Candombe universal


No Barrio Sur da capital uruguaia há desenhos de África e de batuques nas paredes. Numa esquina da Rua Ilha das Flores, palco tradicional do candombe de Montevideu, um graffiti reafirma: "o batuque tem memória, alma do batucador e alma dos seus antepassados". Estamos num lugar sagrado.

© Candombe TV/Maxi López (www.candombe.tv) 

A alma persiste, mas a memória tem espaços em branco. Como diz Lobo  Nuñez, figura mítica do candombe de Montevideu, os escravos "foram vítimas de tráfico ilegal, e no contrabando nunca nada fica registado". "A primeira coisa a desaparecer foi o lugar de onde viemos", comenta no documentário "Pequeños Universos".

A falta de referências ainda hoje cria alguma confusão entre os afro-uruguaios. "Uma parte sente-se primeiro africana e depois uruguaia; outra parte evita ser negra a todo o custo ", baliza Oscar Montaño numa entrevista a "Multicuralismo en Uruguay" . Mary Portocasas, pintora afro-uruguaia, atribui essa atitude ao "racismo que ainda hoje se vive no país", mas dá um giro inesperado: "essa discriminação acabou por criar uma grande força de resistência que, no caso do candombe, não o deixou morrer". E acrescenta: "Cada comparsa (grupo de candomberos) que sai hoje à rua, representa um triunfo de todos os antepassados caídos na escravatura".

 © Candombe TV/Maxi López (www.candombe.tv) 

A prová-lo, está a própria História. "Pelo menos até à década de 1960 e 1970 [...] as negras que dançavam eram consideradas prostitutas e os negros que tocavam eram vistos como bêbados", comenta Oscar Montaño. Vivia-se, então, o período final dos conventillos, conjuntos habitacionais onde viviam os afro-descendentes. Durante esse período de aparente silêncio, o candombe evoluiu, criando as variações que o conformam actualmente. No conventillo Gaboto, desenvolveu-se o toque Cordón; no Medio Mundo, Barrio Sur, o toque Cuarém; e no Barrio Reus al Sur, em Palermo, distinguiu-se o toque Ansina.

Nas décadas de 1970 e 1980, estes redutos foram demolidos. Um tiro que saiu totalmente pela culatra, como conta Lalo Baraibar: "As autoridades pensavam que, ao destruir os conventillos, iam acabar com o candombe. Mas aconteceu exactamente o contrário: o candombe espalhou-se por toda a cidade, acabando por crescer muitíssimo nos últimos 20 anos. Passou de ser uma coisa de negros, para ser coisa de todos os uruguaios".

© Candombe TV/Maxi López (www.candombe.tv) 

























E de todos nós. Em 2009, a Unesco reconheceu esta tradição como Património Cultural Imaterial da Humanidade. Mais um "triunfo do colectivo afro-uruguaio", considera Oscar Montaño, "que, ao longo de 200 anos tem sabido preservar este legado que tem África como mãe", escreve o historiador em Portal Candombe.

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