11 October 2009

Telhados de vidro

Para que não haja dúvidas: repugno com todas as minhas forças a expulsão de angolanos da República Democrática do Congo e do Congo Brazzaville. O que se passa nas fronteiras norte de Angola é reprovável. É desumano, excessivo. É triste e não se justifica, por nada. Entendido?

Acontece que nós temos uma memória muito curta e, pior, como já escrevi aqui algumas vezes, atiramos pedras quando nós próprios temos telhados de vidro. Admito e concordo que a sociedade angolana se indigne e revolte com as expulsões abusivas de cidadãos nacionais que vivem, em muitos casos, há décadas do outro lado da fronteira. No entanto, não posso tolerar que nos remetamos, uma vez mais, para o papel de coitadinhos, de vítimas eternas, de uma nação modelo e santificada que age inocentemente e dentro da mais pura boa-vontade, e que é o alvo privilegiado de todo o mundo, que nos quer ver no chão.

Por estes dias o discurso viciou-se e ganhou o tom de "nós expulsamos ilegais, eles estão a expulsar angolanos legais, que já vivem há muitos anos lá". Mas com muita pena minha, esta não é a verdade pura e dura. Eu mesmo fiz uma reportagem há uns meses, que podem ler AQUI, em que dava conta que 14 gambianos apontavam o dedo a Angola por os ter expulso do país, apesar deles estarem legais. E mais: acusavam as FAA de os terem espancado, torturado, roubado os documentos e os haveres, de os terem humilhado e remetido à condição de animais. A queixa foi apresentada à Comissão Africana dos Direitos Humanos que, depois de apelar às autoridades angolanas para contraporem e explicarem o que se passou, recebeu como resposta um rotundo silêncio. Nem uma justificação, nem uma contra-alegação. Angola não mostrou uma única prova que mostrava, sem dúvidas, que eles eram ilegais. Nada! Mas expulsou-os!

E não tenhamos dúvidas que estes 14 cidadãos, que por acaso são gambianos e não da RDC ou da República do Congo (mas só por acaso), são uma ínfima parte dos muitos que, acredito com muita convicção, têm sérias razões para se queixar do comportamento de Angola. São mais que muitos os indícios que as nossas autoridades agem frequentemente a seu bel-prazer, passando muitas vezes por cima do que é lei, do que é aceitável e de nós, os cidadãos que eles deveriam proteger e não agredir continuamente.

Como também não são segredo para ninguém as denúncias de brutalidades nas zonas diamantíferas das Lundas, principalmente. Se as FAA, Polícia Nacional e empresas de segurança privada pertencentes aos generais que nos governam são continuamente acusadas de espancar e matar até cidadãos angolanos, o que não farão aos estrangeiros (legais ou ilegais), aos "langas", como chutamos continuamente em tom de escárnio? Alguém põe a mão no fogo pela legalidade das acções das FAA ou da PN lá no interior, de onde a informação quase não sai? Eu não, lamento.

Da mesma forma, não me custa nada acreditar que as campanhas contra os imigrantes ilegais assumam uma proporção de "caça", em que tudo o que mexa seja apanhado e enviado em condições nada condignas para o outro lado da fronteira. Porque mesmo na expulsão, como alegaram os 14 gambianos, nenhum dos procedimentos legais que a deviam anteceder foi previsto. É apanhá-los, despojá-los e mandá-los embora com uma mão à frente e outra atrás - exactamente o que estão agora a fazer connosco, angolanos. Com o boomerang de abusos e violência a voltar às mãos que o lançaram, as nossas, entramos numa lógica contraditória e que não nos dignifica nada. Lógica perigosa que reza algo como: se essas atitudes brutais são reprováveis quando as vítimas somos nós, em relação a "eles", langas, que supostamente são "ilegais", até se justificam.

É isto que não aceito - a subversão da verdade e o discurso de dois pesos e duas medidas. Percebo e concordo que Angola vele pelas suas fronteiras e aja contra a deturpação dos seus recursos. Isso é legítimo. Mas não concordo, nem que me paguem milhões, que em nome da segurança nacional se violem os mais elementares direitos das pessoas, ainda que supostamente estejam a cometer um crime. Da mesma forma, não posso nunca concordar com esta retaliação e a forma como nos estão a mandar embora, em nome de algo que nem interessa saber o que é. Porque nada, nem as agressões que lhes possamos ter feito, justifica que pessoas sejam tratadas desta forma. Para mim, essa é a questão fundamental: perdemos há muito qualquer noção de humanismo e de inviolabilidade dos direitos e da dignidade das pessoas, independentemente do que esteja em causa.

Esperemos para ver o que vai acontecer. Nos corredores surgem várias suposições, umas mais alarmantes que outras. Que pelo menos esta história, que ainda por cima se está a desenrolar entre indivíduos do mesmo povo, dividido pelas fronteiras do colonialismo, dê para reflectirmos um pouco mais sobre as consequências dos nossos actos, muitas vezes arrogantes e, como tal, inadmissíveis.

2 comments:

Ju Borges said...

tinha lido no Novo Jornal. Corajoso o texto, gostei
beijo grande!!!

kalunga said...

Corajoso e realista. Li-o no "Novo Jornal". Achei-o despido de floreados, sem edição prévia; directamente do coração para o papel. Entendo e partilho esse sentimento.
Parabéns !!!