27 May 2010

27 de Maio

Hoje. 33 anos de silêncios.

Buala

Aqui em baixo, um novo projecto, a que MUKUARIMI se associa:

PRÉ-LANÇAMENTO BUALA [em fase de teste]
Temos o prazer de convidar a visitar online o BUALA, novo portal de Cultura Africana Contemporânea: http://www.buala.org/

A partir de hoje, e durante 30 dias, o portal funcionará em fase de teste para darmos a conhecer o projecto a um grupo de pessoas, instituições e empresas que julgamos poderem ter interesse em colaborar activamente nesta ideia. Estamos portanto permeáveis a sugestões, correcções e novas colaborações.

Com o apoio da Casa das Áfricas [Brasil] e Fundação Calouste Gulbenkian [Portugal], foi possível implementar o site que agora apresentamos. Aguardamos comentários,

Pela equipa BUALA,
Marta Lança, Marta Mestre e Francisca Bagulho

Outono e Lo de Charly

Luz de Outono. Luz e frio de Outono na latitude da Cidade do Cabo, mas num outro lado do mundo. Buenos Aires com o acordeão de Chango Spasiuk. Chámame do norte e nordeste, Misiones. Sempre a música a dar um toque especial à coisa. É vício.

Nas ruas, os despojos das comemorações da Revolução de Maio, que há precisos 200 anos dava o mote para a independência argentina, seis anos depois. A libertação definitiva das “províncias unidas do sul” que o hino, obrigado por decreto, recorda todas as meias-noites nas rádios nacionais. Versão oficial ao estilo militar, versão (lindíssima) de Mercedes Sosa e Folkloristas, ou versão Charly Garcia.

Bicentenário e as ruas da capital federal, o microcentro copy-paste Espanha oitocentista, abarrotadas de gente. Altos e menos altos brancos-europeus, baixos e de olhos rasgados-asiáticos, baixos e menos baixos de pele curtida pelo sol e frio em traços indígenas. Gente de todo o tamanho e feitio a lembrar que a história desta terra é origem e mestiçagem.

Os descendentes dos escravos não se vêem. Não existem mais, ainda que há dois séculos 40% da população argentina fosse negra. Como vários povos índios, foram dizimados, mas numa campanha de esperança podre. Foram enviados para a frente das várias batalhas que moldaram a Argentina. Se regressassem vivos e inteiros, tornavam-se livres. Se não, paciência. Pois bem: ou não voltaram ou desapareceram do mapa. Eclipsaram-se. Argentina parida no sangue – dos negros, dos índios - um milhão de mortos em campanhas de deserto. Um país que agora se celebra.

O sangue também da ditadura. 30 mil mortos em sete anos de um dos regimes mais extremos da América Latina dos finais dos anos 70. Ainda hoje se condenam carrascos, velhos antes em prisão domiciliária dourada, e que vão terminar os dias na cadeia como qualquer criminoso. As feridas estão demasiado abertas, mas pelo menos tentam-se curar. Ao contrário do nosso Maio de 77, que poderá ter vitimado mais do dobro desta tragédia, mas que virou tabu de Estado. A ditadura argentina, dizia. E os valores da liberdade e resistência em noite de celebração nas vozes de intervenção que subiram ao palco.

Noite na avenida 9 de Julio, centríssimo de Buenos Aires, junto ao obelisco onde se ergueu pela primeira vez a bandeira argentina e que, por vezes, serve de pénis encamisado das campanhas de luta contra o SIDA. O aproveitamento político também da praxe de uma data de todos. Partidarização do aniversário de uma revolução, com campanhas do governo de Cristina Kirchner. A lembrar a nossa Banda. Versão mais light, mas igualmente nojenta e inadmissível.

Noite de Buenos Aires e da Argentina oficialmente comemorada. Propagandisticamente comemorada. Cerveja Quilmes e a parrillada do mítico “Lo de Charly” que, às 4 da manhã, já nao há. A festa passou. Os palcos da festa viram esqueleto de metal. A vida regressa, normal, à cidade do tango.

Sábado-Padua

É a cara chapada de Victor Jara. Feições indígenas, queixo alongado, pele queimada, cabelo negro bem liso tombado para o lado direito. Baixo, com telemóvel na mão a controlar os três minutos convencionados para cada intervenção. Diz que “este é um grupo de amor”. Aplausos na ponte pedonal que atravessa a via do Tren de la Costa, estação de Mitre. Amor em anteposição às bandeiras partidárias e ao aproveitamento politico do movimento-cidadão. Senta-se, sério. Abraçam-no. É actor e músico argentino. Padua, chamam-lhe.

É uma assembleia popular. Gente de todas as idades, politizados ou não; estudantes universitários e advogados mais velhos de óculos escuros; curiosos e putos de skate na mão; cães por todos os lados; artistas, malabaristas, músicos; populares, dezenas de pessoas numa reunião espontânea ao velho estilo da utopia, sentados no chão de um espaço público da sua cidade. Juntos, com maior ou menor capacidade de intervenção, maior ou menor romantismo ou pragmatismo, decidem formas de luta contra a construcção de uma auto-estrada no parque do Paseo de la Costa, no bairro Vicente López. “No al vial costero” que separará ainda mais a cidade do Rio de la Plata.

Os que querem, falam. Alguns entusiasmam-se e gritam os chavões “inimigo”, “resistência”. Fantasmas vomitados tantas vezes que já nem assustam. Mas falam, moderados pela jovem socióloga Clara que faz um esforço de titãs para dar voz a todos, pôr ordem na casa e seguir em frente quando o impasse em discussões de nada impacienta.

Assembleia popular também de gente que já tem anos e anos de estrada, num país onde fazê-lo já significou inferno na terra ou carimbo para a eternidade. Discutem-se novas formas de protesto, e de como ganhar tempo para que os advogados "aliados" possam tomar acções legais para impedir o avanço das obras. Fala-se do “misticismo” da acção do dia anterior, em que 20 pessoas enfrentaram, noite dentro, 300 polícias, encerrados no campo três do Paseo de la Costa. Sufoco contrariado por mais de mil manifestantes, sobretudo habitantes do bairro, que ao mesmo tempo, do lado de fora do campo cercado, pressionavam a retirada das forças policiais e exigiam o fim do projecto. Chegou-se a um acordo. As máquinas pararam até à quarta-feira seguinte e os manifestantes foram para casa. Derrota ou retirada estratégica. Discussão também logo abafada na ponte da estação Mitre.

Uma tarde de sábado, simples, como outra qualquer. Cinzentona e fria. E um grupo de cidadãos reunidos num espaço público a discutir como exercer, em conjunto, a sua cidadania. Sem bandeiras partidárias, proibidas, aliás, na manifestação que ocorreria dias mais tarde. Assim só, em defesa de um espaço comum a que o governo da cidade porteña quer pôr fim para erguer prédios de luxo e uma estrada com cheiro a lavagem de dinheiro. A mesma história de sempre.

Ali sentado, assistente de fora, surgiu o anti-paralelismo, inevitável: sábado-cidadão versus sábado-Cuca; sábado-luta versus sábado-resignação; sábado-consciência versus sábado-alienação; sábado-Buenos Aires versus sábado-Luanda; sábado-Padua versus sábado-eu-e-muitos-mais.

O mapa de Carlos Alberto

Numa parede da casa de Carlos Alberto e Juana, um mapa-mundi gigante. A RDC ainda é Zaire, e outros que tais, mas ele lá está, colado, enorme, ameaçado pela humidade (a mesma que obrigou a tirar do lugar o forno eléctrico, na cozinha). Uma torrente de perguntas sai, imprevisível. O olhar curioso deste kota verte em perguntas sobre os mandingas que não somos, dos bantu que sim, também somos, e em questões sobre a colonização.

Com um livro na mão que tirou da sua prateleira de mil folhas, mostra a divisão etno-linguística de África. Fala de kimbundo, dos Mbundo. E da escravatura. Com os olhos bem abertos, solta uma avalanche de palavras ao jeito tão bom de quem não se quer impor ou pavonear com conhecimento, mas partilhá-lo com avidez. Procura saber, fala de África com alguma autoridade e de Angola com simpatia.

Afinal, deste outro lado do mar há quem nos conheça para lá do óbvio. O que, tendo em conta o contexto histórico, é sempre uma boa surpresa. Naquela casa laranja do bairro Olivos, um mapa do mundo XL pinta, a verde e a curiosidade, o quadradinho que somos nós, canto sul de uma África distante da cidade porteña.

Teatro Avenida

Teatro Avenida, Avenida de Mayo, 1222. A minha porta de entrada para Buenos Aires. Depois de um longo caminho no “Crucero del Norte” que me trouxe, ao longo de pesadas 36 horas, de São Paulo até à capital argentina. Paraná de oeste a leste com as plantações de soja que nunca mais acabam, Foz do Iguaçu com fronteira comum a três países, o adeus ao Brasil onde passei três meses. Logo Misiones, Corrientes e Entre Rios com a noite, e o destino final ao nascer do dia. 21 de Maio.

Teatro Avenida e um encontro, seis anos depois. Gonzalo. Amigo grande dos tempos de Santiago de Compostela. Nos primeiros croissants num dos muitos cafés acolhedores da cidade, o desfilar das memórias daquele ano galeglo e incrível em que tudo foi possível. O reafirmar de uma amizade que não se esgotou nem no tempo, nem na distância, e que, mais importante, não ficou retida lá atrás.

Gonzalo percurssionista e músico profissional de vibrafone e marimba, elemento de orquestras que enchem grandes salas da capital argentina, centro vibrante de cultura. A Buenos Aires de Gonzalo e de Jazmin, a sua namorada, activista severa, é a que estou a conhecer. Polvilhada com longas conversas noite dentro, na sua pequena casa octogenária da calle Blanco Encalada. Luz quente e rosada de três pequenos candeeiros e palavras sobre Argentina, Angola, política, memórias, música, cultura, História e mulheres.

A cidade. Altamente europeia no aspecto, no jeito de vestir e de andar. Cinzenta, triste. Melancólica e feminina. Ao mesmo tempo, com uma vibração diferente. América Latina que não se reconhece a si mesma, presa que está numa longínqua raiz europeia que supostamente a valoriza e diferencia. Identidades cruzadas, no fundo.

Os edifícios elegantes do centro, os novos arranha-céus de gosto bastante, mas bastante duvidoso. San Telmo com a feira de antiguidades de domingo, antigo bairro negro da cidade, quando ainda os havia (os negros). La Boca, pobreza em jeito de cartão-postal pintado a cores vivas no lugar onde aportavam os imigrantes que fizeram este país como ele é. Centro turístico de excelência, com tudo o que de aborrecido isso tem.

Belgrano, Puerto Madero, La Recoleta e um cemitério monumental onde descansam todos os presidentes e personagens importantes e snobes. Importante ponto turístico também, mórbido até ao esqueleto. O bairro judeu onde, em 1994, um atentado matou dezenas de pessoas. Ao longo de uma das ruas, o nome da cada uma das vítimas, simbolizadas por árvores.

A cidade. Quadrada, das “cuadras” que tudo indicam e a todos orientam. O sotaque característico dos argentinos, em que o “ll” vira “ch”. Boludo, pelotudo, kilombo, chavon, guita, mina, pibe. Trocar o “tu” por “vos”, o “vosotros” por “ustedes”. Seis anos depois, mergulho de novo no espanhol que, afinal, não esqueci.

Comer o assado é ritual. Carne de todos os tipos e feitios, enchidos de todos os tipos e feitios, uma digestão pesada que ajuda a digerir o fernet, licor cá da banda feito de ervas, amargo adocicado por Coca Cola. Trazido da Europa pelos imigrantes.

Os ecos de Buenos Aires, que se tem vindo a mostrar uma espécie de laboratório político e social da América Latina. Lembranças de repressão, como a de 2001, depois da hecatombe financeira do país. Assembleias populares por todos os bairros, manifestações, perseguição, espionagem, mortes seleccionadas, o assassínio de um anjo que andava de bicicleta, imortalizado na música “El Ángel de la Bicicleta”.

O anjo - activista social que geria um "comedor" para crianças pobres, personagem identificado então pelas autoridades como agitador social. Antes de ser morto a sangue frio, gritou a frase que virou refrão de música e um ícone desses tempos: “bajen las armas/ que aquí solo hay pibes comiendo”. Morreu. Nos dias seguintes por toda a cidade a imagem de um anjo de bicicleta foi chapada nas paredes públicas. Sarampo de consciência. Não morreu. E virou mito.

As músicas. “Maria de los Buenos Aires”, ópera de Piazzola, no Centro Cultural Borges. A eterna Mercedes Sosa, que tanto adoro, e que aqui se projecta na memória e emoção colectivas. E que, afinal, era viciada em alta velocidade e em carros potentes. Sons. Zambas, chámame, tango e tango electrónico e o candombe uruguaio, que vem do outro lado do Rio de La Plata.

Histórias, muitas. Da "mania" das gentes da capital se acharem europeias, do virar de costas aos restantes povos da região. História feita de San Martin, libertador da América do Sul, juntamente com Bolívar, e de sobreviventes do Holocausto e dissidentes nazis que aqui encontraram porto seguro, ironicamente lado a lado. Da construcção da cidade, ou de imigrantes como o avô de Gonzalo, que chegou há 80 anos ao porto de Buenos Aires, vindo de Italia. A boina que trazia nesse dia, castanha clara, foi-me oferecida em mãos pelo Gonz, num gesto altamente simbólico, para mim.

Com uma boina octogenária, um cachecol gigante que a Jazmin me fez, e uma pulseira que ela trouxe de Jujui, no nordeste do país, alta montanha andina, e que me ofereceu, vou descubrindo tranquilamente Buenos Aires. Com um frio de Outono que me gela da cabeça aos pés.

Orangue na Virada

É uma cidade improvável para um tipo como eu, meio provinciano, gostar. Mas gosto dela. São Paulo. Depois do Rio e de uns dias em Paraty (escrevo sobre esta vilazinha mais tarde), a maior metrópole da América do Sul. Cinzenta, tensa, vibrante, a cidade de todas as opções. O lugar gigante onde há tudo para fazer (mas rigorosamente tudo) a qualquer hora do dia. Quando se vem de um deserto de opções como Luanda, saber que se tem tudo à disposiçao, mesmo ficando todo o dia em frente à televisao, sabe muito bem.

Uma semana de amigos de cá que viveram em Angola - Ju, Fabrício e Roberta -, de muita paródia, de viver rápido e de cometer alguns atropelos sentimentais. A constipação que me pegou um beijo, ou muitos beijos, as famílias de cada um, as recordações que se reactualizam em novas experiências juntos.

O fim-de-semana da virada cultural e uma surpresa. Num sábado em que quatro milhões de pessoas anoiteceram e amanheceram nas ruas paulistanas, saio de uma casa de banho de um hotel e vejo-o. Nada mais, nada menos que o Padre Horácio, figura mítica entre as crianças de rua de Luanda, com quem trabalhou durante anos e anos e anos a fio e criou o Centro de Acolhimento Arnaldo Jansen. Ou, muito simplesmente, o Centro do Padre Horácio, como ficou popularmente conhecido.

O Orangue foi uma das pessoas que me apoiou quando cheguei a Luanda em 2004. Era mais um caçula dele. Bebíamos maruvo e dávamos umas voltas ao domingo, depois dele dar a missa. Falávamos de tudo e mais alguma coisa. Em 2006, depois de vir de Cabo Verde, ainda nos encontrámos duas ou três vezes, mas logo ele foi transferido para o Brasil. Perdi-lhe o rasto até agora, três anos depois, num encontro mais que impossível no meio de uma das maiores metrópoles do mundo, numa noite de uma confusão inimaginável.

Almoçámos juntos no dia em que eu viajaria, coincidementente, para o país dele, a Argentina. Pusemos a conversa em dia, actualizámo-nos. E despedimo-nos sem marcar encontro, porque sabemos que ele vai-se dar novamente, num qualquer canto de um mundo improvável.

05 May 2010

Rio angolano


Há uma dinâmica angolana bastante interessante aqui no Rio de Janeiro. Quando cheguei, há uma semana, do outro lado da baía de Guanabara recebeu-me Marta Lança, jornalista portuguesa intimamente ligada a Angola. Um dia depois, saí a tomar umas birras com Keita Mayanda, rapper luandense, aqui de férias. Mais tarde apareceu Ariel de Bigault. Na altura, esta realizadora e produtora cultural francesa, que tem uma vasta obra sobre Angola, estava de passagem pelo Rio, a caminho de Salvador.

No sábado, dia em que chegou Roberta, paulistana que viveu em Luanda, um jantar em casa de Sérgio Afonso, fotógrafo e cineasta angolano que aqui vive há dois anos. Ontem, encontro com Antónia Onofre, jornalista benguelense que passou pelo Rio a caminho do Chile, para um encontro de jornalismo. Pelo meio, telefonemas para Ondjaki, que também aqui mora, e conversas via skype com Agualusa, que fez do Rio de Janeiro uma segunda casa.

Com a cidade como pano de fundo, as discussões sobre Angola. As mesmas, mas à distância, o que permite olhar o país de outra forma. Os problemas, as comparações com o Brasil, as novas ideias e projectos que se querem aplicar quando voltarmos à Banda. A sensação mais real da loucura que são as nossas rotinas e limitações em Luanda. E aquela tirada comum e inevitável, em comparação um tanto ou quanto simplista: "aqui, até a favela tem energia".

Conversas também sobre representações de África que abundam no Brasil - o continente "negro" encarado como um único país, onde vivemos no meio dos animais selvagens e em cima das árvores. A África mítica a que se agarram (até) académicos e os movimentos de reinvindicação dos direitos dos negros brasileiros. Aqui, muita gente que deveria estar muito melhor informada, assume África como a mesma de há 500 anos, cristalizada numa equação ao estilo "tribo e leões, africanos bons e colonos maus". Evita-se a África de hoje, a África real, fruto de todos os processos históricos - desastrosos ou libertadores, externos ou internos - que a varreram desde sempre.

Numa tentativa de afirmação de identidades, muitos afro-brasileiros agarram-se a esta África ancestral para se encontrarem e imporem em peito feito contra o racismo que aqui grassa, mais ou menos camufladamente. As tribos "originais" (o que quer que isso seja), os sobas, os reis e a "mamã África" surgem como uma espécie de tábua de salvação identitária para quem se sente (e é, na verdade) continuamente agredido e excluído.

Os exemplos são vários. Como o que vende Salvador como uma segunda África. Teoria que quem vem de Luanda e passa um tempo na capital baiana não compra nem no arreiou. A colagem é absolutamente forçada. Existem traços comuns nos sons, na gastronomia, em alguns traços fisionómicos e posturas, é certo, mas são ténues e difusos, reminiscências do passado, misturadas com algo novo. Não são africanos, são outra coisa, já - brasileiros.

O Brasil não é africano, nem europeu, nem asiático. O Brasil é o Brasil, e ponto final. E este deveria ser o ponto de partida para qualquer discussão sobre identidade do brasileiro, quer seja índio, "afro", "euro" ou "japa". Não quero mandar boca em casa alheia, mas vir de África permite-me ter uma opinião. E ao agarrarem-se a algo que já não existe, a não ser na cartilha identitária que eles próprios compõem, os afro-brasileiros correm o sério risco de se confundirem e de se perderem ainda mais - ou não fossem muitos dos seus fundamentos meras derivações de equívocos em que insistem em acreditar.

Impressões de corrida

Correm para a frente, para trás. Com pressa, devagarinho. Com sungas ou calções de banho ou de licra, t-shirt ou em tronco nú. Correm com os pés, com bicicleta, de skate e com mp3's e ipod's amarrados no braço.
Hedonismo puro, uma preocupação pelo físico e aparência a toda a prova. O calçadão de Copacabana, Ipanema, Leblon, o da Lagoa Rodrigo de Freitas e sei lá mais onde, de dia, de noite, de noite-dentro - milhares de cariocas de um lado para o outro numa dinâmica que nunca vi, em jeito de corpo único, centopeia disléxica nos seus pés em sentidos contrários.

Uma tentativa

Para onde quer que se olhe, reconhece-se. A da televisão, das canções, poemas. A da sensibilidade e propaganda. A cidade. Verde-mato, branco-areia, azul-céu-mar. Rio de Janeiro a cumprir com rigor e superação os clichés que a tornam o que é, referência e imagem principal do Brasil.

Aqui, a boca sempre em espanto e os sentidos alerta. Cada rotação em grau menor traz algo novo e surpreendente em termos de beleza natural. Não falo, por isso, da cidade cimento. Nem dos contrastes luxo e miséria. Estou aqui há meia dúzia de dias, não tenho mínima propriedade para caracterizar o Rio a outros níveis senão o que me surge como percepção imediata. Apenas vejo os sinais - favelas cintilantes a pontilhar os morros, como o do Dois Irmãos, onde acaba o ultra-luxuoso e chato Leblon. E um distanciamento crónico entre os dois mundos que aqui convivem de costas voltadas.

03 May 2010

Mau génio

Escrever algo original sobre o Rio de Janeiro é para génios. Como não o sou, limito-me a repetir o que tantos já disseram: a beleza desta cidade - meio mato, meio betão; meio luxo, meio miséria - é verdadeiramente extraordinária. As outras palavras (as que na realidade poderão descrever o que se vê por aqui), deixo-as para quem as sabe, de facto, escrever. A mais de que isto não me atrevo.