23 August 2009

A lucidez é um sorriso triste

Os companheiros falam do percurso e da personalidade de Mário Pinto de Andrade. Caminhos cruzados que invariavelmente despertam em mim uma grande admiração. E muita pena. Pelos desvios de uma "utopia" que poderia, quem sabe, ter sido real. Mil e uma situações que atiraram essas figuras para um esquecimento selectivo, e que fazem do nosso país um conto de fadas ilusório, alicerçado em mecanismos que nos estrangulam a liberdade e o progresso social.

Sarah Maldoror: "Em nome da moral fazem-se guerras"

Mário Pinto de Andrade faria 81 anos na última sexta-feira. Esta é minha pequena homenagem a um destes homens que já não há. A começar, uma entrevista à esposa do nacionalista, a cineasta Sarah Maldoror, ela própria um monumento à liberdade e à coerência. Conversa de Novembro do ano passado.

18 August 2009

"Deus está casado com Angola"

Ouvi uma vez, e escapou-me algo. Ouvi segunda vez e, sem querer acreditar, ainda reconfirmei com alguém que estava perto de mim se o que me entrava orelhas dentro era mesmo real. E era. Hoje, em pleno discurso perante os recém-chegados basquetebolistas campeões africanos, Job Capapinha, enrolado nas vestes de vice-presidente do abnegado Movimento Nacional Espontâneo, atirou, a dado momento, em citação de outrem: "Deus está casado com Angola". Viram-se caras espantadas, alguns risos nervosos interromperam o discurso. Mas logo em seguida o antigo governador de Luanda remeudobrou o tom, e com mais força relançou o que "alguém" dissera em relação ao "deca": "Repito: Deus está casado com Angola..."

Imagino que o velho barbudo se tenha revolvido todo lá no céu ou onde quer que esteja. E que até os anjos tenham deixado cair as suas flautas e ficado de boca aberta e olhos esbugalhados perante o anúncio inesperado. De facto, para casamento só faltou o "pode beijar a noiva" e a marcha nupcial.

Mas se é mesmo verdade, resta saber quais as verdadeiras intenções de Deus ao casar-se com uma dama bonita, é verdade, mas que atrai constantemente abutres nojentos. Foi casamento em comunhão ou separação total de bens, como se interrogou um kamba meu ? Foi por conveniência ou por amor? O alembamento, foi quanto? E o pedido, correu bem ou houve discussão da grossa? Como reagiram os velhos tios socialistas a um casamento logo com Ele, o Sr. Deus? E quem levou a noiva ao altar? Um dos muitos padrastos que por aí abundam? Quem foi ao casamento? Apenas os do costume e a UGP? Comeram funje e beberam kissangua ou lambusaram-se com caviar, encharcaram-se em espumante topo de gama e arrotaram caro? Quem foi o palhaço e o bêbado da festa - um homem, um anjo, ou um homem armado em anjo?

E como estavam vestidas as damas de honor? Amarraram-lhes lenços da OPA ao pescoço e puseram-lhes bandeiras do MPLA nas mãos, como fizeram aos jogadores da selecção NACIONAL (e não partidária) de basquete, mal saíram do avião, vindos da Líbia? O coro eram as mamãs da OMA? E a decoração? Muitas bandeiras esvoaçantes do Éme e faixas a dizer "A JMPLA saúda o VI Congresso" (e não os jogadores, note-se), como as câmaras da TPA tão bem focaram na recepção aos campeões africanos, momentos antes do anúncio do casamento de Deus com Angola, por Job Capapinha? E na noite de núpcias, descobriu-se uma Angola virgem ou já iniciada por homens que a usaram e deitaram fora?

De facto, são muitas as perguntas que surgem depois desta afirmação estonteante que deveria dar lugar a uma verdadeira discussão filosófica. Tenho os meus palpites, mas em matéria divina não quero dar certezas, não vá o diabo tecê-las. "Deus está casado com Angola". Que ao menos nos traga Ele a salvação...

Financial Times e a carta aberta da sociedade civil angolana a Clinton



CLINTON'S OILY POLICY

Press coverage of US Secretary of State Hillary Clinton’s Africa trip focused, in an all-too-frequent fit of parochialism, on a flash of marital drama in which she took umbrage at being asked about her husband. The real drama went unnoticed. In an open letter, prominent Angolan dissidents asked her to take a stance on corruption and abuse of power by that country’s elite.

That she did not do so shows the limits of change in US foreign policy, even under a president who made it a linchpin of his campaign. The share of US oil imports from west Africa is expected to almost double to 25 per cent in the next decade. With Nigerian production in precipitous decline, that will be impossible without relying more heavily on Angola.

That helps explain the platitudes with which Mrs Clinton commented on Angola’s governance – in contrast with her more pointed remarks in Nigeria and Kenya. Her reference to Angola’s progress since the end of its civil war was warranted; her vision of a country “positioned to be a leader on the economic front, on the social and political fronts, the security front, in every way” rather less so.

Such a eulogy is a slap in the face of the letter writers, who drew her attention to Angola’s “brutal political reality”. They accuse the circle around President José Eduardo dos Santos of: monopolising key economic sectors such as transport, telecommunications, and banking; strengthening their control of state and private media; carrying out forced displacement and confiscating land without due process; and diverting public funds to private uses with impunity.

These are harsh accusations. But they are backed up by Mrs Clinton’s own state department’s human rights report on Angola, as well as by independent observers. She cannot profess to care about governance in Angola unless she takes seriously those who address it. The writers put themselves at risk of reprisal by Luanda; Mrs Clinton owes them at least a reply.

By taking energy supplies as paramount, Mrs Clinton neglects that the oligarchic power edifice built on high oil revenues is a reason Angola’s peace dividend remains elusive: it ranks second in the world for child mortality.

The US should not repeat its mistake of tolerating despotism to gain short-term stability. Mrs Clinton’s early predecessor as foreign emissary, Benjamin Franklin, suggested that sacrificing one’s liberty for security makes one lose both. In the long run, America may find that this also holds when the liberty sacrificed is that of Africans.

Fonte: http://www.ft.com/cms/s/0/dc8ed662-8b59-11de-9f50-00144feabdc0.html?nclick_check=1

John Marcum: "O poder absoluto corrompe"

"Quando o vencedor [de eleições] concentra em si todo o poder, não governa com compromisso político e não é tolerante com outros pontos de vista." John Marcum

Esta é uma das tiradas algo premonitórias de John Marcum, que entrevistei há exactamente um ano, 21 dias antes das legislativas. Nada que não se soubesse e dissesse por aqui, aliás. Intelectual norte-americano, o autor de "The Angolan Revolution" esteve em Angola pela primeira vez, clandestinamente, em 1962, para estudar a UPA. Nesta conversa com o Novo Jornal insurge-se contra a intervenção dos EUA na guerra civil angolana e defende uma maior abertura democrática.


17 August 2009

O que fazer das palavras?

Falamos e nada. Batemos com a cabeça na parede e nada. Os cães ladram e a caravana passa. E pelo caminho, do alto da nossa ideologia, teoria em estado de decomposição, eles, os que interessam, voltam a suspirar. Sem o saber, talvez, porque já nem olham.

Escrevemos e nada. Da mesma forma o sol se continua a pôr e a se levantar. Com igual exactidão a lua continua a ir, a vir, quarto crescente e decrescente, metade, lua cheia, cheiíssima de verborreias inconsequentes e de bebedeiras que nos matam, pouco a pouco, o sentido do real. Porque o que é custa e dói. E a ficção acaba por ser melhor que a realidade que nos insistem em fazer engolir todos os dias.

Ouvimos e nada. Cheiramos e nada. Vemos e nada. Nada. Porque eles não querem e nos tentam asfixiar e fazer-nos sentir uns zeros à esquerda. Infelizmente pouco mais fazemos que esbracejar. Do alto do nosso pedestal moralista e de barrigas dilatadas atiramos postas. Com riscos, é verdade; com boa vontade, também; mas com pouca sequência. O nosso papel, talvez. O possível, para quem não quer ou não sabe fazer mais.

Temos o povo na boca, mas não o temos connosco. Distanciamo-nos dele, já nem nos reconhecemos como parte dessa massa, fugimos de nós próprios quando ganhamos voz. Perdemo-nos no conceito, trocamos os pés e tropeçamos sempre. Povo. Tiramo-la - a palavra - do bolso, como cartada fatal. E tudo ela justifica – a luta, a inércia; o bem, o mal; o roubo, a generosidade; a morte, a vida. Para, no final, tudo ficar na mesma.

Todos nós, corpos de todos os lados desta luta que já antes de começar era eterna. Sentimos, sim. E quê? Que fazer com tudo isto? Permanecer com os olhos semi-cerrados, a captar flashes que debitamos em discursos homologados pelo que é, para cada um de nós, o “que deve ser”?

Tenho a boca salgada. E os braços em luta de corpo a asfixiar. Por vezes olho em redor e tenho dificuldade em ver, porque a dose soporífera é grande e adormece quem não estiver alerta. O fim último desta estratégia de vitória por cansaço que há quem, bem ou mal, tente continuamente contrariar. Cá de baixo, aquém-barreira de homens armados até aos dentes, olho o centro do poder entrincheirado em seus corredores coloniais e de novo colonialistas. E escrevo. Escrevemos. O possível, o que queremos que seja. Tem que ser, e há que continuar. Mas o que fazer das palavras?

Música do momento: “Gracias a la vida”, Violeta Parra

14 August 2009

Até amanhã, Camaradas

Obscuridade. Elite endinheirada, com os cantos da boca sujos das migalhas de um regime que a instrumentaliza. Povo escorraçado das suas terras por sanguessugas engravatados protegidos pela polícia e militares. O clássico tríptico – homens, mulheres e crianças – nas ruas, espancado pelos homens fardados do sistema. Medo. Das sombras. Crescendo de medo que explode porque não dá mais. Revolta. “Temos fome”. Povo-feito-panela-de-pressão, que explode em grito e marcha sobre a cidade. Resistência. Revolta. Resistência. E bufos. E cobardes. E as sombras, essas sombras. E interrogatórios, tortura, prisão. Repressão. “Pão, pão, pão!”. Grito de quem querem obrigar (mas não se deixam) a sucumbir à lógica imposta.

Qualquer semelhança com a realidade é pura coincidência. Afinal, é apenas ficção. Portugal, 1944. “Até amanhã, camaradas”, mini-série que devorei ontem, madrugada dentro, de uma só vez. Baseada no livro homónimo de Manuel Tiago. Pseudónimo de Álvaro Cunhal. Comunista. 1944, a resistência e a liberdade 30 anos depois. Porque ela é possível. “Até amanhã, camaradas”. Até amanhã.