impera e alimenta uma ridícula auto-censura, porque o MEDO é assumido como a fórmula para se sobreviver, e porque, ao encararmos este MEDO como algo normal, arriscamo-nos a transformar-nos, de uma vez por todas, em autómatos do regime que parece que nos quer assim - bêbados, apáticos, fúteis e inúteis.

Pois bem, camaradas, sou uma migalha insignificante e a minha opinião não conta para nada. E escrevo isto mais para mim do que com esperança que alguém leia esta treta. Ninguém aqui tem jeito para ser herói ou mártir. Mas tenho o meu lugar como cidadão deste país do qual não abdico nem desisto, embora nem sempre saiba como o fazer e tornar força efectiva. Interessa-vos isto para alguma coisa? Talvez não. Mas por mais doses gigantes de frustração que nos tentem fazer engolir para nos quebrar, eu recuso, com toda a força que às vezes não tenho, deixar-me dominar por esse medo, coisa abstracta e se calhar injustificável que, no fundo, é o vosso próprio pavor - rio que corre solto debaixo dessa camada dourada a que chamam poder, mas que não é mais que verniz tosco com cor de ilusão. Percebo, por isso, o VOSSO medo.

13 September 2009

Louçã diz que Bloco de Esquerda "incomoda até em Angola"

Francisco Louçã disse hoje que "o Bloco de Esquerda incomoda até em Angola" por se ter oposto à privatização da Galp em Portugal contra os interesses do presidente angolano José Eduardo dos Santos e do empresário português Américo Amorim. Ler mais

E aqui o editorial de José Ribeiro, que saiu na edição de hoje do Jornal de Angola, e que provocou a afirmação de Louçã. Aguardemos novos capítulos desta maka na sanzala que já me fez rir muito hoje, pelo inusitado da reacção do líder do BE.

Cobaias de Deus

"Nós, as cobaias de Deus
Nós somos cobaias de Deus
Nós somos as cobaias de Deus"

"Me tire dessa jaula, irmão, não sou macaco
Desse hospital maquiavélico
Meu pai e minha mãe, eu estou com medo
Porque eles vão deixar a sorte me levar (...)"

"Nós, as cobaias, vivemos muito sós
Por isso, Deus, tem pena, e nos põe na cadeia
E nos faz cantar, dentro de uma cadeia (...)"

Trechos de "Cobaias de Deus" (Cazuza/Ângela Rô Rô)


30 anos depois, José Eduardo dos Santos continua na colina de S. José, onde celebrará mais um aniversário de poder. Muito discretamente, claro está, que isto de se ser governante em África ao estilo ad aeternum já não fica muito bem a quem se quer afirmar como um líder democrático.

Ele, o Excelentíssimo Presidente da República, Engenheiro, Arquitecto da Paz, Timoneiro da Reconstrução Nacional, Presidente do MPLA, Chefe do Governo, Comandante em Chefe das Forças Armadas de Angola, o insígne, o omnipotente, o intocável, o impenetrável (aceitam-se contribuições de epítetos). Ele, o nosso mais que tudo, que decide a bel-prazer o nosso futuro, que empurra os convertidos-sem-opção numa direcção única, que alimenta o culto de si mesmo na celebração desta Igreja sem tecto em que Angola se tornou, plantada no meio de um deserto político onde o sol queima, as cobras rastejam e os lacraus se escondem na areia com o veneno em riste.

Trinta anos depois, vai experimentando em nós, os "seus" cidadãos-cobaias, os truques e fórmulas de um poder ganho passo a passo. A metodologia não é original, mas é eficaz. Na verdade, basta uma única palavra para desencadear reacções de todo o género na enorme massa de governados que vêem, de súbito, deitados por terra, todos os consensos, ideias e horizontes construídos durante os períodos de silêncio de José Eduardo dos Santos. E tamanha demonstração de poder resulta, de facto. Para muitas correntes mornas e conformadas, é Ele o tão propalado e único garante da nossa estabilidade, a razão pela qual o país não se desmorona como um baralho de cartas. Sobre Ele assentam os alicerces de Angola. Se Ele estremecer, estremecemos; se Ele ruir, ruimos. Como ousar pô-lo em causa, se na verdade, um único piscar dos Seus olhos faz-nos ficar completamente desabaratados, à toa, sem rumo?

O último episódio da novela das presidenciais é mais uma prova que vivemos encarcerados num autêntico laboratório sociológico em que, sentado no cadeirão de cientista, Zédu nos observa e tira apontamentos, coadjuvado pelos seus assistentes do partido. Ao entrar em confronto com as declarações que saltavam cá para fora, directamente do interior do MPLA, sem aviso prévio o PR fez com que o que fosse deixasse de o ser. Bastou um comentário muito simples, dito como quem não quer a coisa à margem da conferência de imprensa conjunta com Jacob Zuma. As palavras, meias-ditas, meias por dizer, foram de uma eficácia impressionante: montaram em torno das presidenciais uma intensa aura de "e agora?" que abriu o desejado espaço à especulação desregrada. Uma declaração, só. E o país entrou em ebulição.

Mas a tragicomédia atingiria o clímax só depois, quando Bornito de Sousa veio dar o dito pelo não dito, justificar o injustificável, num impressionante e descarado jogo de palavras - um verdadeiro acto de desprezo pela inteligência dos angolanos e pela dignidade política do próprio MPLA. Como dizia um amigo, José Eduardo dos Santos quer inventar um novo sistema a que o MPLA tenta agora dar resposta, fazendo um rendilhado semântico e jurídico que corresponda aos desejos inquestionáveis do Chefe. De directas, passámos a indirectas-directas, ou directas-indirectas, ou a directas atípicas, uma nova fórmula made in Angola que ainda assim se chamam "directas", referência obrigatória dos futuros e atípicos compêndios juridicos.

E é assim que, vendo-nos mais uma vez feitos baratas tontas, o nosso PR se deve estar rir a bandeiras despregadas e a pensar "como sou poderoso". Enquanto a gargalhada sai solta, nós lá nos vamos tentando adequar, ou, na melhor das hipóteses, compreender este pensamento que muitos querem único e cristalizado.

Somos, assim, autênticas cobaias deste "Deus". Alerto que a terminologia "Deus" não é minha, mas de um amigo que, durante uma discussão à mesa de um restaurante, evitava a todo o custo, de uma forma quase irracional, dizer em voz alta "José Eduardo dos Santos". De cada vez que eu o fazia, olhava à nossa volta e pedia-me para calar. 30 anos depois, será isto respeito? Não, é medo. Porque estamos presos num tempo medieval, em que o Altíssimo é um ser inquestionável, que reprime, castiga e pune, e não alguém benigno e que vela por nós. E isto porquê? Às melhores respostas ofereço uma birra. Ou duas. Ou uma maratona daquelas fortes, para adormecermos de vez as nossas cabeças que, por estes dias, andam a pensar demasiado por si mesmas.

Director da Rádio Ecclésia nomeado pelo jornal inglês "The Guardian"

O jornal britânico "The Guardian" nomeou o Padre Maurício Camuto, director da Rádio Eccésia, para um prémio internacional que reconhece os esforços de individualidades para a democracia e liberdade nos seus países. A nomeação, lê-se no site do "The Guardian", resulta dos esforços do também jornalista (e orientador do estágio que fiz na RE, em 2004) para a promoção da liberdade de informação, num contexto em que a Ecclésia continua a ser restringida pelo poder político angolano, embora este tente continuamente tapar o sol com a peneira e descartar-se das culpas mais que óbvias que tem no cartório.

Para votar no Padre Maurício Camuto e garantir a sua merecida vitória e reconhecimento internacional da Ecclésia, aceda a http://www.guardian.co.uk/achievementsaward e clique em VOTE NOW.

12 September 2009

Agostinho Neto, uma morte prematura

Morreu há exactos 30 anos o "Pai da Nação" angolana. Evacuado para Moscovo, Agostinho Neto acabaria por sucumbir a uma crise de pâncreas, segundo os relatórios médicos. Mas as suspeições sobre as causas da sua morte estão ainda na ordem do dia, com uma das filhas do primeiro Presidente de Angola, Irene Neto, a afirmar repetidamente, nos últimos anos, que "coisas estranhas" se passaram durante a operação a que Agostinho Neto foi submetido pelos médicos russos.

O NJ publicou na última edição um excelente dossier, a meu ver, dedicado à efeméride. Assinam-no António Freitas, Manuel António e Venâncio Rodrigues.

Kissama em risco de extinção

O Parque Nacional da Kissama (PNK), que se estende do rio Kwanza ao Longa, está profundamente ameaçado por interesses imobiliários e industriais. Ao longo da guerra civil, o território do PNK foi ocupado por refugiados, e os animais selvagens que ali tinham um santuário, dizimados. Em tempos de paz, empresários, supostamente em conluio com o Governo da Província do Bengo (que nega as acusações) e a administração municipal da Kissama, sedeada na vila da Muxima, implementam projectos ilegais, porque não licenciados pelo Ministério do Ambiente, o único órgão com autoridade para tal.

Nesta longa reportagem de investigação que fiz com o jornalista Ernesto Gouveia, ficam mais que demonstradas as agressões a que o PNK está a ser sujeito, sob o olhar silencioso das autoridades locais, provinciais e nacionais. Mais de um ano depois, o Ministério do Ambiente continua mudo e calado em relação ao estudo que estaria a ser feito para definir se o parque manteria os limites antigos ou se seria redimensionado, para fazer face à nova realidade social e económica da Kissama que poderá incluir, até, o reinício da exploração on-shore de petróleo.



Mamã Muxima rogai por nós

Relatar a procissão da Nossa Senhora da Muxima a partir de uma esquadra da polícia não é propriamente normal. Mas foi o que aconteceu no ano passado, quando diligentes agentes da polícia à paisana me pediram para os acompanhar, no exacto momento em que o andor da santa começava a percorrer as ruelas da vila. Motivo: averiguações.

A história começou quando estava a jantar numa das barracas. Aparece um homem que pede para falar comigo. Leva-me a outros três "companheiros", que logo dizem que são polícias à paisana. Mostram-me o distintivo e pedem-me para os acompanhar.

Até ali estava tranquilo, mas estava dado o tiro de partida para um dos episódios mais revoltantes da minha ainda breve carreira profissional. Na esquadra, pedem-me o passe do jornal, que não tinha, embora lhes tenha mostrado o meu nome na ficha técnica do NJ. Fui logo taxado como suspeito de alguma coisa que ainda hoje não consegui perceber o quê, e remetido para um banco corrido, de madeira, encostado a uma parede suja no fundo da esquadra. Pedem-me então os dados pessoais, espantam-se quando informo que sou angolano e que tenho a idade que tenho. E dizem que me vão prender.

O momento era estranho, porque surreal. Fora da esquadra, vivia-se o clímax da procissão, o êxtase, os cânticos, as milhares de velas a penetrar a noite, a euforia, as rezas, o Bem, Deus. E eu ali dentro, com uma raiva crescente que sabia que tinha que conter, perante brutamontes que insistiam em humilhar-me verbalmente, e em criar aquele ambiente de tensão e de "estás lixado", para deixar um tipo ainda mais nervoso. Enquanto dava os nomes dos meus pais a um agente que mal sabia escrever, a Virgem passa em frente à esquadra. A porta estava aberta. Ela entra pela esquerda do buraco negro da entrada, percorre-o, sai pela direita. E o polícia chama-me a atenção.

Entretanto, os contactos com a direcção do jornal, que já abordara altos elementos da Polícia Nacional, começaram a surtir efeito. Aparece um responsável da polícia do Bengo, supostamente ligado à área da comunicação social, que exige que mostre tudo, rigorosamente tudo o que tenho no meu gravador, o que aumentou ainda mais o sentimento de nojo, raiva e indignação, que tive, mais uma vez, que engolir em seco. Com o aparelho encostado ao ouvido, passa faixa por faixa para concluir, numa "comunicação" a outro colega, que "não tem nada". Nada o quê?

Passado pouco tempo (mas horas depois de ter sido interceptado), "libertaram-nos". A procissão já tinha acabado, o recinto estava praticamente deserto. Afoguei-me em cerveja antes de sairmos para Luanda.

Nunca me dirão os motivos que levaram a esta detenção. Mas posso imaginar, embora não tenha provas. Não os escrevo aqui para não me acusarem depois de calúnia e difamação, mas apenas digo que o que aconteceu foi, com 100% de segurança, um autêntico e grosseiro atentado (mais um) à liberdade de imprensa e de expressão em Angola. Ao ir à Muxima, apenas entrei no covil do lobo.

Arménio Vieira: "O meu lado infantil está radiante"

Entrevistei Arménio Vieira cerca de uma semana depois dele ter ganho o Prémio Camões 2009. Lá estava o poeta, todo vestido de branco, eternamente sentado na esplanada do "Café Sofia" na "Pracinha" do Plateau, Cidade da Praia. Uma figura.

A conversa durou horas, ao ritmo das cervejas que ele insistia em mandar vir ininterruptamente, ante a minha inútil resistência. "És um jovem, podes beber dois litros!". No final, estava totalmente inebriado, não pela cerveja, que aguento bem, mas pela dimensão alienígena para onde Arménio Vieira me transportou com a sua forma abstracta de contar as coisas simples, os saltos temporais repentinos, as alternâncias bruscas de tom, os episódios meio-contados, meios por contar, que rematava muito mais à frente quando já nem lembrava deles, o paralelismo de discursos. Por várias vezes testou os meus sentidos, num jeito que fiquei sem perceber até que ponto era natural ou um exercício-alimento da sua "aura" do poeta.

Quando me despedi de Arménio, tinha coisas "mundanas" para fazer, mas não conseguia orientar-me. Fui obrigado a sentar-me durante uns minutos, a recuperar o raciocínio lógico e terreno para me poder organizar e desenlaçar o nó gigante em que o meu cérebro se tinha transformado. E, claro, tentei forçar-me a acreditar, ainda que sem grande convicção, que iria conseguir pegar o fio à meada e escrever uma entrevista coerente e publicável. Uma daquelas experiências únicas, que só o jornalismo proporciona.

Cabo Verde: Ilhas no centro do mundo

Não escondo a ninguém a minha enorme paixão por Cabo Verde. Vivi na Cidade da Praia durante um ano e meio, aproximadamente, onde comecei a minha vida profissional no jornal "A Semana". Aprendi muito, vivi muito, e criei uma rede de amigos do peito que preservo até hoje como um tesouro inestimável.

Quanto aterrei no Sal, em Janeiro de 2005, pouco mais conhecia do que os nomes (e pouca música) de Cesária Évora, Tito Paris e Ferro Gaita. Quando saí, em Março de 2006, porque as saudades de Angola eram já insuportáveis, trouxe comigo uma admiração enorme por um país que, aprendi, é extremamente rico não só na sua cultura, como nas paisagens e, sobretudo, nas pessoas, que têm um amor enorme pelo seu "tchon" e uma grande capacidade de trabalho. Talvez tenha sido a mistura destas componentes que tenha feito de Cabo Verde, arquipélago que o FMI carimbou como "inviável" depois da independência, em 5 de Julho de 1975, uma referência em termos de estabilidade económica, política e social em África.

No entanto, há que fazer avisos à navegação. Quem vive lá e tem algum distanciamento em relação ao país (inevitável quando se é estrangeiro) apercebe-se que, de certa forma, a sociedade cabo-verdiana está a adormecer e a baixar o seu nível de exigência democrática. Quando se recebem, quase diariamente, louvores, distinções e elogios vindos de todos os cantos do mundo, tende-se a baixar os braços e acomodar-se.

Apesar do mérito, que é real, ser-se referência da boa governação, estabilidade macro-económica, democracia e liberdade de imprensa, tendo como base de comparação os restantes Estados africanos não é, propriamente, um presente glorificador, por muito que o poder político (disforme nas suas opções de alternância) tente dizer que não, capitalizando a enxurrada de loas da comunidade internacional junto do eleitorado. Até porque o quadro não é tão perfeito como pode parecer à primeira. Vão-se sucedendo atitudes arrogantes por parte dos governantes, o discurso optimista do PAICV está gasto e tornou-se enfadonho, a sociedade civil é altamente descomprometida, a imprensa, bicéfala, é dominada por interesses partidários, e os elogios de uma comunidade internacional de olhos postos no interesse estratégico do arquipélago exigem, como é óbvio, uma moeda de troca.

Muitos jovens sabem disso e estão preocupados. É isto (bem como as relações entre Cabo Verde e Angola) que retrata este trabalho feito em Novembro de 2008, com base numa conversa informal , num fim de tarde no para mim mítico bar-restaurante Alkimist, na praia da Quebra Canela.


Neste dossier inseri ainda uma reportagem inicialmente publicada n'"A Revista", do jornal "A Semana", sobre a comunidade cabo-verdiana do Prenda, em Luanda.



Comunidades

Sempre que saio lá para fora, em reportagem, tento retratar as comunidades angolanas nesses países. Porque é importante termos a noção que nos estendemos para lá destas fronteiras africanas e que em muitos países do mundo há angolanos que carregam o nome e a bandeira do país com igual sacrifício e tenacidade, ao contrário do que pensam esses absurdos em forma de gente que acham que os emigrantes são "menos angolanos" só porque não vivem aqui.

São histórias diferentes mas iguais no seu fio condutor - chegadas, lutas e finais felizes ou infelizes, mediante a sorte e o esforço de cada um. Publico aqui dois trabalhos feitos com angolanos em Itália (Janeiro '09) e Cabo Verde (Maio '09).




07 September 2009

Carlos Moore: "Não entrego a ninguém o sonho da dignidade humana"

Carlos Moore. Durante os quatro ou cinco dias em que este etnólogo e cientista político cubano esteve em Luanda, para participar nas comemorações dos 80 anos de Mário Pinto de Andrade, andei numa outra dimensão. Surgiu numa daquelas alturas complicadas, em que pomos em causa todo o nosso trabalho, a sua verdadeira utilidade e capacidade de contribuir para a mudança real que todos queremos.

É raro termos a oportunidade de estar perto de uma dessas figuras que atravessou com grande coerência lutas diferentes e consecutivas - Revolução Cubana, lutas independentistas em África, luta dos negros nos Estados Unidos - e que, perante o fracasso de muitos dos sonhos que as alimentaram, mantêm firmes as suas convicções e ideais. Não por autismo, mas porque ainda hoje consideram ser o correcto. A tal utopia, no fundo, que ainda os fazem denunciar, apontar o dedo, não obstante a ameaça que continua a pairar sobre eles.

A relação de Carlos Moore com Angola é longa. Vem desde 1964, altura em que trabalhou com Savimbi e recebeu um passaporte tunisino que o taxava como angolano. Foi amigo de Viriato da Cruz e de Mário Pinto de Andrade, personagens com quem partilhou o seu próprio exílio, depois da ruptura com o regime de Fidel Castro, em 1963.

Esta entrevista é resultado de horas e horas de conversa. E tem uma imprecisão. Na última página, no final da resposta à pergunta "Mas não ficaram", deve-se ler: "Quando regressei a Havana (fui autorizado a regressar em 1997), antigos militares relataram-me, a chorar, a pilhagem geral e as maldades que tinham cometido aqui". Assumo o erro.



Nesta entrevista refiro a alegada censura no Festival Internacional de Cinema de Luanda (FIC Luanda), em Novembro do ano passado, por parte do Ministério da Cultura, de "Cuba: Uma Odisseia Africana". Documentário que Carlos Moore também critica, por, no seu entender, passar uma visão enviesada da intervenção cubana em Angola.

Na altura do FIC Luanda, quando entrevistava um alto quadro do Ministério da Cultura, este perguntou-me, num "encostar à parede": "Perante uma situação deste tipo, com um documentário que mente sobre a nossa História, o que é que faria?". Respondi-lhe: "Sou contra todo e qualquer tipo de censura. O que deviam fazer era exibir o documentário e fazer depois do visionamento uma discussão sobre o seu conteúdo, desmontando o que, no vosso entender, há a desmontar, e repondo o que se entende por verdade histórica". Óbvio, não? Até pode se, mas a verdade é que tal não aconteceu, e o documentário foi mesmo banido do cartaz do FIC Luanda, sob o pretexto que não fazia parte do alinhamento do festival (e que tinha ido lá parar por obra e graça do Espírito Santo).

Mas o insólito viria depois: numa atitude que podemos, numa interpretação livre, apelidar de "resistência" à tesourada do Ministério da Cultura, o júri do festival elegeu para melhor documentário... "Cuba: Uma Odisseia Africana", filme que supostamente nem fazia parte do cartaz, segundo a ministra Rosa Cruz e Silva. Os fantasmas são assim: aparecem, apanham-nos com as calças na mão e arrancam de nós um grito estridente ou um pânico silencioso.

Mário Pinto de Andrade na mira de Agostinho Neto

Tudo começou com uma entrevista (aparentemente) linear. Dino Matross, secretário-geral do MPLA, sobre Mário Pinto de Andrade, depois de uma cópia digital do espólio do nacionalista ter sido entregue ao MPLA por Henda Ducados, filha do primeiro presidente do partido: "Mário Pinto de Andrade não tem nada a ver com a Revolta Activa". Afirmação repetida e repetida, ao ponto de me deixar irracionalmente confuso, confesso.

Pois bem. Não só Mário Pinto de Andrade foi uma das figuras centrais da Revolta Activa, como as condições em que saiu de Angola, em 1975, terão tido muito a ver com a repressão que Agostinho Neto e o MPLA desencadearam contra os signatários do famoso "Apelo dos 19". Nesse espólio que Dino Matrosse recebeu em mãos, evidenciando a sua importância, constam documentos em que Mário Pinto de Andrade assegura estar a ser alvo de uma conspiração para o matar, orquestrada por um dos assessores pessoais de Agostinho Neto.

Há quem diga que este artigo não promove a "reconciliação". Não posso estar mais em desacordo. Reconciliação não é ficar calado perante o branqueamento da História, por altos dirigentes do partido no poder ou por quem quer que seja, só para não provocar ondas. Reconciliação é, sim, não andarmos a tapar o sol com a peneira, encararmos o passado de frente e seguirmos adiante, em paz com o que aconteceu, e com "o outro", apesar das cicatrizes.