06 November 2010

México: E tem o resto

E tem o resto, que é quase tudo. Para o qual ainda tento arranjar palavras. Já viajei por muitos lugares, vivi nuns quantos, mas só Angola me faz sentir esta incapacidade em descrever o que a terra, a terra mesmo, me faz sentir. Se em Angola é compreensível, ou não fosse esse também o meu país, no caso do México é um enigma.

Cheguei apenas com a curiosidade. E a vontade forte de ver amigos antigos, para além de outros que entretanto tinha conhecido através de contactos cruzados. O que aconteceu nos meses em seguida escapou-me do controlo.

Comparo este país a um vulcão em repouso – explosivo e intenso, dono de um silêncio comprimido. A energia salta cá para fora em avalancha. Ao percorrê-lo, sempre que olhava para a paisagem, batia de frente com essa carga dramática que o caracteriza. México milenar, sofrido, sangrento. México divertido, alegre, festivo, colorido. Gigante. Tudo junto, num só. Isto emociona. E muito. Uma emoção que vem do nada e termina nos olhos, apanhando-nos de surpresa.

Sente-se, quando se caminha, uma urgência-lentidão. É como um velho sozinho, solitário, que se move lento, pés pesados, mas cuja experiência de vida, de rugas, de sulcos impõe um respeito de tal forma emocionado, que é impossível não o abraçar e ouvir as suas histórias, enquanto se chora e ri. É um grito, uma energia que te eleva.

Com a sensibilidade no ponto máximo, não escrevi, não pensei muito. Entrei a fundo na vivência de um povo magnífico, muito terno e divertido. Comi de tudo e mais alguma coisa - tacos, quesadillas, chiles de muitos nomes (mas que não arde como o nosso jindungo, descobri), mole, pozole, flautas, enchiladas, burritos, camarão de todas as formas e feitios. Conheci a música ranchera, o huapango, os mariachis, a banda. Susana Zabaleta, Chavela Vargas, Lila Downs, José Alfredo Jiménez entraram na minha banda sonora oficial. Alucinei com as pinturas (e a história) de Frida Khalo e os murais de Diego Rivera. Li Monciváis, Octávio Paz, Laura Esquivel, Carlos Fuentes.

Vi Pedro Infante como "Pepe, el Toro", figura mítica da época de ouro do cinema mexicano, nos anos 50. Aprendi um pouco do "albur", linguagem plena de duplos sentidos normalmente ligados ao sexo, que desorientam qualquer recém-chegado, para gargalhada do pessoal. E aprendi expressões que só aqui se usam e que tornam o espanhol do México muito divertido, sobretudo pela entoação, que dá às palavras um ar entre o infantil e o burlesco. "Peda", "qué onda?", "pendejo", "wey", "está cabrón", "chamba", "chido", etc, etc, etc.

Vi também como se pode rir da morte, para a qual os mexicanos têm mil e um nomes. Os esqueletos e caveiras estão presentes em tudo - desde doces a jogos de carta, passando por roupas e brinquedos de criança. Oferecer uma caveira de chocolate, de açúcar ou de goma é sinal de apreço, e o dia dos mortos, em 2 Novembro, é acontecimento nacional. Pena que não tenha estado lá para ver.

Assim, ao sabor do que esta terra me ditava, reformulei os meus planos vezes e vezes sem conta. Apaixonei-me mais do que a prudência aconselha e vivi em torno disso. Conheci, entreguei-me, permiti-me e trouxe comigo histórias que me impulsionaram para outros patamares.

Há pouco mais de um mês regressei a Salvador da Bahía. Tinha que voltar, para buscar a maior parte das minhas coisas e fazer o trajecto de despedida. Dentro de umas semanas regresso ao México e a Querétaro. Última etapa de uma viagem na América Latina que se está a revelar uma verdadeira divisora de águas. Como queria que fosse.

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