05 November 2010

México: Narco e risadas

Houve os meses que foram passando. Percorri México de uma ponta à outra. Tirando o norte, onde o terrorismo do narcotráfico, as lutas entre clãs antes aliados, agora rivais, multiplicam os banhos de sangue. México sangrento nas manchetes dos jornais. Sangrias em bares e restaurantes, chacinas em festas, centros de desintoxicação e onde calhar. Mais de 28 mil mortos desde 2006, ano em que Felipe Calderón se tornou presidente. Gráfico aterrador em curva ascendente.

Há o medo, sim, embora todos os mexicanos saibam que quem não tem nada a ver com o assunto não é um alvo directo. A não ser que esteja no lugar errado à hora errada. À mesa, durante as refeições de família ou entre amigos, o assunto vem sempre à tona. Enumeram-se as estradas nacionais por onde já é perigoso passar durante a noite, relatam-se movimentos suspeitos de amigos ou vizinhos, contam-se histórias que excitam os noticiários, fala-se na guerra que o governo diz travar contra os narcotraficantes e nos resultados não muito animadores.

E todos dizem algo interessante, que atesta a dimensão do problema. O Governo, já ninguém tem receio de criticar, como há alguns anos. O poder político deixou de ser uma ameaça. O medo, agora, é de falar algo que enfureça os narcotraficantes, porque as represálias são, normalmente, fatais. Só este ano os narcos já mataram 11 jornalistas, segundo os Repórteres Sem Fronteiras. Dezenas de outros foram ameaçados. Tornei-me, inclusivamente, bastante amigo de uma repórter que teve que fugir com a sua filha da cidade onde vivia, para outra, depois de ter escrito um livro em que expunha ligações entre políticos e grupos de traficantes. O que antes era o bufo do governo tornou-se o bufo dos narcos. Por isso há receio em confiar na pessoa ao lado e em chamar a atenção de quem não se deve.

Ao mesmo tempo, há a deslocação interna de habitantes dos estados do norte do país, os mais perigosos, para lugares mais tranquilos no centro e sul do país. Embora segurança seja cada vez mais relativa. Há poucas semanas, até a Cidade do México, onde nunca tinha acontecido nenhum acto violento relacionado com o narco, foi palco de uma matança de seis pessoas. Ciudad Juárez, na fronteira com os EUA, e considerada a mais perigosa do México (o número de assassinatos em relação ao número de habitantes é maior do que em Mogadíscio, na Somália), diz adeus todos os dias a dezenas de habitantes.

Um quadro negativo e negro? Sim, sem dúvida. Mas não extremo. O mexicano, à semelhança do angolano, tem uma capacidade incrível de burlar-se das suas desgraças. Barreira eficaz contra o pânico colectivo. Entre a descrição de episódios macabros, vem sempre a piada, a risada estridente, um coro de vozes e confusão tão típicos da Banda, também. Mexicano ri-se de si mesmo. E essa é a sua principal arma contra a paranóia e a dificuldade.

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